2 de Julho de 2017 - Domingo XIII do Tempo Comum

O Divino Revelador

1. A 1ª leitura apresenta-nos um belo exemplo de "carisma profético". Eliseu, acolhido generosamente por um casal sem filhos, anuncia-lhe que, no ano seguinte, por aquela época, já uma criança estará nos braços da mãe, enchendo de alegria aquela casa.

Concluímos assim que lhes foi dada a justa recompensa por terem recebido um profeta "por ele ser profeta", como diz Jesus no Evangelho de hoje.


Cristo Pantocrator - ícone bizantino

Falando de profetas, será correcto incluir também Jesus entre os profetas? Terá Jesus tido também este "carisma profético" que permite falar em nome de Deus e anunciar o futuro?

2. Não seria justo nem conforme com o testemunho dos Evangelhos fazer de Jesus um simples profeta como qualquer dos profetas de que fala o Antigo Testamento.

Admitimos sem dificuldade que, como verdadeiro homem, Jesus precisou de aprender tantas coisas que os seres humanos não conhecem, ao vir a este mundo, e precisam de continuar a aprender ou a aprofundar ao longo da vida.

Mas temos de reconhecer também que Lhe foi comunicado um conhecimento de outro nível, a que muitos autores dão o nome de "ciência infusa".

Este conhecimento sobrenatural, posto à disposição da inteligência humana de Cristo, é superior ao conhecimento concedido aos profetas, e faz de Jesus Cristo o Revelador perfeito, que leva ao seu termo e à sua plenitude a longa série de profetas de que nos fala a Sagrada Escritura.

Também há quem prefira, em vez de falar de conhecimento, falar de "luz": uma luz sobrenatural infundida no espírito humano de Cristo, que Lhe permitia conhecer o plano divino da salvação, como nenhum profeta seria capaz de conhecer, e dotando-O assim do saber sobrenatural de que tinha necessidade para cumprir a sua missão.

3. Jesus Cristo sempre soube quem era, e qual era a sua missão. D'Ele, Verbo feito carne, se deve dizer que foi sempre "cheio de graça e de verdade", como lemos no Evangelho de S. João: "E o Verbo Se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, a glória do Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade." (João 1,14).

Sendo o Verbo feito carne, Jesus Cristo não fingiu ser homem, não representou um papel, foi verdadeiro homem. Essa "ciência infusa" ou luz sobrenatural que iluminou a sua inteligência, não impediu Jesus de viver com toda a densidade humana e com todo o realismo e até dramatismo cada um dos momentos da sua vida pública, e em particular as circunstâncias da sua dolorosa Paixão que O levaram à morte na Cruz.

4. Em todos os momentos, Jesus conhecia o desígnio divino, a vontade do Pai e a sua missão redentora, que abraçou com plena liberdade e com amor sem limites. Até que chegou a sua Hora, a Hora de se entregar como cordeiro levado ao matadouro para morrer por nós.

E foi talvez nesse momento, na imediata iminência da morte, que essa luz divina que iluminava o seu espírito, até então como que filtrada por um quebra-luz e circunscrita ao nível mais elevado da sua alma, irradiou com todo o fulgor, e Jesus conheceu pelo seu nome a todos os seres humanos por quem deu a vida, a todos e a cada um, a vós e a mim. É o que permitirá a S. Paulo dizer: "O Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim" (Gálatas 2,20).

É a partir de então que se torna (ainda mais) plenamente verdadeiro o que S. Tomás de Aquino diz sobre o alcance do conhecimento da alma de Jesus Cristo: "A alma de Cristo conhece no Verbo todas as realidades, em qualquer momento que elas existam, e mesmo os pensamentos dos homens, de quem é juiz" (Suma Teológica, III, questão 10, artigo 2).

E já que conhece os nossos pensamentos e os sentimentos mais íntimos do nosso coração, pedimos que o Supremo Profeta, o Divino Revelador os inspire e purifique sempre; que inspire especialmente as grandes escolhas que fazemos na vida; e nos conduza com a sua mão poderosa em todas as nossas acções, para que um dia O possamos conhecer e contemplar face a face, como já hoje somos por Ele conhecidos.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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