16 de Julho de 2017 - 15º Domingo do Tempo Comum

"Saíu o semeador a semear"

O Evangelho de hoje fala-nos de um semeador e de uma semente. "Saiu o semeador a semear", Como explica S. Jerónimo, este semeador é o próprio Jesus Cristo, que semeia no coração dos homens a sua palavra, que é também a palavra do Pai.

Ao comparar a sua palavra a uma semente, Jesus ensina-nos, em primeiro lugar, que a sua palavra é muito poderosa, contém um dinamismo e uma força própria, um potencial imenso, que não depende de nós;


A Parábola do Semeador, conforme ilustrada no Hortus Deliciarum
por Herrad de Landsberg, na Abadia de Hohenburg, na Alsácia (séc. XII).

mas, em segundo lugar, ensina-nos que este dinamismo poderoso requer a nossa correspondência. O germinar da semente e sobretudo a qualidade e a abundância dos frutos dependem da terra em que é acolhida, que é o coração de cada um de nós. Há quatro tipos de terra, segundo a parábola de Jesus: a que está logo a beira do caminho, a que está cheia de pedras, a que está cheia de espinhos, e por fim a terra boa. Só na terra boa é que a semente dá frutos, e pode dá-los com muita abundância, como diz Jesus: trinta, sessenta ou cem por um! .

No famoso Sermão da Sexagésima, (como se chama, no rito romano «mais antigo» o penúltimo domingo antes da Quaresma ou, aproximadamente, o sexagésimo dia antes da Páscoa), pregado na Capela Real, em Março de 1665, o Padre António Vieira propõe a seguinte explicação: "Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens, Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes, Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum".

Ao longo dos tempos, no seu esforço por fazer a terra produzir o máximo possível, os homens conseguiram muitas vezes desbravar terrenos que pareciam totalmente inóspitos para a agricultura, limpando-os de pedras, de espinhos, de matagal, tornando-os terra boa para lhes dar o alimento necessário. O esforço feito por inúmeras gerações de agricultores, permite-nos alimentar a esperança de que até a terra cheia de pedras ou cheia de espinhos, como às vezes é o coração do homem, se pode transformar em terra boa.

E, pensando naqueles que já começaram em si mesmos esta transformação, Jesus diz: "«Quanto a vós, felizes os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem»". Felizes os que vêem Jesus com os olhos da fé, felizes os que abrem os ouvidos à sua palavra e se deixam tocar por ela, felizes aqueles que conhecem Jesus e acreditam Nele! Mas, às vezes, "vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração". O Diabo rouba à alma o se tesouro precioso, e pode ser difícil recuperá-lo! Outras vezes, são as dificuldades que resultam de alguém querer ser coerente com a sua fé, ou as críticas, as incompreensões e até as perseguições, que abalam a fidelidade do cristão.

E em muitos casos, talvez os mais numerosos, são "os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza", como diz Jesus, que "sufocam a palavra, que assim não dá fruto". Quantas pessoas, por serem um pouco mais abastadas, ou por viverem uma vida mais intensa, já acham que são senhores da sua vida, que não precisam de Deus, e sem pena nem desgosto, e até por vezes com uma certa arrogância, O esquecem, negam ou desprezam! Que para todos chegue, como também para nós, "o espaço da verdadeira penitência", a hora da perfeita conversão. Que toda a terra do mundo se converta em terra boa, arável, fértil, acolhedora da semente divina.

Mas há momentos em que mesmo a melhor terra não produz, por falta de água, como acontece hoje em vários países do mundo, devido à terrível seca que os afecta. Também os nossos corações podem tornar-se áridos, se nos faltar a água do Espírito Santo. O Espírito é "a água viva que brota de Cristo crucificado, como da sua fonte, e jorra em nós para a vida eterna" diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 694). Na «Sequência do Espírito Santo», que cantamos no Domingo de Pentecostes, pedimos a dado momento: "Riga quod est aridum, Regai o que está seco..." O Espírito Santo não permite que a nossa fé estiole e seque. Quando alguém sentir uma certa aridez, reze ao Espírito Santo!

S. Paulo, na 2ª leitura de hoje, da Carta aos Romanos, diz que já "possuímos as primícias do Espírito". As primícias são os primeiros frutos da colheita que se oferecem a Deus em sacrifício, abençoando assim toda a colheita. Mas também podem significar, como parece ser aqui o caso, um penhor ou garantia do que está para vir. Nesse sentido, peçamos a graça de recebermos ainda com mais abundância os dons do Espírito Santo, para vermos e ouvirmos Jesus Cristo com grande fé e amor, com um fascínio sempre maior, e produzirmos mais frutos, trinta, sessenta ou cem por um, e assim darmos a Deus, já neste mundo, toda a glória, pelo infinito poder com que nos criou e pelo infinito amor com que, em Jesus, nos salvou.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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