5 de Março de 2017 - Domingo I da Quaresma

À imagem de Deus

1. Segundo a Sagrada Escritura, o homem foi criado à imagem de Deus (cf. Génesis 1, 26-27). Este nosso ser "à imagem de Deus" não reside no corpo, mas sim na alma, ou antes, no seu «elemento superior», como diria um grande teólogo do séc. III, Orígenes: a inteligência.

Criados "à imagem de Deus", participamos na vida de Deus Pai, "Aquele que é", segundo a palavra ouvida por Moisés na sarça ardente (Êxodo 3, 14). Todos os que são, participam no Pai, fonte de ser.


E participamos também no Filho: é Ele que nos comunica a qualidade de filhos: filhos adoptivos do Pai. Tornamo-nos filhos pela acção do Filho único. O Filho dá-nos (pelo Baptismo) o que Ele mesmo é: Sabedoria, Verdade, Vida, Luz, etc.

O Filho é o Logos, o Verbo, o Pensamento do Pai. Por isso, enquanto Logos, Ele faz de nós seres lógicos, o que significa mais do que simplesmente racionais. Só o santo, o que vive segundo Deus, é lógico! Os demónios, que eram lógicos, tornaram-se, pela sua rejeição de Deus, seres ilógicos, sem razão, e assim se assimilaram aos animais, tornando-se lima espécie de "feras espirituais".

É talvez isso que explica que o demónio seja apresentado sob a forma de serpente, no relato do capº 3 do livro do Génesis, que se lê no 1º Domingo da Quaresma.

As teorias mais recentes colocam a redação final do Génesis em torno do século V a.C., durante o período após o exílio, quando a comunidade judia se adaptava à vida sob o império persa. Mas o texto original remonta talvez ao séc. X a.C., com fontes ainda mais antigas! Os autores humanos do Génesis não eram ignorantes nem ingénuos, nem recorreram inconsideradamente a mitos antigos de outros povos, mas quiseram exprimir numa narrativa metafórica, com elementos comuns a outras culturas, algo de muito profundo: o homem e a mulher, embora criados por Deus, foram tentados por um poder maligno, que foi para eles como uma serpente, que lhes queria inocular o seu veneno - e conseguiu.

No Livro da Sabedoria, escrito em grego no final séc. I a.C., identifica-se claramente quem é que está por trás da representação da serpente: "Por inveja do demónio é que entrou no mundo a morte; prová-la-ão os que lhe pertencem" (Sabedoria 2, 24-25).

E o Catecismo da Igreja Católica explica desenvolvidamente:

"Por detrás da opção de desobediência dos nossos primeiros pais, há uma voz sedutora, oposta a Deus, a qual, por inveja, os faz cair na morte (Sabedoria 2, 24). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo (cf. João 8,44; Apocalipse 12, 9). Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus» (IV Concílio de Latrão [ano 1215], Cap.1, De fide catholica)".

2. Mas voltemos ao homem, criado por Deus. No facto de ser "à imagem de Deus" está "a nossa principal substância", diz Orígenes, aquilo que mais profundamente nos caracteriza como seres humanos. O homem define-se, no mais profundo do seu ser, pela sua relação com Deus, e pelo movimento que nos encaminha para Deus, até ao dia em que seremos "semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é" (1 João 3, 2).

Este dinamismo acontece graças à acção de Deus, mas também graças à liberdade que Deus deu ao homem, ao criá-lo.

A liberdade significa livre arbítrio, poder de escolha, mas é também libertação de todas as escravidões. A união a Deus liberta, mas a rejeição de Deus escraviza.

Mas, uma vez que o homem é livre, pode acontecer, e de facto acontece, que, em vez de escolher Deus, escolha contra Deus. O diabo quer arrebatar a Deus os seus filhos, e chegou ao ponto de tentar o próprio Jesus. Mas foi rejeitado e totalmente vencido por Jesus, como lemos no Evangelho.

Mas que acontece com aquele que foi criado "à imagem de Deus" e, tentado pelo Adversário, desobedece a Deus, escolhe contra Deus?

Além de perder a amizade de Deus, ele próprio fica "estranho", O pecado cobre-o de imagens adversas, estranhas, e a imagem de Deus quase fica escondida, se não mesmo totalmente oculta.

Há casos em que há uma maldade tão grande, que se diz que "o homem é lobo do homem", como escreveu um antigo escritor romano (Plauto). Alguns homens, na verdade, quase parece que deixam de ser humanos e actuam como animais: como lobos, como raposas ou como serpentes para os seus semelhantes... O mal e o pecado desumanizam o homem e deformam a nossa verdadeira imagem.

3. Apesar disso, a imagem de Deus não pode ser destruída em nós. Esta permanece por debaixo de todas estas imagens que às vezes ocultam a verdadeira humanidade, como a água nos poços de Abraão, que os filisteus obstruiram, como se lê no livro do Génesis (26, 13-19). Aqui se conta que Isaac, filho de Abraão, "tornou-se rico, e foi aumentando cada vez mais a sua fortuna, até chegar a ser extraordinariamente poderoso. Possuía rebanhos de toda a espécie, de gado miúdo e graúdo, e numerosos servos. Por isso, os filisteus tiveram inveja de Isaac. Todos os poços que tinham sido abertos pelos servos do seu pai Abraão, quando ele ainda vivia, foram obstruídos pelos filisteus, enchendo-os de terra. Abimélec disse a Isaac: «Vai-te embora daqui, pois agora és muito mais poderoso do que nós.»

Isaac partiu e, erguendo as suas tendas na torrente de Guerar, ali resolveu permanecer. Isaac abriu novamente os poços que tinham sido abertos no tempo de Abraão, seu pai, e que os filisteus entulharam após a morte de Abraão, dando-lhes o mesmo nome que o pai lhes tinha dado. Os servos de Isaac, prosseguindo as suas escavações no vale, descobriram uma nascente de águas vivas (...)".

4. Pintada pelo Filho de Deus, essa imagem de Deus que temos em nós é indelével. Mas, assim como foi necessário que Isaac viesse para despejar a terra dos poços que o seu pai mandara abrir, somente Jesus Cristo, o novo Isaac, pode limpar os poços da nossa alma das imundícies que nela acumularam os nossos pecados, para que corra de novo a água viva. A permanência no homem da imagem de Deus, ou da sua condição de criado "à imagem de Deus", assegura pela graça de Cristo a possibilidade da conversão. Todos nos podemos santificar, todos podemos tornar-nos justos, como diz S. Paulo, na Carta aos Romanos. "De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos" (Romanos 5, 19). É para isso que vivemos a Quaresma: para que Deus nos limpe, nos purifique, nos santifique, com o Sangue redentor do seu Filho, e com a água viva que é o Espírito Santo, fruto da Páscoa de Cristo.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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