22 de Janeiro de 2017 - Festa de São Vicente

Combateu pela verdade

Hoje celebramos a Solenidade de S. Vicente, que era um jovem diácono de Saragoça, nos inícios do séc. IV, Vicente tinha consagrado a sua vida a Deus e à Igreja, e o bispo de Saragoça, Valério, confiou-lhe a missão de pregar e ensinar. Naquele tempo ainda era arriscado ser cristão, e muitos cristãos tinham sido perseguidos e mortos nos séculos anteriores. Mas já não havia perseguições desde há vários anos, nem sinais que as fizessem prever.


O próprio Imperador romano, chamado Diocleciano, sabia que a sua mulher e a sua filha eram simpatizantes do cristianismo, e nada fazia para o impedir. De uma das janelas do seu palácio, em Nicomédia, (hoje Izmit, na Turquia), o Imperador podia ver a Basílica cristã e aperceber-se de como eram muitos os fiéis que lá se reuniam no Dia do Senhor para celebrar a Eucaristia. No entanto, Diocleciano revelava-se indiferente em relação à fé cristã, e também não mostrava grande entusiasmo pelos antigos cultos da religião romana.

Mas um dia, influenciado por um dos principais regentes do Império, chamado Galério, e por outros seus conselheiros, que odiavam os cristãos por se recusarem a participar nestes cultos pagãos, o Imperador decretou que todos deviam oferecer sacrifícios aos deuses. Se não o fizessem, seriam presos e mortos. Estava-se no final do ano 303, e logo se desencadeou uma sangrenta perseguição, que só durou dois anos, mas atingiu todo o Império, desde Roma a Lisboa, desde a Palestina ao Egipto, passando por todo o norte de África. Em Roma foi mártir, entre muitos outros, Santa Inês; em Marselha, S. Victor; em Mérida, Santa Eulália; em Gerona, S. Félix; e em Lisboa foram mortos os três irmãos Veríssimo, Máxima e Júlia, cujo culto permaneceu vivo ao longo dos séculos na nossa cidade.

Em Janeiro de 304 entrou em Saragoça o governador da Península Hispânica, chamado Daciano, e fez comparecer na sua presença o Bispo Valério e o diácono Vicente. Mas como tinha de partir em breve para Valência, ordenou que ambos fossem levados para lá, presos e manietados. Ali começou o interrogatório. Como lhe custava falar, Valério é posto de parte e mais tarde exilado, ao passo que Vicente é insistentemente incitado a prestar culto aos deuses, mas recusa-se sempre a fazê-lo, e reitera a confissão da sua fé cristã. Por esse motivo, foi cruelmente torturado, mas nenhum tormento o fez renegar a fé em Jesus.

Depois, foi enviado para uma sombria masmorra, onde morreu algum tempo depois, acompanhado nas últimas horas por alguns irmãos na fé. O seu corpo, embora lançado ao mar por ordem de Daciano, veio a ser recolhido pelos cristãos, que o sepultaram dignamente. Diversas relíquias deste corpo martirizado foram conservadas durante séculos - e até escondidas durante o domínio muçulmano - por várias comunidades cristãs da Península, e algumas, vindas de Sagres, chegaram até Lisboa, onde foram recolhidas em 1173, com o apoio do primeiro rei de Portugal. D. Afonso Henriques, na Sé, e aqui têm sido até hoje zelosamente guardadas e piedosamente veneradas.

Vicente significa vencedor, e de facto S. Vicente, como diz Santo Agostinho num dos seus sermões, foi "em tudo vencedor. Venceu nas palavras, venceu nos tormentos, venceu na confissão, venceu na tribulação, venceu abrasado pelo fogo, venceu submerso pelas ondas; por fim, venceu torturado, venceu (mesmo) morto. No momento em que a sua carne, na qual estava o troféu de Cristo vitorioso, era atirada da pequena barca para o mar, como que dizia em silêncio: "Somos abatidos, mas não aniquilados» (2 Coríntios 4,9)".

Uma pergunta nos pode ocorrer: que diferença há entre os mártires cristãos e os que enfrentam a morte por rebeldia ou até os terroristas que admitem perder a vida juntamente com as vítimas inocente que arrastam para a morte? Santo Agostinho, num tempo em que as comunidades católicas enfrentavam também os actos violentos e terroristas da seita dos donatistas, dá a seguinte resposta: "É a causa que distingue o mártir, da insensibilidade dos criminosos. A pena é semelhante, mas a causa é diferente. Pela voz dos mártires, cantámos (de facto, o próprio Vicente pronunciara estas palavras nas suas orações): "Julga-me, ó Deus, e separa a minha causa duma gente não santa" (Salmo 42, 1). A sua causa era distinta, porque combateu pela verdade, pela justiça, por Deus, por Cristo, pela fé, pela unidade da Igreja, pela indivisível caridade".

É interessante que Santo Agostinho ponha na boca de S. Vicente este salmo, que era sempre rezado (e continua a sê-lo, na Forma Extraordinária do Rito Romano) pelo sacerdote antes de subir ao altar para iniciar a Missa. E o famoso salmo conhecido como: "Judica me", em que, nas orações ao pé do altar, se repete três vezes esta versículo tão belo: "Irei ao altar de Deus, a Deus que alegra a minha juventude".

E quando, também hoje, sentirmos que é preciso, na nossa sociedade, tal como os mártires fizeram, continuar a combater, e se necessário, a sofrer pela verdade, por Deus, por Cristo, pela fé, pela unidade da Igreja, pela caridade, façamo-lo com coragem e com alegria, sabendo que são causas sumamente justas, merecedoras que lhes dediquemos o melhor esforço e se necessário a própria vida, apoiados e plenamente confiados na poder da graça de Deus.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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