8 de Janeiro de 2017 - Epifania do Senhor
A Epifania, um mistério multiforme
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A Epifania, a "manifestação" de nosso Senhor Jesus Cristo, é um mistério multiforme. A tradição latina identifica-o com a visita dos Magos ao Menino Jesus em Belém, e portanto interpreta-o sobretudo como revelação do Messias de Israel aos povos pagãos. |
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A tradição oriental, ao contrário, privilegia o momento do baptismo de Jesus no rio Jordão, quando Ele se manifestou como Filho Unigénito do Pai celeste, consagrado pelo Espírito Santo. Mas o Evangelho de S. João convida a considerar "epifania" também as núpcias de Caná, nas quais Jesus, transformando a água em vinho, "manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele" (Jo 2, 11). E que deveríamos dizer nós, queridos irmãos, sobretudo nós sacerdotes da nova Aliança, que todos os dias somos testemunhas e ministros da "epifania" de Jesus Cristo na santa Eucaristia?
A Igreja celebra todos os mistérios do Senhor neste santíssimo e humilde Sacramento, no qual Ele ao mesmo tempo revela e esconde a sua glória. "Adoro te devote, latens Deitas" adorando, rezamos assim com São Tomás de Aquino. (...) Não podemos deixar de prestar uma atenção particular ao símbolo da estrela, tão importante na narração evangélica dos Magos (cf. Mt 2,1-12). Bes eram provavelmente astrónomos. Do seu lugar de observação, colocado no Oriente em relação à Palestina, talvez na Mesopotâmia, tinham observado o surgir de um novo astro, e tinham interpretado este fenómeno celeste como anúncio do nascimento de um rei, precisamente, segundo as Sagradas Escrituras, do rei dos Judeus (cf. Num 24, 17).
Os Padres da Igreja viram neste singular episódio narrado por S. Mateus também uma espécie de "revolução" cosmológica, causada pela entrada do Rlho de Deus no mundo. Por exemplo, S. João Crisóstomo escreve: "Quando a estrela chegou ao ponto onde estava o Menino, parou, o que podia fazer apenas um poder que os astros não possuem: isto é, primeiro esconder-se, depois aparecer de novo, e por fim parar" (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 7, 3). S. Gregório de Nazianzo afirma que o nascimento de Cristo conferiu orbitas novas aos astros (cf. Poemas dogmáticos, v, 53-64; pg 37, 428-429). Isto deve ser totalmente compreendido em sentido simbólico e teológico. De facto, enquanto a teologia pagã divinizava os elementos e as forças do cosmos, a fé cristã, levando a cumprimento a revelação bíblica, contempla um único Deus, Criador e Senhor de todo o universo.
É o amor divino, encarnado em Cristo, a lei fundamental e universal da criação. Isto deve ser visto, pelo contrário, em sentido não poético, mas real. Assim o via o próprio Dante, quando, no verso sublime que conclui o Paraíso e toda a Divina Comédia, define Deus "o amor que move o sol e as altas estrelas" (Paraíso, XXXIII, 145). Isto significa que as estrelas, os planetas, todo o universo não são governados por uma força cega, não obedecem às dinâmicas unicamente da matéria. Não devem ser portanto divinizados os elementos cósmicos, mas, ao contrário, em tudo e acima de tudo existe uma vontade pessoal, o Espírito de Deus, que em Cristo se revelou como Amor (cf. Encíclica Spe salvi, 5). Se assim é, então os homens come escreve São Paulo aos Colossenses não são escravos dos "elementos da criação" (cf. Col 2, 8), mas são livres, isto é, capazes de se relacionarem com a liberdade criadora de Deus. Ele está na origem de tudo e tudo governa não como um motor frio e anónimo, mas como Pai, Esposo, Amigo, Irmão, como Logos, "Palavra-Razão" que se uniu à nossa carne mortal de uma vez para sempre e compartilhou plenamente a nossa condição, manifestando o poder superabundante da sua graça. Existe portanto no cristianismo uma peculiar concepção cosmológica, que encontrou na filosofia e na teologia medievais altíssimas expressões. Ela, também na nossa época, dá sinais interessantes de um novo florescimento, graças à paixão e à fé de não poucos cientistas, os quais nas pegadas de Galileu não renunciam nem à razão nem à fé, aliás, valorizam-nas a ambas profundamente, na sua recíproca fecundidade.
O pensamento cristão compara a criação com um "livro" assim dizia o próprio Galileu considerando-a como a obra de um Autor que se expressa mediante a "sinfonia" da criação. No interior desta sinfonia encontra-se, a um certo ponto, aquilo a que na linguagem musical se classifica "solo", um tema confiado a um só instrumento ou a uma só voz; e é tão importante que dele depende o significado de toda a obra. Este "solo" é Jesus, ao qual corresponde, precisamente, um sinal real: o surgir de uma nova estrela no firmamento. Jesus é comparado pelos antigos escritores cristãos a um novo sol. Segundo os actuais conhecimentos astrofísicos, nós deveríamos compará-lo com uma estrela ainda mais central, não só para o sistema solar, mas para todo o universo conhecido. Neste misterioso desígnio, ao mesmo tempo físico e metafísico, que levou ao surgimento do ser humano como coroamento dos elementos da criação, veio ao mundo Jesus: "nascido de mulher" (Gl 4, 4), como escreve São Paulo. O Filho do homem resume em si a terra e o céu, a criação e o Criador, a carne e o Espírito. É o centro da criação e da história, porque n'Ele se unem sem se confundirem o Autor e a sua obra. (...)
SANTA MISSA NA SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR, HOMILIA DO PAPA BENTO XVI, 06.01.2009
Com sinceros votos de Feliz Ano Novo!
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira