30 de Setembro de 2018 - Domingo XXVI do Tempo Comum

A graça mais preciosa

Uma das leituras de hoje está escrita em termos muito severos: trata-se da 2ª leitura, da Epístola de S. Tiago, que se dirige aos "ricos", que deviam ser pessoas bem conhecidas da comunidade, a quem faz diversas acusações, e em especial a seguinte: "Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo".


Um bom comentário a este texto pode ser lido na encíclica Rerum Novarum de Leão XIII (20.11.1878­20.VII.1903), publicada em 15 de Maio de 1891, (há 127 anos!) mas ainda hoje extraordinariamente actual. Desta encíclica e de toda a Doutrina Social da Igreja que a partir dela se elaborou, resulta uma forma de ver a economia e a vida social muito própria, seguramente contrária ao marxismo mas também à ideologia neoliberal, que, como a anterior, não olha a meios para atingir os seus fins.

Na parte das "obrigações dos ricos e dos patrões", Leão XIII prescreve, por exemplo, que estes devem tratar os trabalhadores com dignidade e respeito devidos ao Homem; que o trabalho honra o Homem porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida; que é vergonhoso e desumano usar os homens como vis instrumentos de lucro e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços; proíbe que os patrões imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo.

Também entre as obrigações dos patrões, diz Leão XIII, citando expressamente este passo da Epístola de S. Tiago, que é necessário colocar, em primeiro lugar, a de dar a cada um o salário conveniente; que explorar a pobreza e a miséria, e especular com a indigência, são coisas reprovadas pelas leis divinas e humanas; que cometeria um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer homem no preço do seu trabalho; e que os ricos devem precaver-se da fraude, de toda a manobra usurária que possa atentar contra a economia do pobre e da sociedade em geral (cf. n.10).

Não farei nenhuma aplicação concreta deste ensinamento à situação do nosso país ou de outros países do mundo, mas é legítimo, à sua luz, avaliar e julgar a acção dos governantes e dos poderes públicos de qualquer nação do mundo.

Quem desejar conhecer melhor a Doutrina Social da Igreja pode ler as diversas encíclicas dos Papas, desde a Rerum Novarum ("Das coisas novas") de Leão XIII, ou a Quadragesimo Anno, de Pio XI (1931), até à Encíclica Caritas in Veritate, do Papa Bento XVI (2009). E quem desejar ler apenas uma breve síntese, encontra-a no Catecismo da Igreja Católica (n. 2419-2449).

A existência da Doutrina Social da Igreja não implica a participação do clero na política, que é expressamente proibida pela Igreja, excepto em situações urgentes. Isto porque a missão de melhorar e "animar as realidades temporais", nomeadamente através da participação cívico-política, é destinada aos leigos (Catecismo da Igreja Católica, n. 2242) Logo, a hierarquia eclesiástica "não está no negócio de formar ou dirigir governos" nem de escolher regimes políticos; ela está apenas "no negócio de formar o tipo de pessoa que consegue formar e dirigir governos nos quais a liberdade leva à genuína realização humana" (G. WEIGEL).

No Evangelho, Jesus deixa-nos três ensinamentos muito importantes, que vou sintetizar:

1. Tudo o que os outros fazem, se for bom continua a ser bom, mesmo que não seja feito por nós. Não devemos ter inveja das coisas boas que os outros têm ou fazem.

2. Todos temos o dever de defender os mais frágeis, e em particular as crianças, de quem possa querer fazer-lhes mal. Trata-se de as defender, em primeiro lugar, de todo o tipo de violência, de todas as formas de exploração e de toda a espécie de abusos. Mas também, noutro plano, será preciso defendê-las de uma visão materialista e egoísta da vida. É preciso ensiná-las desde muito cedo a ser generosas, a saber partilhar com os que têm menos. E não podemos deixar que lhes roubem o amor de Deus e a fé. O coração das crianças está feito para conhecer Jesus e para O amar.

3. O mal também pode estar em nós. Então, é preciso cortar, como acontece com certas doenças graves, em que certas células se desenvolvem de forma ameaçadora para as outras células, e então é preciso arrancar, é preciso cortar, para que essas células - que formam um «tumor» - não acabem por tirar a vida às outras células ou aos outros órgãos. Jesus diz-nos que se queremos continuar vivos espiritualmente, se queremos permanecer unidos Deus acima de tudo, temos que nos decidir a separar-nos de certos hábitos, de certas actividades, ou até de certas pessoas. Isso às vezes pode-nos custar, pode-nos doer, mas às vezes é necessário para a felicidade eterna que Jesus deseja para nós.

O que nos pode separar de Deus não é nenhuma brincadeira, não é um problema menor. É o maior perigo que devemos temer! E a intimidade com Deus, a amizade com Jesus é a graça mais preciosa que podemos possuir. Que Jesus nos dê a consciência deste bem precioso, e a graça de o defender e de o fazer crescer ao longo de toda a nossa vida.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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