9 de Setembro de 2018 - Domingo XXIII do Tempo Comum
Tudo o que faz é admirável
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Um dia, trouxeram a Jesus "um surdo que mal podia falar, e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele". Este episódio passou-se no território da Decápole, que era uma região que ficava a leste do Jordão, composta por dez cidades (daí o nome «Decápole») unidas por uma espécie de liga, entre elas, por exemplo, Filadélfia, a actual Amman, capital da Jordânia. Na altura era um território pagão onde ainda se prestava culto aos falsos deuses. Por isso, este homem era surdo fisicamente, mas também, por ser pagão, era surdo espiritualmente: ao seu coração nunca tinha chegado o anúncio do Deus único e do seu amor. Vê-se que Jesus sofre com esta situação: sofre com a limitação física daquele homem, e também com a sua surdez à Palavra de Deus. Os que O acompanhavam, notaram que Jesus "suspirou", numa reacção muito humana, que revela desgosto e preocupação. |
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Mas também repararam neste pormenor importante: Jesus ergueu os olhos ao Céu, para se dirigir ao Pai e mostrar que todo o seu poder vem do Pai. Tudo isto aconteceu longe da multidão, porque Jesus não andava à procura de aplausos nem de sucesso humano. Só lhe interessava salvar aquele homem, a quem tocou com as suas próprias mãos, e a quem disse: "Effatha, que quer dizer: Abre-te". Abrete à Palavra de Deus, abre-te a Deus!
Como comentou um dia Bento XVI, "o evangelista conservou-nos a palavra aramaica original que Jesus então pronunciou, transferindo-nos assim directamente para aquele momento" (Homilia em Munique, 10 de Setembro de 2006).
A surdez física deste homem foi curada pelo poder de Jesus, mas a sua surdez espiritual também foi curada ao mesmo tempo. Graças a Jesus, este homem pagão conheceu o amor de Deus, o seu poder, a sua misericórdia, e seguramente tornou-se crente, abandonou os deuses, passou a viver um «culto racional», segundo a verdade.
O profeta Isaías, na 1ª leitura, fala de um tempo em que "se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos". Mas nós, à semelhança de Jesus, "suspiramos", e perguntamos: quando chegará esse tempo? A resposta da fé é que esse tempo já chegou, em Jesus Cristo. Tinham razão osque diziam, depois daquele milagre de Jesus: "Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem".
Jesus tem muitos modos de continuar hoje a sua acção admirável no mundo, e mas quer também continuá-la através de nós, apesar das nossas limitações e imperfeições. Existem muitos caminhos para o fazer, mas o mais habitual será imitar Jesus: afastando-nos da multidão com aquele amigo, com aquele colega, como se o resto do mundo naquele momento não contasse, e interessando-nos por essa pessoa, pelas suas dificuldades, pelas suas perguntas, pelas suas dúvidas, que muitas vezes escondem um desejo de escutar a voz de Deus e contemplar o rosto de Jesus vivo.
S. Tiago, na 2ª leitura, fala de uma discriminação injusta que se verificava em algumas assembleias cristãs, em função dos bens materiais de cada um. Os ricos eram bem recebidos, e os pobres desprezados. É bom estarmos prevenidos, para não voltarmos a cair neste erro. Mas o perigo maior, hoje, pode ser diferente: é o perigo de a Igreja ou a comunidade se fechar em si própria, e esquecer os que estão lá fora e nem sequer vão entrar, porque ninguém os chama ou convida. Por vezes, as pessoas que buscam Deus, procuram-nos, como aconteceu com Jesus. Mas outras vezes, somos nós que temos de estar mais atentos: a um comentário, a uma pergunta, que pode ser o início de um diálogo, ou melhor, de um caminho que levará muitas pessoas a Jesus e à Igreja.
Temos de chamar, interpelar e acolher. Percorremos tantos ambientes, conhecemos tantas pessoas: será que não podemos fazer mais? Estamos no início de um novo ano pastoral. A catequese e os grupos juvenis, vão recomeçar em breve. De certeza que há muitas famílias que é preciso sensibilizar ou despertar, para inscreverem os seus filhos. e aceitarem caminhar com eles. Confio-vos esta missão: animar, convencer, entusiasmar as famílias amigas, para que as suas crianças, adolescentes e jovens frequentem a catequese e descubram e sigam Jesus, na Igreja.
No rito mais antigo do baptismo, o sacerdote toca os ouvidos da criança. dizendo: "Effetha, quod est: adaperire".
No rito actual,do baptismo das crianças só há uma vaga alusão a este gesto e a estas palavras de Jesus. Mas, no caso dos adultos, um dos ritos imediatamente preparatórios do baptismo é este: o celebrante, toca com o polegar no ouvido direito e no esquerdo e também na boca, fechada, de cada um dos eleitos, dizendo: « Effetha », quer dizer, abre-te, para professares a fé que ouviste, em louvor e glória de Deus!"
Todos nós fomos tocados por Jesus, sentimos a sua mão carinhosa pousada sobre nós e o poder da sua graça. Peçamos a Maria que o nosso apostolado seja convincente, revele a beleza da fé, e ajude muitos ouvidos surdos ou corações fechados a aproximarem-se de Deus, para se abrirem à Palavra que ilumina e a graça de Jesus que nos salva.
Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira