8 de Julho de 2018 - Domingo XIV do Tempo Comum

Uma Igreja «em saída»

Hoje lemos na 1ª leitura um texto do Profeta Ezequiel, cujo nome significa: "Deus fortalece". Ezequiel, era um sacerdote que foi chamado para profetizar durante o Exílio do povo judeu em Babilónia, tendo exercido sua actividade durante 22 anos, entre os anos 593 e 571 a. C.

Diferentemente de outros profetas, Ezequiel teve importantes revelações, em forma de visões simbólicas, da parte do Senhor. Mas, para além dessas visões, Ezequiel ouviu com muita frequência, vindas do mesmo Deus, estas palavras: "Filho do homem", como se lê no texto de hoje: «Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um povo rebelde que se revoltou contra Mim.» (2, 3)


Esta expressão: «filho do homem», que aparecerá também no profeta Daniel (7, 13-14; 8, 17), salienta, no livro de Ezequiel, (onde ocorre 93 vezes), a fragilidade humana, em contraste com a grandeza divina. De facto, o profeta é um simples homem, com limitações, com imperfeições, mas, apesar de tudo isso, Deus envia-o ao seu povo.

E é justo pensar que Deus nos envia a todos e a cada um. Também nós somos simples seres humanos, mas Deus envia-nos. Devemos considerar que, quando acabar a Missa, não nos limitaremos a ir embora para casa, calmamente, mas somos enviados aos outros. A Igreja que se reúne em volta do altar, não é dissolvida nem dispensada, no final da celebração, mas é enviada a todos os homens.

Num documento de há alguns anos, sobre a Igreja como comunhão, assinado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, depois Bento XVI, diz-se que a Igreja não é "uma realidade voltada sobre si mesma, mas permanentemente aberta à dinâmica missionária e ecuménica, porque enviada ao mundo para anunciar e testemunhar, actualizar e expandir o mistério de comunhão que a constitui: a fim de reunir todos e tudo em Cristo (cf. Mateus 28, 19-20; João 17, 21-23; Efésios 1, 10); de ser para todos "sacramento inseparável de unidade" (Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão, n. 4).

E conhecemos bem a insistência do Papa Francisco em falar de uma Igreja "em saída,,: "Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de «saída., que Deus quer provocar nos crentes. Abraão aceitou a chamada para partir rumo a uma nova terra (cf. Génesis 12, 1-3). Moisés ouviu a chamada de Deus: «Vai; Eu te envio» (Êxodo 3,10), e fez sair o povo para a terra prometida (cf. Êxodo 3, 17). A Jeremias disse: «Irás aonde Eu te enviar» (Jeremias 1, 7). (...) Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da nossa comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho" (Evangelii Gaudium, n. 20).

Este pensamento leva-nos à segunda frase das leituras que hoje queria destacar. S. Paulo diz: "Alegro­me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo". S. Paulo não se queixa nem da vida nem das dificuldades. Pelo contrário, diz: "Alegro-me..." Não há ninguém que não tenha dificuldades, que poderão ser de todo o género. Muitas pessoas trabalham longe de casa, ou estão desempregadas, ou têm problemas de saúde ou problemas económicos, ou falta de tempo, ou estão preocupadas com um filho, ou com um familiar idoso ou doente. E às vezes isso pode trazer consigo a angústia ou a tristeza. Mas S. Paulo dizia: "Quando me sinto fraco, então é que sou forte". E também a nós a fé diz-nos que, no meio dessas dificuldades, Jesus está connosco, e tudo se pode transformar em ocasião de O amar mais e de ajudar os outros, sobretudo de os ajudar a aproximar­se mais de Deus e da fé.

Para beneficiar do poder e do amor de Jesus, é preciso confiar e ser humildes. Jesus traz a novidade de Deus à nossa vida. Não podemos pensar que já sabemos tudo, e não temos nada a aprender ou a receber de Jesus. Não podemos viver 'instalados' na nossa vida cristã.

Hoje, na Igreja, todos somos chamados à «nova evangelização». Nela, os leigos têm «um papel de protagonistas», e de modo especial os casais e as famílias, como disse uma vez João Paulo II, numa vigília de oração com centenas de milhares de jovens, em Madrid (3 de Maio de 2003).

Além disso, "a evangelização exige hoje, com urgência, sacerdotes e pessoas consagradas". "Eis a razão pela qual - acrescentou na altura S. João Paulo II - desejo dizer a cada um de vós, jovens: Se sentis a chamada de Jesus que vos diz: «Segue-Me» (Marcos 2, 14; Lucas 5, 27), não a sufoqueis. Sede generosos, respondei como Maria, oferecendo a Deus o sim alegre das vossas pessoas e da vossa vida". E à Virgem Maria gostaria também hoje de pedir com grande confiança filial:

Mãe do Filho de Deus, Serva humilde, alegre e sempre disponível, ajuda-nos a descobrir com admiração a presença de Jesus na nossa vida, para que Jesus nos salve com o seu poder e o seu amor. Que não haja em nós nem medo nem angústia, mas plena confiança e docilidade, para irmos ao encontro daqueles a quem Jesus nos envia, com a luz da sua palavra e o anúncio do seu amor e de misericórdia, que enche de luz e de alegria a nossa vida. «Santa Maria, Virgem Imaculada, reza connosco, reza por nós». Ámen.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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