19 de Fevereiro de 2017 - Domingo VII doTempo Comum

Jesus não dá preceitos impossíveis

Vários ensinamentos de Jesus no Evangelho de hoje, que pertence ao Sermão da Montanha, podem parecer-nos difíceis de compreender ou difíceis de cumprir. Mas vamos tentar compreendê-Ios, para os podermos viver, como Jesus nos manda. Primeiro: "Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Olho por olho e dente por dente'. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau" (Mateus 5, 39).


Com estas palavras, Jesus ultrapassa a antiga «lei de talião», em que se paga na mesma moeda um mal que nos é feito, ensinando-nos a não pagar a violência com uma violência igual. Jesus proíbe a vingança, mas deixa aberta a possibilidade de resistirmos ao mal por outras formas, sobretudo não violentas, como S. Paulo dirá mais tarde, na Carta aos Romanos: "Não te deixes vencer pelo mal; vence antes o mal com o bem" (12,21).

Na verdade, Jesus continua: "Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra" (Mateus 5,39). Então devemos deixar que nos batam, primeiro na face direita e depois na face esquerda? Não, não é esse o ensinamento de Jesus. A outra face que temos de oferecer, não é a face esquerda, (como se lê na tradução do nosso Leccionário), mas a "outra face" da verdade, ainda oculta ao injusto agressor.

Assim fez Jesus, quando estava a ser julgado pelo sumo-sacerdote. Depois de ter respondido, com grande dignidade, às perguntas que Lhe eram feitas, "um dos guardas, ali presente, deu-lhe uma bofetada, dizendo: «É assim que respondes ao sumo-sacerdote?» Replicou-lhe Jesus: «Se falei mal, mostra onde está o mal, mas se falei bem, porque me bates?»" (João 18, 22).

Jesus protesta contra essa injusta agressão que sofreu, negando ter faltado ao respeito à autoridade, e afirmando o direito que todo o acusado tem à legítima defesa. Jesus ensina-nos a responder com mansidão, como nota S. Jerónimo no seu comentário ao Evangelho de S. Mateus, e também a argumentar, a protestar, com firmeza e serenidade, sempre que a justiça não seja respeitada. Assim fez Jesus, diante dos Judeus e também diante de Pôncio Pilatos, a quem disse claramente que veio ao mundo "para dar testemunho da verdade" (João 18, 37).

Do mesmo modo, como cristãos e cidadãos, temos o direito e o dever de denunciar as leis injustas, designadamente as que permitem o extermínio no seio materno de tantos milhares de crianças, e de exigir aos legisladores que tomem medidas no sentido de proteger a vida humana desde a concepção até à morte natural, e bem assim a maternidade e as famílias, sobretudo as mais carenciadas.

A seguir, no Evangelho, Jesus diz-nos ainda: "Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus" (Mateus 5, 44).

Comenta S. Jerónimo: "Muitos, que avaliam os preceitos de Deus de acordo com a sua debilidade e não segundo as forças que Deus dá aos santos, crêem que os preceitos que aqui se dão são impossíveis, e dizem que, para viver estas virtudes, basta não odiar os inimigos, mas que amá-los é mais do que consente a natureza humana. Mas há que saber que Jesus Cristo não dá preceitos impossíveis, mas sim perfeitos, como aqueles que David cumpriu com Saul e Absalão (1 Reis 24, 9-14; 26, 5-12; 2 Reis 18, 33). Também o mártir Santo Estêvão orava pelos inimigos que o apedrejavam (Actos 7, 59), e S. Paulo desejava ser anátema em favor dos seus perseguidores (Romanos 9, 3-5). E o mesmo fez Jesus, e cumpriu-o, quando disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lucas 23,34).

E Jesus conclui: "«Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos Céus, estote vos perfecti sicut et Pater vester caelestis perfectus est»" (Mateus 5, 48).

Hoje há a tendência de pensar - e até pessoas de grande responsabilidade o têm dito ou escrito - que este apelo à perfeição não é para todos. Mas esta restrição é de uma enorme injustiça. Não existe ninguém que não tenha o bem ao seu alcance, ou que não o possa viver, com a ajuda de Deus. Porventura Cristo não falou para todos?

Dizer que a perfeição não está ao alcance de todos contraria também a doutrina do Concílio Vaticano II. De facto, o capítulo V da Constituição Dogmática sobre a Igreja começa assim:

A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério o sagrado Concílio expõe, é indefectívelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai eo Espírito ao único Santo», amou a Igreja como esposa, entregou-Se por ela, para a santificar (cfr. Ef. 5,25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tessalonicenses 4,3; cfr. Efésios 1,4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve manifestar­se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo; aparece dum modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçada sob a moção do Espírito Santo por muitos cristãos, quer privadamente quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo um admirável testemunho e exemplo desta santidade. (Lumen Gentium, n. 39).

Por fim, a ideia de que a santidade possa não estar ao alcance de alguém é contrária também ao que disse o Papa Francisco: "A santidade não é uma prerrogativa só de alguns: é um dom oferecido a todos, sem excluir ninguém, e por isso constitui o cunho distintivo de cada cristão" (Audiência Geral de 19 de Novembro de 2014).

Em conclusão: não existem pessoas que não sejam chamadas às exigências do Evangelho, e também não faz sentido dizer que uma situação objectiva de pecado possa agradar a Deus ou ser a realização da vontade de Deus.

E não é verdade que a prática das virtudes seja uma perfeição absoluta, que esteja fora do alcance das pessoas «normais». A santidade é oferecida a todos, todos a podemos viver, com a ajuda de Deus, e só ela nos fará verdadeiramente felizes.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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