16 de Setembro de 2018 - Domingo XXIV do Tempo Comum

O desejo de viver como Jesus

Percebe-se pelo Evangelho de hoje que havia muitas pessoas que tinham admiração por Jesus.

Alguns viam n'Ele um profeta, outros iam um pouco mais longe, e consideravam que Jesus era um novo Elias, que tinha sido um grande profeta; e outros ainda viam n'Ele um novo João Baptista, ainda tão presente na memória de todos.


Tiziano. Cristo carrega a cruz (1570-75)

Esta admiração era positiva, mas era insuficiente. É evidente que já é bom ter uma boa opinião sobre Jesus. É melhor ter uma boa opinião do que um juízo distorcido ou falso! Mas essa boa opinião não chega, e naquele dia, em Cesareia de Filipe, numa zona muito bela, perto das nascentes do Jordão, os discípulos foram convidados a dar um passo decisivo, que os faria conhecer o segredo mais íntimo de Jesus.

Depois de ouvir o resumo das opiniões mais comuns à sua volta, Jesus pergunta-lhes frontalmente: "E vós, quem dizeis que Eu sou?" Nessa altura, "Pedro tomou a palavra e respondeu: "Tu és o Messias". S. Pedro, com a firmeza humilde da verdade, reconhece que Jesus é Aquele que o seu povo esperava. Tantas gerações tinham passado ê espera do Messias! E o Messias tão longamente desejado era Jesus, Ele era o Cristo, o Ungido de Deus, o Salvador.

Mas depois acontece uma coisa surpreendente: Jesus "ordenou-lhes severamente que não falassem d'Ele a ninguém". Porquê esta imposição de silêncio, depois do acto de fé de Pedro? Porque S. Pedro e os outros discípulos precisam ainda de saber de que modo é que o Ungido de Deus vai salvar o seu povo e todos os homens. Vai tentar derrubar os romanos, como alguns esperavam? Vai desencadear uma revolução? Os discípulos precisam de o saber. Se não, subsistirá no seu espírito uma grave ambiguidade, uma dúvida muito profunda sobre uma questão essencial.

Mas Jesus dissipa essa incerteza, e mostra-lhes que não salvará os homens pela revolução nem pela violência, nem sequer por uma normal actuação política. Porque o pior mal que afecta a humanidade não é a opressão política, nem as crises financeiras e os problemas económicos, que é da responsabilidade dos governantes resolver da forma mais verdadeira e justa.

O pior mal que afecta a humanidade é a negação de Deus e a falta de amor. Foi para nos salvar desse mal que Jesus veio à Terra. E só nos salvará pela fidelidade ao Pai e pelo amor levado até ao fim. E naquele momento, Jesus revela-lhes até onde o amor O levará.

Jesus sabe que O espera a incompreensão, a rejeição e a morte. E "dizia-lhes claramente estas coisas", observa S. Marcos. Não mostra nenhuma intenção de se desviar do seu caminho. Sabe bem aquilo que O espera, e, como o Servo de Deus anunciado por Isaías, não fugirá.

Quando S. Pedro percebeu o alcance das palavras de Jesus, manifestou-Lhe com toda a amizade que não lhe parecia bem, que não podia ser! Como é que o Messias poderia sofrer daquela forma? Jesus, porém, não podia aceitar ser desviado, nem por Pedro nem por ninguém, e, como Satanás é aquele que faz tudo para desviar o homem do seu caminho para Deus, "repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas as dos homens".

Na verdade, não disse apenas "vai-te", mas "vai atrás de mim" ("Vade retro me"), porque Pedro, ao contrário de Satanás, com quem se identificou momentaneamente, pode arrepender-se, e seguir Jesus até ao fim.

Isto é coerente com o que vem depois. Rodeado pelos discípulos, Jesus chamou a multidão e disse-lhes: "Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me". E para que todos percebessem o que isso queria dizer. explicou: "Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a vida por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á".

Mas o que, é perder a vida por causa de Jesus? E não viver em função de si mesmo e não querer ser o centro do mundo. É ser fiel, custe o que custar: fiel a Deus, fiel aos compromissos. fiel ao amor, fiel à vocação. É esquecer-se de si muitas vezes para que os outros sejam mais felizes. Nessas alturas, pode parecer que nos perdemos, mas não: encontramo-nos. Pelo contrário, quando alguém só se busca só a si mesmo, ao seu prazer, aos seus interesses egoístas, é então que facilmente se perde e fica só. Esta é a grande escol na a que não podemos fugir nos dias de hoje. Como vamos viver? "Guardando" a vida, ou aceitando perdê-la, isto é, dá-la, como Jesus?

S. Tiago, na 2ª leitura, fala das obras da fé. Mas a primeira das obras da fé é esta orientação de fundo de toda a nossa vida.

Daqui vem tudo o mais: a caridade, a amizade, a partilha, a atenção aos outros.

Uma das coisas boas que tem a condição humana é que, enquanto vivermos, podemos sempre dar um novo sentido e um novo rumo à nossa vida. Com a ajuda de Deus e do seu perdão, podemos esquecer o passado e recomeçar de novo. Peçamos por intercessão de Maria que aumente no mundo o olhar de admiração por Jesus, e que este olhar dê lugar à fé e ao desejo de O imitar e de viver como Ele.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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