2 de Abril de 2017 - Domingo V da Quaresma

Lázaro e as duas etapas da conversão

1. 0rígenes, grande teólogo do séc. III(+ 253) explica assim a ressurreição de Lázaro: a sua alma tinha-o deixado; eta tinha ido para o «lugar das almas», Daí tinha sido trazida de novo; tinha penetrado no sepulcro. Desde que a pedra foi retirada, Jesus apercebe-se disso. Daí a sua oração: "Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste". Por fim, a ordem de Jesus comunica a essa alma a "tensão" ou energia, necessária à ressurreição do morto. "Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora»". O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: "Desligai-o e deixai-o ir".


Duccio di Buoninsegna, A ressurreição de Lázaro (1308-1311)

Pinturas muito antigas do séc. III na Catacumba de S. Calisto e uma pintura do séc.IV na catacumba de Domitila, em Roma, mostram Lázaro liberto das suas ligaduras e já a caminhar. Mas também há muitos casos em que é representado ainda ligado e curvado. Noutros casos, porém, Lázaro aparece já a andar. Quando o representam a andar, essas imagens querem mostrar Lázaro a obedecer à voz de Cristo, que lhe diz: «Lázaro, sai para fora».

Como é que ele anda, com os pés ainda ligados? Muitos Padres viram aqui um sinal do poder da graça de Deus. Santo Agostinho diz que não era pelos seus próprios pés que ele andava, mas graças ao poder d'Aquele que lhe ordenava que saísse. "Era o efeito do poder do Senhor, não das forças da morte", diz Agostinho, que não perde de vista que esse passo em frente de Lázaro simboliza a confissão das faltas e a decisão de mudar de vida, para a qual o homem não encontra forças em si mesmo, mas só na graça de Deus. Este Lázaro, que depois é liberto das faixas com que estava ligado, é considerado, desde Santo Ireneu, o símbolo do homem preso nos seus pecados. É por isso que o Senhor diz: «Desligai-o e deixai-o ir».

2. Para Orígenes, tal como para Santo Agostinho, o relato de S. João põe em cena duas etapas da conversão: o arrependimento inicial, simbolizado pela saída do túmulo, e a remissão dos pecados concedida pelo Senhor, manifestada pela remoção das vestes funerárias. "O discípulo de Jesus, escreve Orígenes, pode verificar como é que este homem sai do túmulo, graças à voz de Jesus, mas ainda ligado e atado pelas faixas dos seus próprios pecados, vivo pelo arrependimento ao escutar a voz de Jesus. mas com os pés e as mãos ainda presos pelas ligaduras dos mortos. porque ainda não foi liberto dos laços do pecado, e ainda não pode andar com os pés livres nem realizar livremente o bem". "Em relação a libertar-se inteiramente do túmulo, ainda é incapaz de o fazer, enquanto continuar ligado"; "mas, depois de Jesus falar àqueles que o deviam desligar, (...), Lázaro ficou com os pés e as mãos livres; quando depôs o véu que lhe tinha coberto o rosto e que lhe foi tirado, começou a andar, de maneira a integrar-se também no meio daqueles que se põem à mesa com Jesus", Estas duas etapas da ressurreição de Lázaro, Orígenes vê-as já no tempo presente; para Agostinho, a primeira é já aqui na terra, mas a segunda é a vida futura: pois se, em resposta ao apelo de Cristo, o homem já pode caminhar nas vias de Deus, é com uma liberdade ainda 'coxa': esta liberdade só será total na ressurreição do fim dos tempos.

Quem "desliga" Lázaro? S João não o explica, e os Santos Padres hesitaram neste ponto. Para Orígenes, trata-se "daqueles que o podem desligar", "aqueles que lhe podem prestar esse serviço": são evidentemente os ministros da Igreja; o mesmo para Santo Ambrósio de Milão, embora seja tão impreciso como Orígenes sobre este ponto. Santo Agostinho, por sua vez, é totalmente explícito: "Foi dito a03 ministros, que são os apóstolos: "Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu" (Mateus 16, 19)", e portanto: "Desligai-o e deixai-o ir" é uma ordem dada àqueles que, na Igreja, são os seus sucessores.

É sem dúvida por alusão a este poder eclesiástico de perdoar os pecados, que se vêem por vezes, já antes da época de Constantino, dois apóstolos que rodeiam Cristo quando ressuscita Lázaro. Não são as tradicionais silhuetas de discípulos que povoam o fundo de várias cenas nos sarcófagos: têm a mesma estatura que Jesus e são representados de pé.

3. Jesus Cristo é para nós ressurreição e vida no sacramento da Penitência e da Reconciliação, a que normalmente chamamos Confissão. E é assim, porque nos devolve a vida da graça, no caso de a termos perdido, ou a fortalece, se estiver enfraquecida e fragilizada pelas faltas mais leves, a que normalmente chamamos Confissão. E é assim, porque nos devolve a vida da graça, no caso de a termos perdido, ou a fortalece, se estiver enfraquecida e fragilizada pelas faltas mais leves, a que chamamos pecados veniais. Não é por acaso que os Santos Padres chamam a este sacramento «a segunda tábua de salvação» depois do naufrágio que é a perda da graça.

4. Neste Domingo, é bom que nos perguntemos se já nos aproximámos do sacramento da Reconciliação ao longo desta Quaresma, ou em que medida o podemos receber melhor ou com mais impacto de conversão na nossa vida, se já o costumamos fazer com frequência. Na nossa caminhada quaresmal, precisamos de experimentar de um modo novo que "o Pai de misericórdia é a fonte de todo o perdão. Ele realiza a reconciliação dos pecadores pela Páscoa do seu Filho e pelo dom do seu Espírito" como ensina o Catecismo da Igreja Católica (n.1449).

Mesmo que alguma vez nos sintamos como mortos, ou sem forças, ou sem alegria, ou sem ânimo, aproximemo-nos d' Ele, e receberemos uma nova esperança, uma vida nova, já neste mundo, e um dia a vida eterna numa alma glorificada e num corpo ressuscitado, à semelhança do próprio Jesus, ressuscitado de entre os mortos para nunca mais morrer.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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