30 de Abril de 2017 - Domingo III da Páscoa

Reconhecer Jesus

1. Depois de ler o Evangelho de hoje (Lucas 24, 13-35), ficamos sempre impressionados com a sua beleza e a sua densidade. E um texto de grande riqueza teológica e também profundamente humano e emotivo.

Quando o lemos, percebemos que devia ser com palavras semelhantes às dos discípulos de Emaús que a Igreja primitiva fazia o primeiro anúncio de Jesus Cristo aos que não O conheciam. Os primeiros cristãos começavam por anunciar Jesus como um "profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo". Isso mesmo se reflecte no discurso de S. Pedro que hoje ouvimos nos Actos dos Apóstolos. Pedro diz à multidão: "«Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais»" (Actos 2, 22). Sem dúvida, era Deus que agia por seu intermédio.


Albrecht Dürer (1471-1528), Cristo e os discípulos de Emaús

Depois, num momento oportuno, diriam: "E em nenhum outro está a salvação; pois não há nenhum outro nome debaixo do céu dado aos homens pelo qual tenhamos de ser salvos" (Actos 4, 12). E anunciá-Lo-iam, por fim, não apenas como homem, mas como o Filho de Deus, tal como fez S. Paulo, que, logo depois da sua conversão, "imediatamente começou a proclamar pelas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus" (Actos 9, 20).

2. Mas também não ocultavam o escândalo da morte de Jesus, não escondiam que os príncipes dos sacerdotes e os chefes do povo "O entregaram para ser condenado à morte e crucificado", come dizem no Evangelho os dois discípulos de Emaús.

De igual modo a Primeira Carta de S. Pedro, que ouvimos na 2ª leitura (1 Pedro 1, 17-21), se focaliza no valor da sua morte. Apresenta Jesus como "Cordeiro sem defeito e sem mancha", e recorda que fomos resgatados "pelo Sangue precioso de Cristo". O Sangue derramado por Jesus sintetiza todos os seus sofrimentos e em especial a sua morte, entendida como um sacrifício oferecido a Deus por todos os homens.

Este anúncio da morte de Jesus devia causar enorme espanto em todos os que o ouviam. E também hoje não pode deixar de continuar a causar enorme espanto. Como foi possível a condenação de Jesus? Foi certamente a sentença mais injusta de todos os tempos. Mas será que a injustiça prevaleceu? A morte levou a melhor?

No discurso dos Actos, S. Pedro fala logo a seguir da ressurreição de Jesus: "Mas Deus ressuscitou-o, livrando-O dos laços da morte, porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio" (Actos 2, 24). Estas palavras foram ditas no Domingo de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. Nessa altura já era possível falar da ressurreição com toda a tranquilidade e com grande firmeza.

3. Mas não foi logo assim, para muitos tinha havido longas horas de angústia e tristeza, e o Evangelho permite-nos voltar atrás no tempo, e a acompanhar aqueles dois discípulos, que, no Domingo de Páscoa ainda nada sabiam da vitória de Jesus. Vamos também nós voltar a acompanhá-los. Os dois discípulos iam já de regresso à sua terra, profundamente tristes. Voltavam à sua vida de antes, profundamente desanimados, sem horizontes e já sem esperança.

Apesar de tudo, e à mistura com a tristeza, levavam no seu coração uma grande saudade, fruto de um grande amor. Nas suas palavras, já em diálogo com o Desconhecido que Se pôs com eles a caminho, reflecte-se esse enorme carinho por Jesus, que é comum a todos os cristãos, mesmo nos momentos de dor.

Mas este texto do Evangelho, S. Lucas reflecte, principalmente, a condescendência que Jesus teve com os dois discípulos quando veio ao seu encontro no caminho e lhes explicou as Escrituras, e sublinha a sua bondade, quando concordou em entrar em casa e partir o pão com eles. E permite-nos ainda escutar ao longo dos tempos, com a mesma emoção da primeira vez, este pedido insistente e emocionante dos dois discípulos a Jesus: "«Ficai connosco, Senhor»".

No entanto, o centro do Evangelho é o reconhecimento de Jesus pelos dois discípulos. Este reconhecimento, fez-se em dois momentos ou etapas, que todos podemos percorrer, e por isso é importante sermos capazes de as identificar.

4. O primeiro é a compreensão das Escrituras. Todas elas, "começando por Moisés e passando por todos os profetas", falam de Jesus, e iluminam a necessidade da sua paixão e morte para entrar na glória. É preciso saber ler nas Escrituras este anúncio de Jesus, para que o nosso coração possa também «arder» de amor e fé. Foi precisamente a explicação da Escritura que incendiou o coração dos discípulos ao longo do caminho.

O segundo momento foi a fracção do pão: Jesus, "quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento, abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No". Não parece haver dúvidas de que S. Lucas nos quis fazer ver neste gesto de Jesus um sinal ou anúncio da Eucaristia, que também muitas vezes é chamada, sobretudo nos Actos tios Apóstolos, "Fracção do Pão" (cf. 2, 42.46; 20, 7.11). Não pode haver dúvida da interpretação eucarística que S. Lucas deu a esta acção de Jesus.

5. 0s dois meios que temos para chegar ao reconhecimento de Jesus são, portanto, as Escrituras e o Pão partido por Jesus. A explicação das Escrituras incendiou os corações, mas não produziu logo o reconhecimento. Este só aconteceu quando Jesus partiu o pão, e foi então que se deu o verdadeiro encontro com o Ressuscitado.

Assim acontece também hoje. A leitura da Palavra de Deus ilumina a nossa vida. E a comunhão do Pão santíssimo da Eucaristia, em que está presente o seu Corpo imolado, unido ao seu Sangue derramado, transforma-nos intimamente, enche-nos de alegria, e aproxima­nos dos outros de um modo novo. Depois de o recebermos, recomeçamos a caminhar com mais desejos de entrega e dom de nós mesmos.

Na alegria do Tempo Pascal, peçamos por intercessão de Maria Santíssima que aumente em nós a fome da Palavra explicada por Jesus na sua Igreja, e do Pão em que Ele próprio Se oferece em alimento, depois de Se ter oferecido na Cruz, para levarmos ao mundo uma nova esperança e a alegria de Jesus ressuscitado.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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