11 de Fevereiro de 2018 - Domingo VI do Tempo Comum

Jesus Cristo, Deus e homem

Jesus Cristo manifestou a sua verdadeira humanidade nascendo numa gruta em Belém, nas limitações físicas que aceitou, na fome, na sede ou no cansaço, e até mesmo quando dormiu na barca, em plena tempestade. Por outro lado, manifestou a sua divindade através dos incontáveis milagres realizados, por exemplo, quando acalmou os ventos e os mares, apenas pela força de sua voz, ou quando ressuscitou Lázaro.


Enquanto Deus, Ser infinito, Ele é todo­poderoso, e por isso, excluindo tudo o que seja contraditório, todos os possíveis são objecto do seu poder. Omnipotente é um dos nomes próprios de Deus (cf. Génesis 17, 1), pois a sua palavra é suficiente, em si, para produzir todas as criaturas (cf. Génesis 1, 3-30) (cf. Mons. João Clá Dias, O inédito sobre os Evangelhos).

Os milagres de Jesus são prova de sua divindade. Na verdade, segundo nos ensina S. Tomás, pelo facto de a sua natureza humana estar unida à sua natureza divina, Jesus recebeu, enquanto Homem, a mesma omnipotência que o Filho de Deus tem desde toda a eternidade, pois ambas as naturezas pertencem a uma só e única Pessoa. Este é o motivo pelo qual Jesus Cristo dominava qualquer enfermidade (cf. Mateus 8, 8.13), perdoava os pecados (cf. Mateus 9, 6; Marcos 2, 9-11), expulsava os demónios (cf. Marcos 5,8), etc. Daí o próprio Jesus ter podido afirmar: "Todo o poder Me foi dado no Céu e na Terra" (Mateus 28,18); e, mais tarde, S. Paulo insistir neste ponto fundamental de nossa Fé: a Cruz de Cristo, "para nós, é força de Deus" (l Coríntios 1, 18); Cristo é "força de Deus e sabedoria de Deus" (1 Coríntios 1, 24); e mais adiante: "também nos ressuscitará a nós pelo seu poder" (1 Coríntios 6, 14).

Quanto à cura do leproso, que hoje nos relata o Evangelho de S. Marcos, poderíamos perguntar, como faz Orígenes (séc. III): "Por que é que o Senhor o tocou, quando a Lei proibia tocar os leprosos?" E dá a resposta: "Tocou-o (...) para demonstrar humildade, para nos ensinar a não odiar ninguém, a não desprezar ninguém por motivo das feridas ou manchas do corpo, à imitação do Senhor, e foi por isso que Ele mesmo o fez". Orígenes considera que o simples estender da mão de Jesus já curou o leproso: "Ao estender a mão para tocá-lo, a lepra desapareceu; a mão do Senhor não encontrou a lepra, mas tocou um corpo já curado". E passa depois da lepra física à lepra da alma: "Consideremos nós agora, queridíssimos irmãos, que não haja em nossa alma a lepra de nenhum pecado; que não re­tenhamos em nosso coração nenhuma contaminação de culpa; e se a tivermos, adoremos imediatamente o Senhor e digamos-Lhe: «Senhor, se quiseres, podes limpar-me» (Marcos 1, 40)" .

Já S. João Crisóstomo, no séc. IV, observa o seguinte: "Jesus não diz simplesmente: «Quero, sê curado». Mas ainda mais: «Estendeu a mão e tocou-o». E isto o que chama a atenção. Já que o curava por um acto da sua vontade e com uma palavra, porque lhe tocou com a mão? Não por outro motivo, parece-me, senão para mostrar que Ele não é inferior mas superior à Lei, e que doravante nada é impuro para quem é puro (cf. Tito 1,15), A mão de Jesus não ficou impura pelo contacto com o leproso; pelo contrário, o corpo do leproso é que foi purificado pela santidade dessa mão. Na verdade, Cristo veio não só curar os corpos, mas elevar as almas à santidade; ensina-nos aqui a ter cuidado com a nossa alma, a purificá-la (...). A única lepra a temer é a da alma, isto é, o pecado".

E conclui: "Quanto a nós, demos continuamente graças a Deus. Agradeçamos-Lhe não só pelos bens que nos deu, mas ainda pelos que concede aos outros: poderemos, deste modo, destruir a inveja, manter e aumentar o nosso amor ao próximo".

Uma importante decisão que poderemos retirar deste episódio do Evangelho, será apoiar-nos sempre no poder divino de Cristo para Lhe pedir até o que nos parece mais difícil, se não mesmo impossível: a nossa santificação pessoal, a conversão e santificação de tantas pessoas e a renovação do mundo segundo o seu Evangelho e a vontade de Deus.

Que a Quaresma que se: aproxima seja para nós um tempo de oração mais intensa, mais confiante, incansável, perseverante, que nos identifique cada vez mais com os sentimentos do coração de Cristo, que nos quer purificar, renovar e salvar.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo