26 de Fevereiro de 2017 - Domingo VIII doTempo Comum

Pensar no presente

Hoje podemos começar por agradecer a Deus aquilo que temos, todos os bens que possuímos. Quando nos lembramos no sofrimento de tantos seres humanos, reduzidos à mais extrema penúria, como as vítimas do recente furacão que assolou Moçambique, percebemos que temos de dar o devido valor a tudo o que possuímos, tanto os bens materiais como os bens culturais e os espirituais, e agradecê-los a Deus, procurando criar um profundo sentido de responsabilidade.


E sentimos que não os podemos usar de forma egoísta, nem só para o nosso interesse ou utilidade pessoal, mas também para ajudar os outros e para melhorar o mundo. As palavras de Jesus no Evangelho de hoje, que é um dos ensinamentos centrais do Sermão da Montanha, poderão parecer a certas pessoas utópicas ou pouco realistas, nomeadamente quando Jesus convida os seus discípulos a não se preocuparem com a alimentação ou com o vestuário, que são, no entanto, algumas das necessidades mais básicas de todo o ser humano.

Mas Jesus não era um profeta utópico, a sua Encarnação foi autêntica, não Se limitou a parecer homem, foi verdadeiro homem, e por isso conhecia bem a vida, e conhecia bem estas necessidades vitais, que é impossível não satisfazer.

Ele próprio, durante muitos anos, trabalhou para comer e para sustentar a sua casa de Nazaré, onde tinha ao seu cuidado a Virgem Santa Maria, sua Mãe. Depois, como relata S. Mateus, Jesus alimentou as multidões que O seguiam, para que não desfalecessem e pudessem voltar com segurança à sua terra, às suas casas. Jesus sabia o que custa a vida. e como às vezes é preciso lutar com grande esforço para sobreviver ou para assegurar as condições de uma vida digna.

Sabendo isto, o que Jesus pede aos seus discípulos no Evangelho de hoje, é que não busquem os bens mais essenciais à vida e os outros bens materiais que precisam de ter ou de usar, como se fossem «gentios» ou «pagãos», ou seja, como se. assegurando a alimentação, o vestuário, a casa, o automóvel, a escola, os tempos livres, as férias, etc., etc., já não fosse preciso mais nada, e assim a vida estivesse garantida e segura com a simples posse destes bens e de muitos outros que com eles se relacionam.

Muitas pessoas que gozam de um certo desafogo e bem-estar, podem facilmente cair neste erro. Pelo facto de terem muitas coisas, há pessoas que adquirem um falso sentido de liberdade e de poder, e muitas vezes tomam-se arrogantes, egoístas e irresponsáveis.

Isto não significa, evidentemente, que seja melhor viver na miséria ou não ter o essencial. Há bens que precisamos de ter para sobreviver, e outros que valorizam a vida e a tomam mais fácil e mais digna.

No Evangelho, Jesus não se opõe à sua posse. O que Jesus ensina é que, antes destes bens, há um outro ainda mais importante e prioritário, que é a união com Deus e a disposição de cumprir a sua vontade. Por isso ensina: "Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo".

Que Jesus tenha dito: «Procurai», também é para nós muito importante. Implica uma atitude activa, e não apenas passiva. Não ficamos à espera, de braços cruzados, que o Reino de Deus aconteça, mas temos de o buscar, procurar, desejar.

É preciso procurar Deus primeiro, e pô-lo antes de tudo, à frente de tudo. S. Bento, no séc. VI. propôs aos seus monges: "Nada antepor ao amor de Cristo. ("Nihli amori Christi praeponere").

Mas este pode ser, também hoje, um bom propósito para todos: não pôr nada à frente do amor de Cristo. Como comentou Bento XVI, "consiste nisto a santidade". Ser santo é nada pôr à frente de Jesus, e orientar em função d'Ele toda a nossa vida.

Mas precisamos de exercitar na prática esta busca prioritária do Reino de Deus, esta prioridade dada a Jesus. Uma das concretizações desta opção é o lugar que a oração ocupa na nossa vida. Damos à oração o tempo necessário? Se não o fazemos, é porque Deus fica para o fim. S. Bento pede também que à oração "nada se anteponha". "Mas ressalta - como notou Bento XVI- que a oração é em primeiro lugar um acto de escuta, que depois se deve traduzir em acção concreta".

Outra concretização é a Eucaristia dominical, a Santa Missa de Domingo, Dia do Senhor. Às vezes é preciso lutar para não pôr nada à sua frente, e dar-lhe um lugar de honra, no melhor momento do dia, mesmo que seja preciso deixar de lado outras coisas, que serão de certeza muito menos importantes. Toda a gente tem sempre muito que fazer: trabalhar, descansar, viajar, fazer desporto, estar com os amigos... Mas, se tudo isto passa à frente de Deus, a vida perde o seu centro e o seu fundamento. A Eucaristia é a garantia e a fonte do sentido e da verdade de toda a nossa vida.

No Evangelho de hoje toca-nos ainda o apelo de Jesus à confiança, que permite vencer toda a inquietação. É natural que haja coisas que nos preocupam, mas isso não significa que estejamos inquietos. Para nos convencer, Jesus compara-nos às aves do céu, e pergunta: " «Não valeis vós muito mais do que elas?» " O ensinamento é este, como escreve S. Jerónimo: se as aves, que têm uma existência tão breve, são alimentadas pela Providência de Deus, quanto mais os homens, que são chamados para a vida eterna, estão envolvidos pela sabedoria e pelo poder de Deus!

E depois convida-nos a olhar para as maravilhas da natureza. Mesmo as mais simples têm uma beleza fascinante: " «Olhai como crescem os lírios do campo...»" "E na verdade - comenta S. Jerónimo - há alguma seda, alguma púrpura real, algum tecido bordado que se possa comparar com as flores? Existe alguma coisa tão vermelha como a rosa? Ou tão branca como o lírio?"

São imagens que conduzem à mesa conclusão. Ainda mais do que aos lírios do campo, Deus cuida de nós. Quer quando parece que nos deixa por nossa conta, independentes, autónomos, quer quando nos leva pela mão, quer quando nos leva ao colo ou nos abre os braços para nos receber na paz depois das grandes provas, Deus cuida de nós, nunca se esquece de nós.

Por isso não tem muito sentido preocupar­nos ou inquietar-nos com o amanhã, como diz Jesus, porque nos basta pensar no presente. E é bom pensar no presente, neste «hoje» em que estamos. Não nos inquietamos com o futuro, mas medítamos serenamente no presente, porque nele, mesmo no meio dos trabalhos, das aflições e das angústias da vida, Deus cuida de nós como um Pai que nos ama, e que, portanto, sabe sempre bem do que nós necessitamos.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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