2 de Setembro de 2018 - Domingo XXII do Tempo Comum

Onde tudo se decide

Há pessoas que acham que a moral cristã é complicada, mas não é verdade: a moral cristã é muito simples. Quem tinha uma moral muito complicada eram os fariseus e os escribas, que tinham ao longo dos tempos inventado uma infinidade de normas, preceitos e costumes que queriam impor a toda a gente, criticando severamente os que não os cumpriam.

Eram obrigações que não vinham na Sagrada Escritura, mas tinham sido transmitidas oralmente pelos doutores da lei, ao longo dos tempos, e só foram coligidas mais tarde por escrito pelos Judeus, já nos finais do século II d. C., num livro chamado «Mixná» (repetição).

É o caso das tradições de que hoje fala o Evangelho. A lavagem das mãos e as outras purificações eram práticas um pouco complicadas, que não tinham em vista a higiene ou a limpeza, mas apenas uma pureza formal e exterior, e o pior é que com isso aqueles se esqueciam do mais importante da lei de Deus, em particular ajustiça, o amor e a misericórdia.

Jesus, em resposta às suas críticas, cita o capítulo 29 do profeta Isaías, que põe na boca de Deus as seguintes palavras: "Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim". E logo a seguir Jesus acrescenta: "Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prender à tradição dos homens".

Com esta resposta muito firme e clara, Jesus não só denuncia um culto sem alma, feito de gestos ocos e vazios, mas também censura o abandono da lei de Deus em troca do zelo por simples preceitos humanos.

Ficaria Jesus satisfeito com esta resposta? Sim, com certeza, mas, ao mesmo tempo, Jesus sabia que era preciso ir mais longe. Jesus sabia que a multidão que o rodeava precisava de saber mais. Os seus ouvintes precisavam absolutamente de saber, como nós, se o mal só é mal, se alguém o vir, ou se tiver consequências prejudiciais para os outros; mas, se não tiver, ou se ninguém vir, se ninguém reparar, já não tem problema. Será assim?

Onde é que está a fronteira entre o bem e o mal? Se há tanto mal no mundo, onde é que o mal começa? Responde Jesus, e é impressionante que a sua resposta será verdadeira daqui a mil anos ou daqui a cem mil anos.

Os costumes e tradições dos fariseus foram rapidamente abandonados, mas os critérios do Evangelho são válidos para todos os homens e para todos os tempos. Responde então Jesus: "«O que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem lá de dentro e tornam o homem impuro».

É no íntimo do homem que está a raiz do mal, nas suas escolhas contra a verdade, nas suas decisões contra o amor, nas suas opções que não têm em conta a lei de Deus.

É de dentro do homem que sai todo o mal que há no mundo: não é das estruturas, não é das leis, não é do ambiente, é do coração do homem.

E é também no íntimo do homem que está a fonte do bem, sempre que escutamos a voz de Deus, sempre que ouvimos Jesus, sempre que imitamos Jesus. Por isso é que dizia no início que a moral cristã é muito simples: basta seguir o que Jesus nos ensinou, sem complicações... Basta obedecermos à Lei de Deus, esforçarmo-nos por cumprir os seus mandamentos, que são sempre válidos - "eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos", diz Moisés ao povo eleito, na 1ª leitura; Basta escutar a sua palavra e pô-la em prática, como aconselha S. Tiago, na 2ª leitura: "Sede cumpridores da palavra, e não apenas ouvintes, pois seria enganar-vos a vós mesmos".

Nos dias de hoje, o grande problema não é tanto a moral complicada dos escribas e fariseus, mas a perspectiva de que "tudo é permitido", a ausência de regras e normas fundamentais aceites por todos, o chamado relativismo moral. Numa entrevista dada em 2003, (com o título: "Hoje é o Ocidente que se opõe ao Cristianismo"), o então Cardeal Ratzinger, depois Bento XVI, deixou um alerta, como que a dizer-nos: cuidado, o relativismo moral, dá ao Estado um poder absoluto! Se não há nenhum critério transcendente, então o poder político torna-se a última instância, que não se submete nem pode ser questionado por nenhum tipo de valores. O Estado é que decide o que é o bem e o que é o mal - que é o que hoje acontece, para nossa desgraça.

Mas Jesus ensina-nos que o bem e o mal existem, e é dentro de cada um que as grandes escolhas se fazem. Se tudo se decide no interior do homem, então é preciso converter o interior do homem. Que Jesus nos purifique com a sua palavra e com o seu Espírito, para que a nossa vida seja coerente com a fé que nos ilumina, e com o amor que enche de luz e de alegria o nosso coração.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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