5 de Agosto de 2018 - Domingo XVIII do Tempo Comum

O pão da vida

No início do Evangelho de hoje há uma pergunta espontânea que reflecte a admiração de um grupo de pessoas que encontram Jesus em Cafarnaum sem o esperar: "Mestre, quando chegaste aqui?" Não tinham visto Jesus partir do local da multiplicação dos pães, e agora já O encontram do outro lado do mar... Como é evidente, não sabem que Jesus andou sobre as águas, e, já noite escura, foi ao encontro dos discípulos, que tinham enfrentado uma forte ventania e um mar muito agitado, e com eles chegou a terra, logo depois, com toda a paz (João 6, 16-21).

Se já antes da Páscoa Jesus tinha este domínio sobre a criação, que se manifesta nos seus milagres, muito mais hoje, no estado de Ressuscitado, Jesus tem a suprema liberdade de Se tornar presente na nossa vida, e por vezes até quando menos contávamos, ou quando já não o esperávamos. Jesus procura-nos onde quer que estejamos, e encontra-nos sempre, para nos dar a enorme alegria e o conforto incomparável da sua presença. Podemos naturalmente perguntar a Jesus: «Mestre, quando chegaste aqui?» Mas ainda é melhor que digamos a Jesus com toda a gratidão: Como é bom estares aqui! Precisava tanto de Ti!


É interessante que aquelas pessoas começam por tratar Jesus como «Mestre», mas, no final, quando Lhe fazem um último pedido, já o tratam como «Senhor»: "Senhor, dá-nos sempre desse pão". Este pormenor revela um acentuado crescimento na fé. Todo o Evangelho de hoje está percorrido por este dinamismo de crescimento na fé. Deus queira que este crescimento na fé também aconteça connosco!

Jesus, com toda a delicadeza e paciência, conduz aquelas pessoas para uma fé mais pura e mais perfeita. Primeiro, só pensam no alimento que receberam, o pão com que saciaram a fome; depois, começam a senti-lo com um milagre, como um dom do poder e do amor de Jesus; a seguir passam a interessar-se mais por Aquele que o dá, "o Filho do homem", Jesus. E finalmente são convidados a reconhecer que o supremo dom, aquele de que todos mais necessitamos, mais do que tudo, é o próprio Jesus: "O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo".

Temos que ser capazes de passar do dom para o Autor do dom, para o próprio Doador; da maravilha deste mundo para a Inteligência e Bondade divina que O criou. Senão, caímos na idolatria deste mundo, que se torna opaco, e não luminoso e transparente, como devia ser.

É neste sentido que se podem também entender estas palavras de Jesus: "Trabalhai, não tanto pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna". Empenhamo-nos só naquilo que é passageiro, ou também naquilo que permanece para sempre em Deus, no tempo de Deus, que é a vida eterna?

Depois de escutar estas palavras de Jesus, a multidão perguntou-Lhe: "Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?" E então Jesus respondeu-lhes: "A obra de Deus consiste em acreditar n'Aquele que Ele enviou".

Então a fé é obra de Deus? Sim, é obra de Deus em nós, à qual correspondem, com toda a liberdade, a nossa inteligência e a nossa vontade. A fé, que é obra de Deus, é também um acto livre do homem. Na fé, a graça e a liberdade harmonizam-se de um modo misterioso mas muito belo, num acto que é totalmente de Deus e também totalmente nosso.

Que Deus aumente a nossa fé, mediante uma graça mais intensa, à qual não queremos resistir, mas que queremos aceitar com amor, num compromisso pleno da nossa liberdade e da nossa vontade.

Por fim, Jesus apresenta-Se a Si mesmo como "o pão da vida", e acrescenta: "Quem vem a Mim, nunca mais terá fome, e quem acredita em Mim, nunca mais terá sede". Estas palavras significam que Jesus Cristo, enviado pelo Pai, corresponde totalmente aos desejos e expectativas do ser humano, que n'Ele encontra a luz, a força, a verdade, o sentido e a alegria que procura.

Tudo quanto o homem deseja, encontra em Jesus Cristo, mas depois não fica 'satisfeito', como se não precisasse de nada mais; pelo contrário, deseja crescer cada vez mais na intimidade com Ele.

Para matar a nossa fome e a nossa sede, Jesus irá também fazer-Se "pão vivo" na Eucaristia, como anunciará um pouco mais tarde aos seus ouvintes. Que o nosso desejo de O receber neste Pão santíssimo cresça cada vez mais, sabendo que é o próprio Jesus que acende em nós esse desejo, ao qual queremos corresponder com toda a força do nosso amor e da nossa fé.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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