12 de Março de 2017 - Domingo II da Quaresma

A Transfiguração de Jesus para nos mostrar o caminho

Vamos seguir um dos artigos da Suma de teologia, de S. Tomás de Aquino (+1274) sobre a Transfiguração de Cristo:

Devia Cristo transfigurar-Se?


Objecção - Parece que não devia.

Pois, não é adequado a um corpo verdadeiro, mas só a um corpo imaginário, mudar, apresentando figuras diversas. Ora, o corpo de Cristo não era imaginário, mas verdadeiro, como sabemos. Logo, parece que não devia transfigurar-se.

Além disso, os corpos gloriosos têm quatro dotes ou propriedades, como veremos mais adiante: a impassibilidade, a agilidade, a subtileza e a claridade. Logo, Cristo não devia transfigurar-se revestindo-se de claridade, mais do que pelas outras propriedades.

Mas, em sentido contrário, lemos no Evangelho: "E transfigurou-Se diante deles" (Mateus 17, 2).

Resposta - O Senhor, depois de haver anunciado a sua paixão aos discípulos, convidou-os a que imitassem o seu exemplo. Ora, é necessário, para trilharmos bem um caminho, termos um conhecimento prévio do fim. Assim, o arqueiro não lança com acerto a seta, senão olhando primeiro o alvo que deve atingir. Por isso perguntou S. Tomé, no Evangelho: "Senhor, não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?" (João 14, 5). E isso sobretudo é necessário quando o caminho é difícil e áspero, a jornada laboriosa, mas belo o fim. Ora, o fim de Cristo, na sua paixão, era alcançar não somente a glória da alma que, tinha desde o princípio da sua concepção; mas também a do corpo, segundo o que se lê no Evangelho: "Era necessário que Cristo sofresse estas coisas e assim entrasse na sua glória" (lucas 24, 26), E a essa glória também conduz os que imitam o exemplo da sua paixão, segundo a palavra de S. Paulo: "Temos de passar por muitas tribulações para entrar no reino de Deus" (Actos 14, 22).

Por isso era conveniente que manifestasse aos seus discípulos a sua claridade luminosa; e tal é a transfiguração, que também concederá aos seus, segundo a Epístola aos Filipenses: "Transformará o nosso corpo miserável, para o fazer conforme ao seu corpo glorioso" (3,24). Daí ter escrito S. Seda (+ 735): "Na sua bondade concedeu aos seus discípulos que, tendo gozado por breve tempo da contemplação da felicidade eterna, tolerassem mais fortemente as adversidades" (Comentário a S. Marcos, 8, 39).

Resposta às objecções:

1. Explica-o bem S. Jerónimo, comentando o Evangelho: "Ninguém pense que Cristo, pelo facto de o Evangelho dizer que se transfigurou, tivesse perdido a sua forma e figura natural, ou que lhe fosse substituído o corpo verdadeiro por outro, espiritual e aéreo. Mas o próprio evangelista explica a sua transfiguração, quando diz: "O seu rosto ficou refulgente como o sol e as suas vestes fizeram-se brancas como a neve". Com isto manifesta o esplendor da sua face e brilho das suas vestes; assim, a substância do seu corpo não desapareceu, mas somente se transformou pela glória" (Comentário a S. Mateus, 17,2).

2. De entre os quatro dotes referidos, só a claridade é uma qualidade da pessoa em si mesma; quanto aos outros três dotes, eles não são percebidos senão mediante um acto, um movimento ou padecimento.

Ora, Cristo manifestou na sua pessoa certos sinais de ter os três dotes referidos: o da agilidade, quando andou sobre as ondas; o da subtileza, quando nasceu do ventre virginal de Maria; o da impassibilidadc. quando saiu ileso das mãos dos Judeus, que o queriam precipitar ou lapidar. No entanto, não O dizemos transfigurado por casas destas propriedades, mas unicamente por causa da claridade, que diz respeito ao aspecto da sua própria pessoa. (S. TOMÁS DE AQUINO, Suma de Teologia, III parte, questão 45, artigo 1).

E agora uma bela oração escrita por um Bispo brasileiro dos inícios do séc. XX:

Verdadeiro Deus desde a eternidade, quisestes ser também verdadeiro Homem na plenitude dos tempos... Por essa união inefável, deviam naturalmente reflectir-se na vossa Alma, e desta no vosso Corpo, a luz, a beleza e a glória da vossa Divindade.
Mas se Vós assumistes a natureza humana, para, com vossos sofrimentos expiar as nossas culpas, era preciso que não se reflectissem no vosso Corpo as ondas de Glória, que banhavam a vossa Alma: um corpo glorioso não podia sofrer, nem morrer.
Operastes por isso um novo prodígio de amor. A vossa Alma era feliz e gloriosa, o vosso corpo era passível e mortal... Contudo podíeis em cada momento reflectir no corpo a glória e a luz concentradas na Alma, podíeis e assim o fizestes no momento da vossa admirável Transfiguração.
Chamastes três dos vossos Apóstolos, Pedro, Tiago e João, que simbolizavam a fé viva, o amor forte, a pureza Imaculada, e levastes-los à uma montanha alta e solitária...
É no silêncio do retiro e nas elevações do Espírito que vós, ó meu Deus, vos revelais às almas humildes, generosas e puras...Chegados ao cume do Thabor, vós começastes a orar, e os apóstolos dormiram... No fervor da vossa oração, deixastes refluir para o corpo a glória da alma, e eis que a vossa Face começou a resplandecer como um sol e as vossas vestes a brilhar com uma luz clara e viva como a neve! Como devíeis ser belo, sobretudo nesse momento, ó meu amabilíssimo Redentor! Para argumentar a vossa glória, aparecem, revestidos de esplendor e de majestade, Moisés, o mais sábio dos legisladores, e Elias, o mais generoso dos Profetas. Assim Vós nos apareceis como o fim de toda a lei, o complemento de todas as profecias, o centro da antiga e da nova aliança...
Moisés e Elias falam convosco, não do esplendor, que vos envolve, mas da morte que haveis de sofrer em Jerusalém. No Tabor fala-se do Calvário! (...)

D. Tiago Sinibaldi, Bispo titular de Tiberíades,
A Alma aos pés de Jesus

Entre todos os milagres de Jesus, a Transfiguração ocupa um lugar à parte. Acontece no próprio Cristo, e manifesta o que Ele é. É como uma janela aberta ou um lançar de olhos sobre o mundo definitivo, na glória de Deus, em que Jesus já habita no mais íntimo da sua alma, e no qual, pela sua ressurreição, vai permitir a entrada a todos os homens. Sigamo-lo na sua Paixão, levando com Ele a nossa cruz, para podermos participar também um dia na glória da sua Ressurreição.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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