28 de Maio de 2017 - Ascensão do Senhor

«O Senhor se eleva entre aclamações»

1. É motivo de profunda alegria para a Igreja toda, e também para a Humanidade, a celebração litúrgica do mistério da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual foi exaltado e glorificado solenemente por Deus. A Liturgia aplica hoje a Cristo, que retoma ao Pai, as exultantes palavras que o salmista dedica ao Eterno:

"Deus Se eleva entre aclamações, o Senhor, entre clamores de trombetas. / Cantai ao Senhor, cantai ao nosso rei, o rei da terra inteira, o Senhor reina sobre as nações. / Deus está sentado em seu trono santo" (Salmo 46/47, 6-9).

Neste "mistério da vida de Cristo" nós meditamos, de uma parte, a glorificação de Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, e, de outra, a sua partida desta terra e o seu retorno ao Pai.


ícone Oriental, A Ascensão do Senhor

Tal glorificação, também no seu aspecto cósmico, é posta em realce por S. Paulo, que nos fala da extraordinária grandeza do poder de Deus em relação a nós, manifestado em Cristo.

"Quando o ressuscitou dos mortos e O fez sentar nos Céus, à Sua direita, acima de todo o Principado, Potestade... e acima de todo o nome que se evoca não só neste mundo como também no futuro" (Ef 1, 20 s.)

A Ascensão de Cristo representa uma das etapas fundamentais da "História da salvação", isto é, do plano de amor misericordioso e salvífico de Deus para com a humanidade. Com a sua clara e profunda limpidez, São Tomás de Aquino, nas suas meditações sobre os "mistérios da vida de Cristo", salienta de modo admirável como a Ascensão é causa da nossa salvação, sob um dúplice aspecto: da nossa parte, dado que a nossa mente se move para Cristo, com a fé, a esperança, e a caridade; da Sua parte, enquanto elevando-Se Ele nos preparou o caminho para também nós subirmos ao Céu; porque Ele é a nossa Cabeça, é preciso que os membros O acompanhem lá, onde Ele os precedeu: "A Ascensão de Cristo é directamente causa da nossa ascensão, dando início a esta na nossa Cabeça, à qual é necessário que os membros estejam unidos" (Summa Theol.III, 57,6, ad 2).

2. A Ascensão é não só a glorificação definitiva e solene de Jesus de Nazaré, mas também o penhor e a garantia da exaltação, da elevação da natureza humana. A nossa fé e a nossa esperança de cristãos hoje são reforçadas e corroboradas, dado que somos convidados a meditar não só na nossa pequenez, na nossa fragilidade e na nossa miséria, mas também naquela "transformação", ainda mais admirável da mesma criação, realizada por Cristo em nós quando estamos a Ele unidos mediante os sacramentos e a graça. "Nós comemoramos e liturgicamente celebramos o dia, em que a humildade da nossa natureza foi elevada em Cristo acima de todas as ordens celestes - diz-nos São Leão Magno -, acima de todas as hierarquias angélicas, para além da altura das Potestades, até ao trono de Deus Pai. Ora, neste contexto de operações divinas nós estamos estabelecidos e edificados: assim de modo mais maravilhoso se tornará a graça de Deus, quando... a fé não duvida, a esperança não vacila, a caridade não enfraquece. Esta é verdadeiramente a força dos grandes espíritos, esta é a luz das almas autenticamente fiéis: acreditar sem hesitação naquele que não aparece aos olhos do corpo e volver o desejo para lá, onde não se pode dirigir o olhar" (Sermo LXXIV, 1: PL 54, 597).

3. No momento em que Jesus se separa dos Apóstolos, dá-lhes o mandato de O testemunharem em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos extremos confins da terra (cf. Act. 1, 8) e de anunciarem a todos os povos "a conversão e o perdão dos pecados" (Lc. 24,47).

A Solenidade da Ascensão, [neste Ano Jubilar da Redenção], portanto, é para todos nós um veemente convite a um singular empenho de penitência e de renovamento interior, é um apelo universal à conversão. Pois - como escrevi na Bula de promulgação do Ano Santo - todos somos pecadores, todos temos necessidade daquela "profunda transformação de espírito, de mente e de vida que na Bíblia se chama precisamente metánoia, conversão. E esta atitude é suscitada e alimentada pela palavra de Deus que é revelação da misericórdia do Senhor (cf. Mc. 1, 15), se realiza sobretudo mediante os sacramentos e se manifesta em múltiplas formas de caridade e de serviço aos irmãos" (Aperite portas Redemptori, 5).

É este o rico significado litúrgico, teológico e espiritual da presente Solenidade. Desejo portanto fazer minhas as palavras que um outro grande meu Predecessor, São Gregório Magno, dirigia, nesta ocasião, aos fiéis de Roma reunidos em São Pedro: "Com todo o coração devemos seguir Jesus para onde sabemos pela fé que Se elevou com o seu corpo. Deixemos os desejos da terra: nenhum dos ligames desta terra nos satisfaz, a nós que temos um Pai nos céus... Ainda que estejais aturdidos no embate das ocupações, lançai desde hoje na pátria eterna a âncora da esperança. Não procure, a vossa alma, senão a verdadeira luz. Ouvimos que o Senhor se elevou ao céu: reflictamos com seriedade naquilo em que acreditamos. Apesar da debilidade da natureza humana, que nos prende ainda à terra, o amor nos atraia para o seu seguimento, pois estamos bem certos que Aquele que nos inspirou tal desejo, Jesus Cristo, não há-de desiludir-nos na nossa esperança" (In Evangelium Homilia XXIX, 11: PL 76,1219).

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DE NOSSO
SENHOR JESUS CRISTO
HOMILlA DO PAPA S. JOÃO PAULO II
Basnica de S. Pedro - 12 de Maio de 1983

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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