25 de Março de 2018 - Domingo de Ramos

Tudo se explica pela misericórdia

Guiados pelo Evangelista São Marcos, acompanhámos Jesus passo a passo, desde a Última Ceia com os discípulos, até à hora da sua morte na cruz e à sepultura do seu Corpo. E é possível que nos venha ao espírito esta pergunta: como é que tanta gente, ao longo da Paixão de Jesus, não viu nada? Como é que tanta gente não percebeu nada? Como é quase toda a gente se esqueceu de tudo tão depressa, não só dos ensinamentos de Jesus, mas também dos seus milagres?


Juan de Flandres, Cristo carregando com a cruz (1510)

Até os três discípulos que Jesus levou consigo para o Getsémani, não entenderam o pedido que lhes fez: "«A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai»". E deixaram-se dormir, não foram capazes de vigiar uma hora sequer. Não avaliaram o que estava em jogo: a sua salvação, a salvação mundo.

Este alheamento, esta distracção profunda, este não «ligar», este não querer saber, é muito fácil de acontecer. E este o estado de espírito dominante no mundo de hoje. Pela quantidade de atractivos a que é tão fácil ter acesso, muita gente vive numa distracção de fundo em relação ao essencial. Mas o que estava em jogo na Paixão e Morte de Jesus era o que há de mais decisivo na vida: a nossa salvação, a salvação do mundo. Não nos podemos tornar indiferentes, não nos podemos alhear, não podemos não querer saber.

Conseguiremos nós resistir a este relativismo, a esta fuga para o vazio, a esta tentação da indiferença, a que o nosso mundo nos impele? Sim, esperamos conseguir, mas só há uma maneira de o fazer: é fixarmos com fé os nossos olhos em Jesus: em Jesus traído, em Jesus abandonado, em Jesus julgado, em Jesus condenado, em Jesus crucificado, em Jesus morto e sepultado. É este o convite que a Igreja nos faz mais uma vez, nesta Semana Santa que hoje começa, e que culminará na grande celebração do Tríduo Pascal, que é o ponto mais alto de toda a liturgia cristã.

O nosso programa é contemplar, na luz da fé, a Paixão de Cristo, fonte de graça e misericórdia para o mundo inteiro. Mas será que ainda tem sentido esta contemplação da Paixão do Senhor? Depois da Ressurreição, porquê continuar a olhar para a Cruz? Porquê continua a fazer a «Via crucis»? Não seria mais justo fazer apenas a «Via lucis»?

Sim, continuamos a percorrer a Via Sacra e a celebrar na liturgia a Paixão de Jesus, porque é esta a proposta que os Evangelhos nos fazem. Os Evangelhos foram escritos depois da ressurreição, e tudo interpretam à luz da ressurreição de Jesus, mas continuam a convidar-nos a este olhar contemplativo, a este olhar emocionado e agradecido diante da Paixão e Morte do Filho de Deus. A exclamação do centurião romano, relatada por S. Marcos, podia perfeitamente ser feita por cada um de nós: "«Na verdade, este homem era Filho de Deus»". É isso que nos assombra: que o Filho de Deus morra numa cruz, sob o peso dos pecados de todos os homens. E só há uma explicação para isso: a sua coerência, a sua fidelidade, o seu amor, a sua misericórdia.

Também o ensina S. Paulo, na 2ª leitura, da Carta aos ,Filipenses. Esta carta foi escrita por Paulo no ano 56 ou 57 (no caso de ter sido escrita em Efeso), ou eventualmente no início do ano 63 (se tiver sido escrita na prisão de Roma), isto é, menos de 30 anos depois da morte de Jesus, e em qualquer dos casos muito mais próximo dos acontecimentos que os Evangelhos descrevem. S. Paulo cita um hino que já devia existir antes dele, na comunidade cristã, e que descreve a Paixão de Jesus vista por dentro, isto é, explicada a partir do próprio Jesus. E a única explicação é esta: Jesus, renunciando à sua glória, «esvaziou-Se» a Si mesmo. "Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou­Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz".

É este o sentido dos acontecimentos que vamos celebrar ao longo desta semana e em especial no Tríduo Pascal. Tudo se explica pelo amor de Jesus, pela sua misericórdia para com os homens, levada até ao extremo. No início de mais uma Semana Santa, pedimos a Deus que este amor do seu Filho e a sua misericordiosa solidariedade para connosco, levada até à morte, possam ser hoje correspondidos pelo nosso amor agradecido, pela nossa fé vibrante, pelo desejo de percorrer com Jesus, passo a passo, a «via crucis» que O levou à morte, e por ela à luz inextinguível que jorra para sempre da sua gloriosa ressurreição.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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