25 de Fevereiro de 2018 - Domingo II da Quaresma

Seguindo o comentário de S. Jerónimo (347-420) ao episódio da Transfiguração de Jesus, que lemos hoje no Evangelho de S. Marcos, vamos também reflectir sobre o nosso modo de ler a Sagrada Escritura, em especial o Antigo Testamento.

No Patriarcado de Lisboa o tema orientador para o ano pastoral em curso (2017/2018) é este: "Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a Fé". Como lemos a Palavra de Deus na Sagrada Escritura? S. Jerónimo, "um Padre da Igreja que colocou no centro da sua vida a Bíblia" (como o apresentou Bento XVI), insiste na perspectiva espiritual, isto é. na leitura da Bíblia na perspectiva de Jesus Cristo e à sua luz.

Mas comecemos pelo Evangelho de hoje, onde lemos: "Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles" (Mc 9. 2). O que equivale a dizer, nota S. Jerónimo, que os apóstolos viram Jesus tal como será no seu Reino, depois da Ressurreição.


A Transfiguração (ilustração da Childrens Bible)

E porquê seis dias? Porque não nove, ou vinte, ou quatro, ou cinco dias depois? Porque aqueles que estão com Jesus não verão o seu Reino senão seis dias depois. Estes seis dias evocam os seis dias da criação do mundo. Enquanto não tiver passado este mundo, representado nos seis dias, não aparecerá o reino verdadeiro.

Reparemos também que Jesus não Se transfigura enquanto está lá em baixo. na planície: sobe ao monte, e é então que Se transfigura. "Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear". Quem anda só cá por baixo, não vê Jesus em vestes resplandecentes. Aquele que sobe ao monte, isto é. aquele que se deixa elevar por Deus, é para esse que Jesus Se transfigura, e as suas vestes se tornam resplandecentes.

Podemos ver nas vestes de Jesus um símbolo das Sagradas Escrituras. Se as lemos como um livro qualquer, se as interpretamos só literalmente, não têm nada de esplêndido ou sublime. Mas se as interpretamos espiritualmente, se captamos o seu sentido espiritual, se as lemos em função de Cristo e à luz de Cristo. então as Sagradas Escrituras, isto é, as vestes da Palavra, transfiguram-se imediatamente. e tornam-se brancas como a neve, também elas "de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear".

Podemos ler qualquer texto dos profetas, ou qualquer outro texto do Antigo Testamento: se o interpretamos (só) literalmente, não tem em si nada de esplêndido ou luminoso. Mas se seguirmos os apóstolos e o interpretarmos espiritualmente, imediatamente se transformam as vestes da Escritura, e se tornam brancas. E falam-nos de Jesus. E assim, de novo, Jesus transfigura-Se no monte. e as suas vestes tornam-se brancas como a neve.

Continua S. Marcos: "Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus". No Evangelho segundo S. Lucas acrescenta-se isto: "e falavam da morte d'Ele, que se havia de cumprir em Jerusalém". E isto que dizem Moisés e Elias, e dizem-no a Jesus, quer dizer, ao próprio Evangelho. Portanto, a Lei e os profetas anunciam a Paixão de Cristo. Se seguimos só a letra, há muitos passos do Antigo Testamento que se tornam incompreensíveis ou mesmo chocantes. Mas se os interpretamos espiritualmente, até as vestes sujas de Moisés se tornam de um branco imaculado.

Realmente, estamos no cimo do monte, quando entendemos as Escrituras espiritualmente. Se leio somente no seu significado literal o Génesís, ou o Exodo, ou o Levítíco, ou os Números, ou o Deuteronómío, tenho a impressão de me encontrar ao nível da terra, mas, se os leio na sua vertente espiritual, então subo ao monte. Compreende-se de que modo Pedro, Tiago e João, ao dar-se conta de que estão no cimo do monte, isto é, numa perspectiva espiritual. desprezam o rasteiro e o simplesmente humano, e aspiram ao excelso e ao divino: não querem descer à terra, mas sim permanecer totalmente no plano espiritual.

E no entanto, é preciso descer de novo à terra, porque é ali que está o género humano que precisa de ser salvo, e foi isso que fez Jesus, que desceu à terra para Se oferecer por nós.

Pedro quer fazer três tendas, uma para Jesus, outra para Moisés, outra para Elias. Uma tenda cobre e protege com a sua sombra os que estão dentro dela. Mas S. Pedro não sabia o que dizia, porque a verdadeira tenda veio depois: "Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-0»". A nuvem, segundo S. Mateus, era luminosa.

Podemos pensar que esta nuvem simboliza a graça do Espirito Santo. E assim temos presente na Transfiguração a Santíssima Trindade: o Pai, o Filhoeo Espírito Santo. E todos somos convidados a deixar-nos envolver pela nuvem do Espírito Santo, que nos protege e te ilumina ao mesmo tempo!

E os apóstolos ouviram a voz de Deus: "«Este é o meu Filho muito amado: escutai-0»". Assim se faz ouvir a voz de Deus Pai, como se dissesse aos apóstolos; Este é o meu Filho, não Moisés, não Elias. Eles são servos, este é o Filho. Este é o meu Filho, quer dizer, da minha natureza, da minha substância. Também eles são certamente amados, mas este é muito amado, amadíssimo: a Este, portanto, escutai-0! Aqueles anunciam­No, mas vós, a Este tendes que escutar. Ele é o Senhor, aqueles são servos como vós. Ele é o Senhor, escutai-0. Não honreis os servos do mesmo modo que o Senhor: escutai só o Filho de Deus.

Por fim, "de repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles". Moisés e Elias desaparecem, porque a sua função é anunciar Cristo, apontar profeticamente para Cristo. E estando hoje Cristo presente na sua glória, já não se vêem a seu lado a Lei e os Profetas. Nós continuamos a reconhecer todo o valor à Lei e aos Profetas, bem como a todo o Antigo Testamento, mas pomos a nossa atenção somente em Cristo. Não retiramos mérito à Lei e os Profetas, pelo contrário, louvamo-los, porque anunciam Jesus Cristo, mas, se lemos a Lei e os profetas, não é para ficarmos parados neles, mas sim, para através deles, chegar a Cristo.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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