18 de Fevereiro de 2018 - Domingo I da Quaresma

Uma aliança de paz

À primeira vista é estranho que Satanás tentasse Jesus, como diz S. Marcos no Evangelho de hoje. Como ousou fazê-lo, como se atreveu a tentar Jesus, sendo certo que Jesus não podia pecar!

Provavelmente, Satanás apercebeu-se de algumas debilidades da humanidade de Jesus, como por exemplo, a fome ou o cansaço que sentiu, depois do longo jejum que fez no deserto. E por isso atreveu-se a tentar o Filho de Deus, feito homem como nós.

Mas Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não podia pecar. A sua natureza humana está unida à natureza divina, na unidade de pessoa do Filho de Deus. Se Jesus pecasse, era Deus que pecava, o que é absurdo.


Jerôme Nadal, As tentações de Cristo

Para Jesus Cristo, é absolutamente impossível pecar, porque Ele é Deus, e Deus não pode pecar. No entanto, Jesus foi tentado. Mas note-se que o Evangelho não diz apenas que Jesus foi tentado, mas que “foi tentado por Satanás”.

Mas, se Jesus não podia pecar, como é que foi tentado? E a resposta é simples: Jesus foi tentado, não por algum defeito da sua vontade, nem por alguma má inclinação interior, mas por Satanás, isto é, por uma tentação exterior.

Há essencialmente dois tipos de tentações: exteriores e interiores. As tentações interiores, que vêm da «carne», ou natureza humana corrompida, implicam quase sempre uma certa cumplicidade de quem as sofre, e talvez um início de pecado.

As tentações exteriores vêm do mundo ou de Satanás. As tentações de Jesus são apenas exteriores, vêm de fora. Agora, no deserto, vêm de Satanás, e mais tarde, durante a sua vida pública ou na hora da sua Paixão e morte, virão do mundo, ou dos «aliados» de Satanás, que tentarão que Jesus ceda à glória humana ou que chegue mesmo a rejeitar a Cruz.

Mas não encontram em Jesus nenhuma cumplicidade ou anuência interior. Não encontram nenhuma ressonância no seu íntimo. Na inteligência e na vontade humana de Jesus não há nenhum princípio de cedência, nem sequer ao de leve.

Agora, tentado por Satanás no deserto, Jesus nunca, nem por um momento, desviou a sua vontade humana, da sua missão divina. Mas isso não significa que não tenha sido verdadeiramente tentado. A Carta aos Hebreus diz que “Cristo foi tentado (ou provado) em tudo como nós, excepto no pecado” (4, 15).

Jesus foi tentado, mas não através de uma fraqueza interior da vontade. Foi tentado como quem enfrenta uma batalha, que evidentemente quer vencer. Não há ninguém que esteja a travar uma batalha, que não a queira vencer. Assim foi Jesus: foi atacado por Satanás, enfrentou-o no campo de batalha, e venceu-o.

Da luta com Satanás, que travou e venceu, resultou para Jesus uma profunda paz. Não há nenhuma divisão, nenhum desequilíbrio no coração e na vontade humana de Jesus, mas sim uma obediência filial perfeita.

Graças à vitória de Jesus, voltou a estar em vigor a aliança estabelecida entre Deus e os homens, de que hoje nos fala a primeira leitura, do livro do Génesis. Deus estabeleceu com Noé, que representa toda a humanidade, uma aliança de paz, simbolizada no arco-íris que foi visto sobre as nuvens.

Mas não é esta harmonia e paz que todos desejamos? Por que será tão difícil consegui-la? Por que há sempre tanta insegurança e inquietação nos corações humanos? A inquietação e a desarmonia decorrem sempre de se ceder à tentação que nos quer separar de Deus e da sua vontade, do amor verdadeiro e do serviço aos outros.

Quando cedemos à mentira, perdemos a paz. E porque sabemos que assim é, aqui estamos de novo, humildemente, no início da Quaresma, dispostos a retomar a luta. Esta luta pode ser por vezes muito dura, mas não podemos ceder ao mal. Às vezes corre-se o risco de pensar que podemos ser cristãos e pagãos ao mesmo tempo, que podemos servir a Deus e aos ídolos.

Mas a Quaresma é o tempo para nos libertarmos dos ídolos, dos falsos deuses. Quais são esses deuses, quais são esses ídolos que nos escravizam? A Quaresma é o tempo para nos encontrarmos na verdade do que somos aos olhos de Deus. A opção pela verdade é o único caminho de liberdade e de paz.

A luz da fé permite-nos compreender ainda melhor aquilo que somos e como devemos viver. Ao longo da vida, podemos muitas vezes ser tentados, e talvez alguns sintam que cederam a Satanás e se desviaram do caminho.

Mas é sempre possível voltar e recomeçar. Por isso Jesus nos diz hoje também: “«Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»”. É este o apelo e a grande graça da Quaresma: uma fé mais profunda e uma sincera conversão. A fé é dom de Deus, mas a conversão exige esforço e luta.

Mas vale a pena este esforço por sermos fiéis, para sentirmos em nós, com Jesus ressuscitado, na Páscoa que se aproxima, a alegria da vitória e uma profunda paz.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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