17 de Junho de 2018 - Domingo XI do Tempo Comum

O mistério da vida

O Evangelho fala-nos de vários tipos de sementes: umas que germinam na terra com um dinamismo surpreendente, e outras que originam uma planta de dimensões inesperadas. E percebemos que Jesus nos quer falar da acção de Deus em nós e na comunidade dos discípulos, a sua Igreja.


Mas percebemos também que, para recebermos a semente do Reino de Deus, não podemos ser como o alcatrão ou o empedrado das ruas, onde as sementes não entram nem germinam, mas como boa terra, que pode ser lavrada e preparada para receber a boa semente.

Ninguém semeia no alcatrão ou nas pedras da calçada, e Deus também não o faz. Só pode receber a semente do Reino de Deus uma inteligência que não se tenha endurecido ou um coração que não se tenha fechado no seu egoísmo.

No mundo de hoje há muitas auto-estradas, que são úteis e necessárias, há muitos quilómetros de asfalto, mas tem de continuar a haver campos de trigo, hortas e pomares, jardins e florestas.

E ficamos felizes porque também hoje Jesus nos continua a falar no Evangelho de semeadores e de sementes, com parábolas muito simples, ensinando-nos que o mais importante de tudo é que os corações dos homens continuem abertos à acção de Deus e à sua graça.

Ao ler o Evangelho, numa época tão sofisticada e ao mesmo tempo tão pessimista como a nossa, toda ela feita de alcatrão, de betão e de tecnologia, que anda de crise em crise e parece que não tem saída, encanta-nos profundamente o modo como Jesus fala da natureza, e como utiliza as imagens da natureza para exprimir o dinamismo do Reino de Deus.

E também nós como seus discípulos, temos um grande encanto pela natureza, que não é simples sensibilidade ecológica, mas se enraiza na nossa fé em Deus Criador. A primeira afirmação da nossa profissão de fé continua hoje a ser esta: "Creio em um só Deus, Criador do Céu e da Terra".

Poderemos hoje continuar a acreditar na Criação? Voltaremos a esta questão daqui a algum tempo. Mas poderemos continuar a encantar-nos com a natureza?

É verdade que o mundo não é perfeito, e contém forças que muitas vezes provocam a destruição e a morte. A nossa experiência confronta-se constantemente com limitações, doenças, e até catástrofes naturais. Como explicar o mal que há no mundo, se o seu Criador é um Deus poderoso e bom?

Estas perguntas são muito sérias, e o peso do mal é muito grande, mas isso não nos impede de continuar a admirar as maravilhas do universo e em particular da Terra onde vivemos, e acima de tudo o mistério da vida!

Jesus chama hoje a nossa atenção para duas dessas maravilhas: a semente de trigo que, no silêncio da terra, germina e cresce, sem o semeador saber como; e o pequeno grão de mostarda que, embora seja a mais pequena de todas as sementes, "depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra".

Jesus alude a estes prodígios da natureza - que de resto seria possível explicar cientificamente, mas que nem por isso deixam de ser muito belos - como imagens do dinamismo sobrenatural do Reino de Deus.

Assim como a semente germina e cresce no silêncio da terra, assim também em nós, se não tivermos um coração de pedra (ou de alcatrão), o seu Reino pode crescer e produzir muitos frutos, fazendo de nós pessoas renascidas e transformadas pela graça, que tornam a vida dos outros melhor e mais feliz.

E embora tenha começado muito pequeno, o Reino de Deus destina-se a crescer muitíssimo e a tornar-se muito acolhedor para todos os que nele se quiserem abrigar.

Assim será a Igreja, que Jesus quis que fosse como a planta da mostarda, que cresceu imensamente e onde as aves gostavam de se abrigar, ou seja, esta árvore frondosa debaixo de cujos ramos todos os homens podem encontrar descanso e recuperar novas forças.

E que assim possa ser dada um de nós: alguém que sabe acolher os outros com os sentimentos do coração de Cristo, e que dá a todos com alegria o testemunho da sua fé.

Com a amizade em Cristo do
O Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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