10 de Setembro de 2017 - 23º Domingo do Tempo Comum

Responsabilidade cristã

1. À luz do Evangelho de hoje, é muito claro que a Igreja tem de ser cada vez mais um espaço de comunhão, onde nos somos ajudados a crescer na fé e a corresponder com alegria ao projecto de Deus.

A Igreja é como uma família, uma família de vínculos sobrenaturais. Na família, aquilo que acontece com um dos membros, interessa aos outros, não os deixa indiferentes, fá-los alegrar-se ou sofrer. Na Igreja, embora sejamos muitos, não podemos viver indiferentes ao crescimento espiritual dos nossos irmãos, ou às eventuais dificuldades, tentações e obstáculos que encontrem no seu caminho para Deus.

No Evangelho, Jesus diz-nos: "Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós". Se procurarmos a versão original deste texto, em grego, verificamos que tem um alcance maior que o da nossa tradução. O texto original diz: "Se oteu irmão pecar diante de ti", ou: "Se tu vires o teu irmão a pecar..."; nesse caso, se tal acontecer, continua Jesus, "vai ter com ele e repreende-o a sós" (Mateus 18,15).

É como se Jesus nos dissesse: Se vires que o teu irmão se afasta da fé ou da sua vocação cristã, não penses que não é nada contigo. Com grande respeito, mas com muita amizade humana e sobrenatural, interpela-o claramente, mostra-lhe onde está a falhar, oferece-lhe a tua ajuda. E se for necessário, pede ajuda à Igreja, fala ao sacerdote. O que é preciso é que não deixeis perder esse teu irmão. O que é preciso é que não o deixeis separar-se da comunhão.


Profeta Ezequiel

Pode haver casos, porém, em que acaba por acontecer uma grave ruptura da comunhão eclesial. No Evangelho, Jesus prevê essa hipótese: "Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um gentio e publicano" (Mateus 18,17).

A isto se chama, em linguagem canónica actual, «excomunhão», que é uma pena muito grave, mas que pode ser aplicada pela autoridade da Igreja, na esperança de um dia vir a ser levantada, logo que possível, com o objectivo de "chegar a uma reconciliação interna no seio da Igreja" (Bento XVI, Carta aos Bispos, 7 de Julho de 2007), o que já aconteceu muitas vezes ao longo da história.

2. Na primeira leitura, o profeta Ezequiel dava conta da missão que tinha recebido de Deus: "Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires uma palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte". O profeta é para todo o povo como uma sentinela. Sabe que deve avisar os seus irmãos de todos os perigos que se avizinham, para que se defendam a tempo, para que se convertam, enquanto é tempo. E sabe também que Deus lhe pedirá contas dos seus silêncios e das suas omissões.

Esse mesmo sentido de responsabilidade, temos de o experimentar nós em relação, por exemplo, a um vizinho que deixámos de ver na Missa desde há algum tempo, a uma pessoa que nos expôs algumas dúvidas de fé, a um colega que manifestou curiosidade ou interesse por conhecer melhor a doutrina cristã, e até àquele que se apresenta como céptico ou agnóstico, mas que no fundo revela alguma inquietação e desejo de encontrar a verdade.

3. S. Paulo, por sua vez, na 2ª leitura, dizia-nos que a caridade é uma dívida que nunca está saldada: "Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor uns pelos outros".

Uma das expressões fundamentais da caridade é o interesse e o compromisso pela conversão e santificação dos outros. É uma tarefa que nunca conseguiremos realizar só com as nossas forças. Mas confiamos na ajuda de Deus, de acordo com o que Jesus nos diz, no final do Evangelho: "Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-Ihes-á concedida por meu Pai que está nos Céus".

Na Missa de hoje, peçamos que os que estão em perigo de se afastar da comunhão se reconciliem com Deus e a Igreja, e que se acenda no coração de muitos o dinamismo da busca e a chama da fé que os leve até Jesus Cristo e, por Ele, ao conhecimento do Pai e do seu amor misericordioso.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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