29 de Janeiro de 2017 - Domingo IV doTempo Comum

A bem-aventurança na terra e no céu

Todo o Evangelho é um convite para viver das virtudes e dos dons do Espírito Santo. Cada passo da vida de Jesus, cada palavra saída de sua boca leva-nos a buscar a Deus com mais amor, a vencer as tentações, a agir bem. Essa vida de virtudes e de dons é o começo da vida eterna, do Paraíso, já presentes na alma em estado de graça. A Vida Eterna é também chamada Bem-aventurança, que significa felicidade. Os que vivem no céu são os bem-aventurados. Por isso, Nosso Senhor, no sermão da montanha, que lemos no capº 5 de S. Mateus, chama bem-aventurados, ou seja, felizes, aqueles que viverem as bem-aventuranças que Ele descreve, pois elas são actos que podemos fazer, actos de grande perfeição, que já nos fazem participar da felicidade do céu. Eis como nos ensina Nosso Senhor no Evangelho:


Jerónimo Nadal, Ilustração de Evangelicae Historiae Imagines (1595)(porm.)

«Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra.
Bem.aventurados os que choram porque serão consolados.
Bem.aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacíficos perque serão chamados filhos de Deus.»

E Jesus termina resumindo tudo numa só frase:«Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus».

Vamos analisar um pouco estas sete bem-aventuranças: As três primeiras descrevem a recompensa do fiel que se ama correctamente a si mesmo, que se converte para Deus. Como nos convertemos para Deus?

- vencendo o apego às riquezas e às honras do mundo - são os pobres de espírito
- aprendendo controlar-nos. a dominar a raiva, as impaciências - são os mansos
- vencendo a tendência ao conforto, à preguiça, aprendendo a sofrer por amor a Deus - são os que choram.

Em seguida vêm duas bem-aventuranças que descrevem a recompensa do fiel que ama o seu próximo: - praticando a justiça. ou seja, dando a cada um o que lhe é devido - são os que têm fome e sede de justiça.

- praticando a bondade, dando ao próximo, por amor de Deus, a ajuda necessária - são os misericordiosos.

E por fim, as duas últimas bem-aventuranças descrevem a recompensa do que ama a Deus acima de tudo, que na vida de oração procura encontrá-Lo, principalmente levado pelos dons do Espírito Santo:

- os que vivem da virtude e desejam agir sempre no bem - são os puros de coração.
- os que esperam receber o prémio pela ajuda que deram ao próximo - são os pacíficos.

Agora que compreendemos o que significa cada uma das bem-aventuranças, torna-se fácil entender por que motivo Jesus prometeu aos que praticarem as bem-aventuranças os prémios que estão descritos no Evangelho:

- os que se desapegam das riquezas da terra e são pobres de espírito, recebem um tesouro no céu: deles é o Reino dos Céus.
- os que conseguiram dominar sua agitação. vivendo pacificamente com todos são os mansos: possuirão a terra.
- os que aceitam sofrer por amor a Deus, os que choram: serão consolados.
- os que procuram dar a cada um o que lhe é devido. com fome e sede de justiça: serão saciados.
- os que são generosos para com o próximo, os misericordiosos: alcançarão misericórdia.
- os que vivem sempre com recta intenção em tudo o que fazem, os puros de coração: verão a Deus.
- os que imitam a Deus procurando a paz entre os homens, os pacíficos: serão chamados fílhos de Deus.

As bem-aventuranças e os dons do Espírito Santo

Mas esta doutrina tão elevada, que nos é ensinada por S. Tomás de Aquino não poderia deixar de ser acompanhada, na alma, pela acção do Divino Espírito Santo, através dos seus dons. A cada bem­aventurança corresponde um dom. Para compreendermos bem esta correspondência, vamos retomar aquela divisão das bem-aventuranças que vimos acima: As três primeiras correspondem à conversão ela pessoa à Deus, o que é realizado pelo Espírito Santo mediante os três primeiros dons:

- os pobres de espírito são os que souberam posicionar-se correctamente diante das riquezas do mundo. Este posicionamento da alma corresponde ao dom do temor de Deus. - os mansos são os que aprenderam a fugir da agitação do mundo, das brigas, ódios, etc. Encontram-se em Deus pelo dom da piedade. - os que choram são os que aprenderam as causas do sofrimento, porque devemos sofrer em união com Jesus Cristo, na Cruz. Este conhecimento é-nos dado pelo dom da Ciência. As duas seguintes, como vimos antes, indicam o fiel cristão que ama o próximo: - os Que têm fome e sede de justiça precisam de lutar constantemente para que cada um receba o que lhe é devido. Precisam então do dom da Fortaleza. - os misericordiosos, que procuram em tudo ajudar aos necessitados, serão conduzidos pelo dom do Conselho.

Enfim, as duas últimas são as que mostram a alma que aprendeu a amar a Deus com perfeição:

- os puros de coração, sempre agindo por amor de Deus, pelas virtudes infusas, verão a Deus, ou seja, receberão o dom da Inteligência.
- os pacíficos, os que alcançaram a paz divina, viverão desta paz pelo dom da Sabedoria. Os frutos do Espírito Santo

Diante desta maravilhosa doutrina a alma chega aos patamares da vida divina, ainda aqui nesta terra. E neste estado em que ela se encontra, reina no coração uma autêntica paz, manifestada por actos de virtudes infusas que são chamados os frutos do Espírito Santo. Eles são enumerados por São Paulo no cap 5 da Epístola aos Gálatas:

1- Caridade - ordena a alma na prática do amor
2- Alegria - consequência normal do amor verdadeiro
3- Paz - fruto da perfeita alegria, tanto interior como exterior
4- Paciência - o equilíbrio da alma que não se perturba com o mal.
5- Bondade - boa vontade para com o próximo
6- Benevolência - agir procurando sempre o bem do próximo
7 - Longanimidade - perseverança na vida da virtude
8- Mansidão - suporta o mal sem se alterar.
9- Fidelidade - não usa de fraude ou enganos.
10- Modéstia - bons modos nas coisas exteriores
11- Continência - a alma aprende a renunciar aos prazeres do corpo lícitos.
12- Castidade - a alma conserva seu corpo e seu coração puros, fugindo dos prazeres ilícitos.

Esses frutos do Espírito Santo fazem a alma fugir dos frutos da carne, que S. Paulo também enumera, que são diversos pecados ou vícios que levam a alma para o mal. Ao contrário, os frutos do Espírito Santo orientam a alma já avançada no amor de Deus em direção à vida eterna, Deus visto como fim último a ser alcançado, Luz Eterna que encherá nossas almas para sempre da plena Felicidade.

Dom Lourenço Fleichman, OSB (adaptado)

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo