17 de Setembro de 2017 - 24º Domingo do Tempo Comum

A força do perdão

1. Perdão ou vingança? É esta alternativa que as leituras de hoje nos apresentam. Também há outras hipóteses: perdão ou indiferença, perdão ou desprezo. Mas a Palavra de Deus, confirmada definitivamente por Jesus, tem uma opção muito clara: perdão, e não vingança; perdão, e não rancor nem sequer indiferença.

E a justiça, onde é que fica situada no meio de tudo isto? A justiça não se opõe ao perdão. Pode-se perdoar, e deve-se perdoar, como ensina Jesus, mas o perdão não implica renunciar a pedir justiça.

No início de Setembro, o Papa Francisco visitou a Colômbia, onde a guerrilha marxista, durante cinquenta anos, provocou milhares de vítimas na população civil colombiana, com assassinatos, atentados, mutilações, sequestros, destruição de igrejas e aldeias, campos de concentração, aliciamentos e sequestros de jovens e crianças para servir a guerrilha, inclusive como escravas sexuais.


"Cristo com os Apóstolos" - Catedral de Notre Dame de Paris (pormenor)

Na homilia da última Missa que celebrou na Colômbia, na cidade de Cartagena das índias, que foi, entre os séculos XVI e XVIII, um dos maiores centros do comércio de escravos oriundos da África, confortados e evangelizados por grandes missionários, como o jesuíta S. Pedro Claver, falecido em 1654, disse o Papa Francisco: "Nestes dias, ouvi muitos testemunhos de pessoas que saíram ao encontro de quem lhes fizera mal. Feridas terríveis que pude contemplar nos seus próprios corpos, perdas irreparáveis pelas quais se continua a chorar, e, contudo, aquelas pessoas saíram, deram o primeiro passo num caminho diferente daqueles já percorridos".

Na sua homilia, o Papa Francisco prosseguiu mais adiante: "As feridas profundas da história precisam necessariamente de instâncias onde se faça justiça, se dê possibilidade às vítimas de conhecer a verdade, seja devidamente reparado o dano e se actue claramente para evitar que se repitam tais crimes. Mas tudo isto deixa-nos apenas no limiar das exigências cristãs. A nós, cristãos, é-nos exigido gerar «a partir de baixo. uma mudança cultural: à cultura da morte, da violência, responder com a cultura da vida e do encontro" (Homilia em Cartagena das índias, Domingo, 10 de Setembro de 2017).

2. É este o grande desafio cristão. Depois deter ouvido um conjunto de impressionantes testemunhos de vítimas e também de carnífices das décadas de guerra na Colômbia, disse o Papa dirigindo-se a Deus "Obrigado, Senhor, pelo testemunho daqueles que infligiram dor e pedem perdão; daqueles que sofreram injustamente e perdoam. Isto e possível com a Vossa ajuda e a Vossa presença. Isto já é um sinal enorme de que quereis reconstruir a paz e a concórdia nesta terra colombiana".

E concluiu: "Colômbia, abre o teu coração de povo de Deus e deixa-te reconciliar. Não tenhas medo da verdade nem da justiça. Queridos colombianos, não tenhais medo de pedir perdão e de perdoar. Não oponhais resistência à reconciliação que vos faz aproximar uns dos outros, reencontrar-vos como irmãos e superar as inimizades. É hora de sanar feridas, lançar pontes, limar arestas. É hora de apagar os ódios, renunciar às vinganças e abrir-se à convivência baseada na justiça, na verdade e na criação duma autentica cultura do encontro fraterno".

3. E quando se trata das pequenas ofensas do dia-a-dia? Será fácil perdoar, na nossa vida corrente? Jesus sabe que perdoar não é fácil. Mas sabe que, quando conseguimos perdoar, o nosso coração se enche de alegria. Maior do que a alegria de perdoar, só existe a alegria de sermos perdoados, por Deus e pelos outros!

Querer perdoar e saber perdoar é vital para o ser humano. Por isso, quando S. Pedro, no Evangelho de hoje, mostra que já está a querer seguir por este caminho, Jesus convida-o a ir muito mais longe. Pedro queria perdoar "«até sete vezes»", e perguntou a Jesus se achava bem. Mas Jesus convidou-o a não pôr limites nem fronteiras na sua disposição de perdoar, e respondeu-Lhe: "«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete»".

No entanto, Jesus deve ter pensado que Pedro se poderia sentir fraco, incapaz, diante de uma exigência tão vasta de perdão, que abrange a vida inteira. Para perdoar, é preciso uma motivação muito forte. E por isso Jesus contou a seguir a parábola do rei e dos dois servos. Quando a ouvimos, percebemos muito bem por que se deve perdoar aos outros: porque Deus, primeiro, nos perdoa a nós! E o que Deus nos perdoa, não tem comparação com o possamos ter de perdoar aos outros. A diferença entre a dívida ao rei (dez mil talentos) e a dívida de um servo ao outro servo (cem denários) corresponde à que hoje haveria entre três milhões de euros e uns poucos cêntimos! Não há comparação possível.

O critério cristão já não é, portanto, fazer aos outros aquilo que nos fizeram a nós, mas fazer aos outros o que Deus nos fez a nós. E o próprio Jesus foi o primeiro a fazê-lo. Quando O estavam a pregar na cruz, orou ao Pai, dizendo: "«Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem»" (Lc 23, 34). Jesus não se limita a ensinar: mostra-nos a força do perdão na sua própria vida, e dá-nos a graça para o vivermos. É isto que distingue a fé cristã de qualquer religião do mundo.

4. Há grandes ofensas que implicam grandes perdões, mas também há os perdões de cada dia: na vida do casal, na família, no trabalho, entre amigos, colegas, conhecidos. Como proceder? Perdoamos e recomeçamos, ou cortamos à primeira ofensa? Às vezes parece muito difícil perdoar, porque a outra pessoa não dá sinais de arrependimento. Nesse caso, é necessário manter vivo no coração o desejo de perdoar, pedir ajuda a Deus, e esperar que chegue esse momento. Mas quando esse obstáculo não existe, quando o outro se apresenta como sinceramente arrependido, estamos à espera de quê? Há que avançar, perdoar logo e recomeçar, se possível num amor mais forte, ou numa amizade mais sincera, e sempre numa caridade mais profunda.

Mas não basta querer perdoar: é preciso ter a coragem de pedir perdão. Pode acontecer que, quando achamos que temos de perdoar aos outros, o que temos é de lhes pedir perdão! Olhando para nós e para os outros com o olhar de Jesus saberemos sempre percorrer os caminhos do perdão, quer para o dar, quer para o pedir, e enquanto os percorremos, receberemos de Deus o dom da alegria e da paz.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo