4 de Março de 2018 - Domingo III da Quaresma

"E acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus"

A nossa fé é passageira? É o entusiasmo de um momento? O Evangelho de hoje, já na sua parte final, transmite-nos um apelo à fé, mas a uma fé límpida e sincera em Jesus ressuscitado, diferente da fé imperfeita e talvez interesseira daqueles que "ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome".

Mas Jesus, diz S. João, "não se fiava deles, porque os conhecia a todos". Jesus sabia que a sua intenção não era recta, e a todo o momento poderiam afastar-se d'Ele. A fé que Jesus nos pede não é passageira, não é o entusiasmo de um momento: é o fascínio, a admiração, o seguimento incondicional, que não visa mais nada, senão a alegria de estar com Jesus e de O amar, já hoje e para sempre.


Julius Schnorr von Carolsfeld, A purificação do Templo (1851-1860)

Este terceiro domingo da Quaresma é um bom momento para pedir a Deus que purifique e aumente em nós a fé no seu Filho, que nos ajude a adorar com um amor novo o mistério da sua morte na cruz, que nos torne intimamente agradecidos e felizes pela vitória da sua ressurreição, que iremos celebrar na Páscoa. Ao longo das semanas da Quaresma, toda a Igreja e cada um de nós caminha em direcção à Páscoa. Que seja um caminho percorrido não com indiferença, mas com ânimo, não com desleixo, mas com esperança e num esforço sincero de conversão, para chegarmos à Páscoa mais livres dos nossos pecados e mais unidos a Jesus.

Pedimos também para nós um olhar mais purificado para ver os outros, para captar os seus apelos, para perceber como os podemos compreender, amar e servir melhor, à imitação de Jesus, que ofereceu a sua vida por todos. E que ninguém hesite, ao chegar a hora de pedir perdão. A confissão das nossas faltas às vezes pode custar a fazer, mas deixa-nos limpos e em paz, connosco mesmos e com Deus.

O Evangelho de hoje descreve-nos um gesto realizado por Jesus com extrema exigência, e que tinha de ser feito. S. João conta que "estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém". Foi ao templo, e ali encontrou "os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas, e os cambistas, sentados às bancas". Sabemos por diversos documentos que estes vendedores e cambistas tinham passado a usar uma zona que antes não lhes competia, Agora não estavam no exterior, mas no próprio interior do templo.

Jesus considerou que isso era indigno e por isso, usando um chicote de cordas, seguramente não atingiu as pessoas, mas afugentou e fez sair do Templo as ovelhas e os bois, e é de crer que os donos fossem logo atrás deles, para não os perderem. Depois, "deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas", E por fim, sem mais nenhum gesto, "disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio»".

O gesto de Jesus é claramente messiânico, isto é, identifica-O como o Messias que o Povo da Deus esperava. Deve ser lido à luz deste texto do profeta Malaquias: "Vou mandar o meu mensageiro para preparar o meu caminho. E imediatamente virá ao seu templo o Senhor que buscais, o anjo da aliança que desejais. Ei-lo que vem - diz o Senhor dos exércitos. (3, 1). Ou ainda deste passo de Zacarias: "e não haverá mais vendedores naqueles dias na casa do Senhor dos exércitos. (14,21). E evoca também os textos proféticos em que Deus não aceita um culto meramente exterior e baseado nos interesses pessoais e egoístas.

É muito importante notar que, neste relato de S. João, Jesus fala do Templo como "«a casa de meu Pai»". "Este modo de falar é absolutamente excepcional na religiosidade hebraica. No Antigo Testamento, nenhum israelita ousava chamar a Deus seu Pai em sentido pessoal, e portanto dizer-se seu filho.

Deus era considerado como o Pai do povo, pelas grandes obras que tinha realizado em seu favor na história de Israel. Só Jesus fala de Deus de um modo único e novo, chamando-Lhe «meu Pai». E nós, podemos tratar a Deus por Pai? Sim, "os discípulos de Jesus poderão falar assim, depois da ressurreição, quando Jesus revelar a Maria Madalena que o seu Pai Se tornou verdadeiramente o Pai de todos, naturalmente não pela natureza, mas pela graça: «Subo para o meu Pai e vosso pai, meu Deus e vosso Deus» (João 20,17).

Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa», como se lê num Salmo (68, 10), e encontram aí a justificação para a atitude de Jesus. Mas S. João muda o verbo do presente para o futuro, "devorar-me-á", e assim interpreta o texto como anúncio profético da futura paixão e morte de Jesus. A purificação do Templo torna-se assim prelúdio da morte de Jesus, enquanto nos outros Evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) é a causa directa da sua condenação à morte, e evidencia a falta de fé por parte dos homens.

Mas o próprio Jesus anuncia a sua futura ressurreição, ao dizer: "«Destrui este templo, e em três dias o levantarei»". Jesus falava de Si mesmo, falava "do templo do seu corpo", como diz S. João. Talvez nesse momento ninguém tenha entendido as suas palavras. Mas, "quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito, e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus".

E esta também é hoje a nossa fé: acreditamos na Escritura, em toda a sua extensão, desde o Génesis ao Apocalipse, e na Palavra que Jesus pronunciou. Mais ainda, acreditamos na Palavra em pessoa, no Verbo feito carne, que é Jesus Cristo, e acreditamos que Ele está vivo pelos séculos sem fim. Como diz S. Paulo, nós "pregamos Cristo crucificado", que é "poder e sabedoria de Deus", expressão máxima da sua misericórdia, e inseparavelmente anunciamos com alegria a sua ressurreição, na qual encontramos a vitória definitiva sobre a morte, o sentido da vida, a força e a esperança para continuar a caminhar. Que nesta Quaresma nos deixemos purificar pela cruz de Jesus, para que a nossa fé seja sincera e coerente, e um dia dê lugar à adoração do seu rosto, na glória do Pai.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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