8 de Abril de 2018 - Domingo II da Páscoa
Veio Jesus...
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Já era o fim da tarde daquele dia, "o primeiro da semana". As portas da casa estavam fechadas, e os discípulos - naquele momento apenas dez, porque faltavam Judas, que já não voltaria mais, e Tomé, ainda ausente estavam inquietos. Não eram apenas as portas que estavam fechadas, eram eles que ainda estavam fechados em si mesmos, na sua tristeza, nas suas dúvidas, nos seus medos. |
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São as portas mais difíceis de abrir: as que nos fecham na tristeza, no medo, na dúvida, na falta de fé. Mas, enquanto todas essas portas continuavam ainda fechadas, "veio Jesus, colocou-Se no meio deles, e disse-lhes: «A paz esteja convosco»". E, nesse instante, tudo mudou no coração e no espírito daqueles homens, como diz o Evangelho: "Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor".
"Veio Jesus": mas de onde veio? Veio de onde nunca ninguém tinha vindo, do lado «obscuro» da vida, do lado de lá da fronteira da morte. Jesus veio da morte, mas veio vivo, como sereno dominador da vida, possuidor de uma vida nova e imperecível. E por isso veio para dissipar dos nossos corações as dúvidas e os medos que muitas vezes os querem dominar.
"Veio Jesus", veio vitorioso, veio pelo seu poder divino, mas veio sem negar nem esconder tudo aquilo que quis sofrer e passar por nós. Por isso, assim que se encontrou com os discípulos, "mostrou-lhes as mãos e o lado". No seu corpo glorioso, estão para sempre impressas, agora também gloriosas, as chagas da sua Paixão. As mãos e o lado de Jesus, e também os pés, como refere S. Lucas (Lc 24, 39.41) lembrar-nos-ão por toda a eternidade as dores de Jesus, que agora contemplamos na luz da sua vitória, no esplendor da ressurreição.
Este primeiro encontro de Jesus ressuscitado com os seus discípulos é um acontecimento irrepetível, mas é também um convite feito a todos os homens a acreditar em Jesus e a acolhê-Lo nas suas vidas. Ao contar-nos o que aconteceu na tarde daquele dia, "o primeiro da semana", esse dia a que hoje chamamos Domingo, "Dia do Senhor", o Evangelho diz-nos que também nós, pela fé, podemos reconhecer que Jesus está vivo, ao nosso lado, no meio de nós, junto de nós. E, quando o fazemos, os nossos corações fechados abrem-se, libertam-se, e passam a estar cheios da sua alegria e da sua paz.
Mas cada um de nós une-se a Jesus sozinho? Não, unimo-nos a Jesus na sua Igreja, já presente naquele núcleo dos discípulos que vê Jesus ressuscitado na tarde do Domingo de Páscoa. Naquele grupo de dez, a que sejuntará pouco depois Tomé e mais tarde Matias (Act 1,15-26), completando os Doze, está presente o mistério da Igreja. É na comunhão da Igreja que entramos em comunhão com Deus. E também é por intermédio da Igreja, através do sacerdócio apostólico, que recebemos o perdão de Deus.
S. João conta que "Jesus soprou sobre eles, e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos»". A Igreja, no Espírito Santo, é o elo de ligação com Jesus vivo, e o canal da sua misericórdia. A Igreja é o «sacramento», o sinal sensível do amor e da misericórdia de Deus que perdoa. E na Igreja, por vontade de Jesus, existe o sacramento, isto é, o sinal eficaz do perdão, a que chamamos habitualmente confissão ou reconciliação, É um sacramento exigente, pela verdade e pela humildade que nos exige, mas é um sacramento essencial para a nossa vida cristã, pelo perdão de Deus e pela paz que nos dá.
É preciso superar uma visão individualista da fé, e abrir-nos mais à Igreja como comunhão. O livro dos Actos dos Apóstolos diz-nos que "a multidão dos que haviam abraçado a fé, tinham um só coração e uma só alma". Desta profunda comunhão vem um grande desejo de partilha: dos bens materiais e dos bens espirituais. Se há coisa que fecha os seres humanos em si próprios, são os bens materiais. Mas então é preciso partilhá-los, para não ficarmos fechados.
E também não queremos ficar fechados no «gozo» privado da fé. Queremos anunciar serenamente aos outros o que já vivemos. O mesmo texto diz-nos que "os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder, e gozavam todos de grande simpatia". Será que também hoje o fazemos? Diante da intensidade da vida e também da sua fragilidade, anunciamos Jesus ressuscitado? A Quem sofre, anunciamos Jesus? A quem pensa Que tem tudo e não precisa de nada, anunciamos Jesus?
Mas o anúncio dos cristãos, hoje, parece débil, tímido, hesitante. Que será que nos falta, para Que o nosso testemunho seja mais claro e mais convincente? Falta-nos uma fé mais forte. E como a fé é um dom de Deus, temos de a pedir ao próprio Jesus. Mas Jesus, que disse a S. Tomé: "«Porque Me viste, acreditaste; felizes os Que acreditam sem terem visto", deseja certamente dar-nos a fé, pela qual, sem O ver ainda, acreditamos n'Ele e O amamos com todo o nosso coração. Que Jesus dissipe em nós a incredulidade, a timidez ou o medo, e através do nosso testemunho muitos outros possam conhecê-Lo e amá-Lo, abram o seu coração à graça, e toda a sua vida à luz e à verdade que é o próprio Jesus ressuscitado.
Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira