7 de Janeiro de 2018 - Epifania do Senhor
De muito longe...
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A festa de hoje, a Epifania do Senhor, que se celebra 12 dias depois do Natal, no dia 6 de janeiro, ou no Domingo mais próximo desta data, fala-nos da manifestação de Jesus aos Magos do Oriente, que reconheceram naquele Menino recém-nascido o Rei que procuravam. Quem eram os Magos? Como se chamavam? Um santo monge inglês do séc. VIII, S. Beda Venerável, Doutor da Igreja, é um dos primeiros a dar-nos os seus nomes, recolhendo as tradições que chegaram até ele: "Melchior era mais velho, de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era jovem, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era árabe, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz". Segundo o mesmo S. Beda, estes são nomes com significados precisos, que nos ajudam a compreender as suas personalidades. Gaspar significa "aquele que vai inspeccionar"; Melchior quer dizer: "Meu Rei é Luz", e Baltasar significa "Deus manifesta o Rei". |
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Para S. Beda - como para os demais Doutores da Igreja que falaram deles - os três representavam as três raças humanas existentes, em idades diferentes. Neste sentido, eles representavam os reis e os povos de todo o mundo. Também os seus presentes têm um significado simbólico. Melchior deu ao Menino Jesus ouro, o que na Antiguidade queria dizer reconhecimento da realeza, pois era presente reservado aos reis. Gaspar ofereceu-Lhe incenso, em reconhecimento da divindade. Este presente era reservado aos sacerdotes. Por fim, Baltasar fez um tributo de mirra, em reconhecimento da humanidade. Mas como a mirra é símbolo de sofrimento, vêem-se nela preanunciadas as dores da Paixão redentora. A mirra era presente para um profeta. Era usada para embalsamar corpos e representava simbolicamente a imortalidade. Desta maneira, temos o Menino Jesus reconhecido como Rei, Deus e Profeta pelas figuras que encarnavam toda a humanidade.
A exegese católica interpreta a chegada dos Reis Magos como o cumprimento da profecia de um salmo: Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes, / os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas,Prostrar-se-ão diante dele todos os povos, / todos os povos O hão-de servir (Sl. 71, 10-11). Num livro - escrito a título pessoal, portanto não sendo documento do magistério eclesiástico - Joseph Ratzinger (Bento XVI) comenta que "a promessa contida nestes textos estende a proveniência destes homens até ao extremo Ocidente (Tarsis, Tartessos em Espanha), mas a tradição desenvolveu posteriormente este anúncio da universalidade aos reinos de que eram soberanos, como reis dos três continentes então conhecidos: África, Ásia e Europa"
De acordo com uma tradição acolhida por S. João Crisóstomo, Padre da Igreja, os três Reis Magos foram posteriormente baptizados pelo Apóstolo S. Tomé e trabalharam muito pela expansão da Fé (Patrologia Grega, LVI, 644). A fama de santidade dos Reis Magos chega até os nossos dias. Seus restos são venerados na nave central da Catedral de Colónia, Alemanha, numa magnífica urna de ouro e de pedras preciosas que extasia os visitantes. As relíquias deles foram descobertas na Pérsia pela imperatriz Santa Helena e levadas a Constantinopla, capital do Império Romano de Oriente. Depois foram transferidas a outra capital imperial no Ocidente - Milão -, até que foram guardadas definitivamente na Catedral de Colónia em 1163 (Acta SS., I, 323).
Por que eram "Magos"? O nome "mago" era sinónimo de "sábio", O tratamento que lhes é dado como grandes eruditos, prudentes e judiciosos, provinha do facto de os sacerdotes da Caldeia serem muito voltados para a consideração dos astros com uma sabedoria que surpreende até hoje. A eles devemos o início da ciência astronómica. Sem dúvida, o seu caráter de "magos", reconhecido pelo Evangelho de S, Mateus, aponta para a área da civilização caldeia (cujo epicentro foi no atuallraque, mas incluiu diversos países vizinhos, entre eles o Irão). Os Três Reis Magos teriam sido os últimos sacerdotes honrados daquele mundo pagão que aspiravam sinceramente por conhecer o Salvador. Neste caso, foram exemplos ou arquétipos do pagão de boa-fé que deseja conhecer a verdadeira religião, e que assim que a encontra adere a ela sem demoras nem restrições.
E São Tomás de Aquino explica: "Os Magos foram as primícias dos gentios que acreditaram em Cristo. E neles se manifestou, como um presságio, a fé e a devoção das gentes que vieram a Cristo das mais remotas regiões".
Os Magos simbolizam o mundo pagão que, vindo de muito longe, se fascina com Jesus. Hoje também há muitas pessoas que, embora venham de muito longe, sentirão o desejo de se encontrarem com Jesus Cristo, e n'Ele passar a olhar todas as coisas de um modo novo, e começar a viver de um modo novo.
O mundo «pagão» é um desafio à nossa fé, à nossa esperança e à nossa criatividade apostólica. É preciso trabalhar muito, sobretudo através de um constante apostolado pessoal, para conseguirmos ajudar muitas pessoas a encontra-se pessoalmente com Jesus e a descobrirem n'Ele o bem e a verdade que no seu íntimo sempre desejaram encontrar.
A festa da Epifania é uma festa de luz e de alegria. A manifestação de Jesus enche de alegria os corações de todos aqueles que se põem a caminho para O conhecer e adorar. Também nós viemos ao seu encontro, e partiremos, como os Magos, cheios de confiança, de alegria e de esperança.
Peçamos, por intercessão de Santa Maria, que se respire em toda a Igreja "0 espírito da Epifania", e se viva intensamente a alegria do encontro e o compromisso da missão, para dar a conhecer Jesus Cristo. Só Ele revela o homem ao próprio homem, só Ele salva o homem!
Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira