15 de Outubro de 2017 - 28º Domingo do Tempo Comum

Para que o convite chegue a muitos

1. A vida dos homens está marcada por um acontecimento decisivo. Houve um acontecimento que marcou para sempre a nossa história: foi a Encarnação do Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Deus Pai enviou ao mundo o seu Filho, que Se uniu à natureza humana e Se tornou verdadeiro homem: é Jesus Cristo, nosso Senhor.


Jan Luyken, O convite para o banquete

A sua união com a humanidade é tão intensa, que se pode comparar a umas núpcias, à união fiel e indissolúvel dos esposos.

2. Para ilustrar estas bodas sobrenaturais, Jesus contou uma parábola, relatada com matizes diferentes por S. Mateus e S. Lucas, na qual um rei preparou uma festa de casamento, um banquete nupcial para o seu filho. Mas este filho é sem dúvida o próprio Jesus, que «desposou" a humanidade, unindo-Se a ela pela sua Encarnação, e dando a vida por ela, pela sua paixão e morte na Cruz.

Entre o Filho de Deus e a humanidade, representada pela Igreja, que em seu nome responde ao amor esponsal de Cristo, há um verdadeiro matrimónio, modelo de todo o matrimónio e fonte inspiradora da sua fecundidade.

O rei tinha preparado uma grande festa, mas, por estranho que pareça, quando mandou os seus servos chamar os convidados para as bodas, "eles não quiseram vir". Voltou a insistir, "mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio".

Estes servos, como sugere S. Jerónimo, representam os profetas, tantas vezes rejeitados pelos Judeus, e fazem pensar nos Apóstolos, que depois também seriam repudiados pelos seus próprios irmãos.

Alguns dos convidados às bodas assumiram até uma atitude de desconforme e imprevisível violência: "apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos". Mas o resultado foi, como seria de esperar, o envio dos exércitos do rei, que "acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade".

Esta passagem trágica reflecte talvez, como sugere o Pe. Leonardo Castellani (El Evangelio de Jesucristo, p. 296), a futura situação da cidade de Jerusalém, que viria a ser destruída, como o próprio Templo, que foi pasto das chamas, na sequência das revoltas do povo, insensatamente instigado pelos Fariseus e pelos Zelotas, contra a autoridade romana.

Apesar de tudo, depois da renúncia dos primeiros convidados, e da cega e absurda violência de alguns, o rei não desistiu de fazer a festa das bodas do seu filho, e mandou de novo os seus servos, que, "saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons, e a sala do banquete encheu-se de convidados".

3. E aqui encontramos um novo pormenor trágico. Na sala do banquete aparece um homem sem o "traje nupcial", que é severamente repreendido, amarrado de pés e mãos, e depois lançado "às trevas exteriores". Não será excessivo?

Não, se pensarmos que o "traje nupcial" significa a graça santificante (ibid.). Agora o banquete das núpcias representa claramente o Reino dos Céus, o Banquete da Vida Eterna, e aqui é impossível alguém entrar e permanecer sem a veste interior que é a própria vida de Deus na alma. O inferno é bem simbolizado aqui, mais do que pelas chamas, pelo seu contrário, pelas "trevas exteriores", que representam o vazio tenebroso e gelado da ausência de Deus.Sem Deus mergulhamos na noite escura e gelada da solidão absoluta.

É o que Jesus nos ensina, e não podemos adocicar o seu ensinamento, que é muito severo, porque melhor que ninguém Jesus sabe o mal que pode fazer viver em pecado, e ainda mais morrer em pecado, sem arrependimento, sem conversão, sem abertura à graça de Deus que liberta, cura e ilumina.

Pensemos agora nos convidados que aceitaram, e naqueles que hoje continuam a ser convidados, e querem aceitar o convite! E esses, hoje, somos nós!

Também nós fomos convidados e, graças a Deus, estamos na Igreja, e celebramos a Páscoa de Cristo. Mas há uma pergunta a que não podemos fugir: procuramos ser cada vez mais dignos deste convite que recebemos?

Trazemos vestido o traje nupcial? Aproximamo­nos com frequência do Sacramento da Reconciliação ou Confissão, para recebermos de coração puro o alimento precioso do Corpo de Cristo, na Eucaristia?

4. Também hoje muitas pessoas buscam o que lhes parece urgente, aquilo que lhes apetece mais, aquilo que lhes dá mais gozo, mas desprezam com grande indiferença o essencial, e não chegam sequer a escutar o convite de Deus. É preciso que haja alguns, como os servos do rei, que os vão convidar. Quase todos os dias, vejo passar aqui, pela Rua dos Jerónimos, ao fim da tarde, uma pequena multidão de jovens, que vêm de uma escola vizinha, e regressam a casa. Muitas vezes me tenho perguntado: quem lhes pode falar de Deus? Quem lhes pode anunciar Jesus? É importante que conheçam Jesus! É necessário que o convite ae Deus chegue até eles: quem o pode levar?

Todos nós podemos fazer chegar este convite a muitas pessoas, amigos, colegas, conhecidos, e até desconhecidos. Vamos às encruzilhadas dos caminhos, onde estão as pessoas normais como nós, vivendo uma vida intensa, mas talvez fechada ao essencial. Vamos convidá-la, sem temor, e sem desistir, se algum não aceitar. É preciso que a "sala do banquete" se encha de convidados, para que todos sintam, quer nas horas de alegria quer nas horas de tristeza, quanto Deus os ama, e possam um dia ser escolhidos, como nós esperamos sê-lo, para o banquete da vida eterna.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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