31 de Dezembro de 2017 - Sagrada Família

"Reconhece, ó cristão, a tua dignidade"

Que bonito é o Menino nascido no presépio de Belém! Mas quem é este Menino? E o que é que celebramos verdadeiramente no Natal? No Natal, celebramos o nascimento físico e terreno de Jesus, que sua Mãe, a Virgem Maria, gerou e trouxe ao mundo.


Mas este não foi o seu único nascimento, porque Jesus, enquanto Filho de Deus e Verbo do Pai, tem um outro nascimento, que é divino e eterno. O Filho de Deus é gerado pelo Pai, desde toda a eternidade. E não só desde toda a eternidade, mas continuamente, porque em Deus há um eterno presente.

O Filho de Deus e Verbo do Pai poderia nunca ter-Se feito homem, porque Deus poderia ter salvado o mundo de muitas outras formas. Mas é próprio de Deus, enquanto Sumo Bem, comunicar-Se, e este é já o primeiro motivo da criação do Universo. Por esse mesmo motivo, quando se tratou de recriar todas as coisas em Cristo, Deus escolheu a comunicação mais perfeita, que consistiu em que o Filho de Deus Se fez homem, unindo à sua natureza divina a nossa natureza humana, constituída por corpo e alma. Foi muito bom e muito conveniente que assim tenha acontecido!

Mas a Encarnação e o Nascimento de Jesus não foram apenas convenientes, foram também necessários. S. João explica-o no seu Evangelho: "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu a seu Filho unigénito, para que todo o que crê n'Ele, não morra, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16).

Portanto, para a salvação e reparação da natureza humana, foi necessário que o Filho de Deus encarnasse e Se fizesse homem. Santo Agostinho diz mesmo: "Não havia nenhum outro modo que mais conviesse à cura da nossa miséria" (De Trinitate, XIII, 10.13).

E isto, como explica S. Tomás de Aquino, antes de mais no que se refere ao nosso progresso no bem: Primeiro, a nossa fé torna-se mais firme, pelo facto de que acreditamos em Deus, que nos fala pessoalmente, em Jesus Cristo. Segundo, a esperança intensifica-se no mais alto grau, ao vermos o Filho de Deus assumir a nossa condição humana. Terceiro, a nossa caridade é maximamente fortalecida, ao vermos quanto Deus nos ama. Quarto, a Encarnação dá-nos um modelo de vida, pelo exemplo que Jesus apresentou. Quinto, a Encarnação e o Nascimento de Jesus permitem a nossa participação na natureza divina, que é a Verdadeira felicidade do homem e o fim da vida humana. Foi isso que nos foi conferido pela humanidade de Cristo, como repetem tantos Padres da Igreja: "Deus fez-Se homem, para que o homem se torne Deus".

Ao mesmo tempo, a Encarnação e o Nascimento de Jesus foi útil para nos afastar do mal: Primeiro, porque assim o homem aprende a não ceder ao demónio, que é o autor do pecado. Segundo, porque por este mistério descobrimos toda a dignidade da natureza humana, que não devemos manchar pelo pecado. Um grande Papa do séc. V, S. Leão Magno, deixou-nos este apelo:

"Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias com um comportamento indigno da tua geração".

Terceiro, porque é anulada a presunção humana, em face da graça de Deus, que nos é dada, sem nenhum mérito da nossa parte.

Quarto, porque a soberba do homem, que é o máximo impedimento para nos unirmos a Deus, pode ser neutralizada e curada pela tão grande humildade de Deus, que vemos brilhar no Presépio e em toda a vida de Jesus. Quinto, para livrar o homem da servidão do pecado, o que só foi possível por Jesus Cristo Se ter oferecido por nós. Pois, um puro homem não podia satisfazer por todo o género humano; e Deus não o devia fazer. Por isso, era necessário que Jesus Cristo fosse Deus e homem. Çomo diz também S.leão Magno: "A fraqueza é assumida pela força, a humildade pela majestade; de modo que, como convinha à nossa salvação, um mesmo mediador entre Deus e os homens pudesse, como homem, nascer, e como Deus, ressurgir. Pois, se não fosse verdadeiro Deus não daria remédio; e se não fosse verdadeiro homem, não daria o exemplo" (cf. Sermo 1 in Nativitate Domini).

E conclui S. Tomás, "há ainda muitos outros benefícios vindos da Encarnação, que ultrapassam o conhecimento humano" (Summa Theologica, III, questão 2).

Cada um de nós já experimentou certamente estes incontáveis benefícios da presença do Filho de Deus feito homem na nossa vida.

Vamos propor a outros que também os queiram experimentar, para que possam renascer em Jesus, e este Mundo em que vivemos, que vai iniciar um Novo Ano, se possa renovar e transformar pela graça de Cristo.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo