19 de Novembro de 2017 - 33º Domingo do Tempo Comum

Corresponder ao amor de Deus

Escutamos hoje no Evangelho a parábola dos talentos, e não podemos escutá-la sem nos examinarmos a nós próprios: como é que correspondemos aos dons de Deus? Mas há outra pergunta que nos pode surgir: por que é que o terceiro servo, ao contrário dos outros dois, não pôs a render aquele talento que recebeu? Era só um, mas isso não significava que tivesse pouco valor; pelo contrário, um só talento tinha muito valor, correspondia a uma grande fortuna.

E no entanto, escondeu-o na terra! Porquê? A resposta que este servo deu ao seu senhor na hora de apresentar contas pode-nos esclarecer.
Respondeu assim: "«Senhor, eu sabia que és um homem severo...»" Que significa esta resposta? Se passarmos agora da parábola para a realidade, vemos que esta resposta é a mesma que dão aquelas pessoas que têm de Deus uma imagem injusta, uma imagem falsa. Pensam em Deus como um Deus severo, como um Juiz exigente e rigoroso. Não reconhecem que Deus é antes de mais um Deus que ama os homens, um Deus de amor, um Deus que é amor! Imaginam Deus à maneira dos falsos deuses de tantas religiões. Mas Deus é santo, Deus é a verdade, Deus é amor.


Parábola dos Talentos

E porque têm de Deus uma imagem falsa ou deformada, porque imaginam um Deus distante, longínquo mas ao mesmo tempo muito exigente, arranjam uma desculpa, uma falsa desculpa para não O amarem, para não Lhe obedecerem, para não O servirem! A resposta do terceiro servo é uma falsa desculpa. É apenas uma tentativa infeliz de encobrir a sua preguiça, o seu desleixo. Quem tem essa imagem de um Deus distante e severo, pode-se desculpar de uma forma parecida, para se manter numa atitude também distante e indiferente. É o que leva algumas pessoas a não aprofundar a sua fé, a não serem praticantes, ou até a serem totalmente indiferentes. Como alguns que dizem: «Essas coisas não me interessam, a religião não me interessa...»

Quando começamos a acreditar no amor de Deus, tudo muda!. Não temos que ter medo, não precisamos de nos defender ou esconder de Deus, nem podemos continuar a ser indiferentes. Temos simplesmente que corresponder ao amor que Deus nos tem. A exigência da vida cristã não nasce de uma suposta severidade de Deus, nasce, pelo contrário, do reconhecimento do seu amor por nós. Se Deus me ama assim, como é que eu posso continuar a amá-Lo tão pouco, e a render tão pouco, ou quase nada, a amartão pouco, a servir tão imperfeitamente os meus irmãos? Não é uma exigência imposta, é um dever que nasce de dentro, a partir de uma experiência vivida, que nos leva a desejar corresponder muito mais ao amor que Deus é, aoamorque Deus nos tem.

A primeira leitura fala-nos da "mulher virtuosa", mas esta mulher, tal como a descreve o Livro dos Provérbios, aparece como uma mulher activa, zelosa, empreendedora, mas sobretudo como uma mulher crente: "a mulher que teme o Senhor é que será louvada". Muitas conversões, desde os inícios do cristianismo, se devem às mulheres-esposas, às mulheres-mães, e também às mulheres-avós, e muitas outras vezes às irmãs, às namoradas. às noivas. Talvez este seja um «carisma» especial da mulher: gostaria de pedir a Jesus que ele não se perca na Igreja de hoje!

Mas a liturgia propõe-nos esta leitura para nos convidar a imitar a mulher activa, neste esforço alegre de correspondência aos dons de Deus. O Evangelho sugere-nos um dinamismo de crescimento, e fala-nos de um aumento. de um acréscimo desses dons, que também decorre do nosso esforço, com a ajuda de Deus. Cinco talentos renderam outros cinco. Dois talentos renderam outros dois! O tesouro da fé que recebemos não pode ficar enterrado, tem de crescer. E também o número dos que crêem, tem de aumentar. Não nos basta juntar em certos momentos uma grande multidão de fiéis, é preciso que aumentem as conversões, que aumente o número dos que seguem Jesus e O amam!

E por isso tem de aumentar o número dos nossos amigos, daqueles a quem falamos de Deus, daqueles a quem desafiamos a conhecer e a amar Jesus Cristo. E isso tem de acontecer, não numa vida à parte desta, mas no ritmo e no dinamismo da vida corrente, que é um tempo de Deus, que pode ser santificado e santificador. S. Paulo dizia, na 2ª leitura: "Sobre o tempo e a ocasião não precisais que vos escreva..." Refere-se ao "dia do Senhor", o dia da vinda gloriosa de Jesus. E diz que esse dia - e o mesmo se poderia dizer do dia da nossa morte - não nos irá surpreender, porque "somos filhos da luz e filhos do dia: nós não somos da noite nem das trevas". Por isso, acrescenta S. Paulo, "não durmamos, como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios". Estar vigilante é permanecer livre para se comprometer naquilo que vale a pena. E sobriedade é a atitude de quem não se deixa enganar pelas seduções do mundo, mas quer que a sua mente permaneça aberta à verdade, e o seu coração capaz de se amar e de se dar por amor: seja ao próprio Deus, seja a uma outra pessoa, seja a um ideal de serviço e de paz.

É assim que queremos viver neste tempo, que é fugaz e passageiro, mas precioso: na esperança de corresponder aos dons que recebemos de Deus, e de um dia podermos escutar do Juiz santo e justo estas palavras misericordiosas: "«Muito bem, servo bom e fiel... Vem tomar parte na alegria do teu Senhor»".

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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