21 de Outubro de 2018 - Domingo XXIX do Tempo Comum

A alegria de nos sacrificarmos pelos outros

1. Quem tem fé, tem de a aprofundar. E quem não tem fé, tem de procurar. Procurar até encontrar! "Permaneçamos firmes na profissão da nossa fé" - ouvimos hoje na 2ª leitura, da Epístola aos Hebreus. Quem tem fé, tem de ser coerente. Em relação a Deus não podemos ficar num certo equilíbrio: um pouco de fé, um pouco de descrença, um pouco de amor, um pouco de indiferença. Rezo, amanhã esqueço-me. Neste domingo vou à Missa, no seguinte já não sei se me apetece...

Devemos pedir a Deus que a nossa fé seja coerente. Se tenho fé, confio. Se tenho fé, obedeço, faço o que Deus me pede. Se tenho fé, procuro redescobri-la como "uma força transformadora para a vida", como disse um dia Bento XVI.


"A fé é acolher esta mensagem transformadora na nossa vida, é acolher a revelação de Deus, que nos faz conhecer quem Ele é, como age, quais são seus planos para nós".

Portanto, se tenho fé, procuro conhecer os seus planos para mim, e cumpri-los com amor.

Quem tem fé, não «inventa» nem adapta, acolhe a revelação de Deus como ela é.

"Com a revelação - disse também Bento XVI - o próprio Deus comunica-Se a Si mesmo. Diz-Se a Si mesmo, torna-Se acessível. E nós somos capazes de escutar a Sua Palavra e de recebera sua verdade".

2. "Mas onde encontramos a fórmula essencial da fé? Onde encontramos a verdade que nos foi transmitida fielmente, e que é luz para a nossa vida quotidiana? A resposta é simples: no Credo, na Profissão de Fé, o Símbolo da fé".

E por isso, "precisamos que o Credo seja mais profundamente conhecido, compreendido e rezado".

No entanto, alertou o Santo Padre, "o cristão muitas vezes não conhece nem sequer o núcleo central da própria fé católica, do Credo. Não está tão longe hoje o risco de construir, por assim dizer, uma religião 'faça você mesmo'. Devemos, em vez disso, voltar para Deus, para o Deus de Jesus Cristo, devemos redescobrir a mensagem do Evangelho, fazê-lo entrar de modo mais profundo nas nossas consciências e na vida quotidiana".

"Redescobrir a mensagem do Evangelho". Esta atitude é essencial. Não vamos tirar do Evangelho o que nos custa, e deixar só o que nos agrada. É preciso aceitar o Evangelho sem o adulterar, e vivê-lo o mais possível "à letra e sem glosa", isto é, sem interpretações que o suavizem ou adulterem.

3. E que nos diz o Evangelho de hoje? O Evangelho mostra que Jesus sabia que tinha um "cálice" para beber e um "baptismo" para receber. Estas duas imagens aludem à sua morte. O "cálice" simboliza os sofrimentos que teria de suportar, e o "baptismo" indica que Jesus mergulhou totalmente nesse mar de sofrimento.

Mas fê-lo com toda a consciência e liberdade, e por isso purificou nesse mar de sofrimentos que foram a sua paixão e morte na cruz, e de onde emergiu vitorioso, os pecados de todos os homens. Era isso que Isaías já tinha anunciado: "O Justo, meu Servo, justificará a muitos, e tomará sobre si as suas iniquidades".

Em alguns meios há uma estranha desvalorização do sofrimento de Cristo, como se não tivesse valor nenhum, como se pUdéssemos prescindir deles alegremente, e continuar a ser cristãos.

Mas no Evangelho de hoje vemos que Jesus convidou expressamente dois dos seus apóstolos, Tiago e João, e implicitamente todos os outros, a beber do seu cálice, e a mergulhar nesse mesmo baptismo que ia receber. E quando lhes perguntou se o podiam fazer, eles responderam: "Podemos" E foi uma resposta verdadeira! Sim, podemos beber o cálice de Jesus e receber o seu baptismo! Só assim se entra na sua glória: aceitando com Jesus, por amor, todas as provas e os sofrimentos que tenhamos de suportar, e dando a vida, com Jesus, pela salvação de todos.

4. E logo depois, Jesus acrescentou: "Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos".

Hoje para algumas pessoas parece muito difícil aceitar nem que seja um pequeno sofrimento ou um pequeno sacrifício para fazer a vida dos outros mais felizes. Mas é preciso aprender a alegria de nos sacrificarmos pelos outros, por amor. Num casal, numa família, o sacrifício liberta e ajuda a crescer o amor. A vida dos pais que se sacrificam pelos filhos, com alegria, é muito fecunda, e quando os filhos renunciam aos seus egoísmos, estão a abrir caminho para terem eles próprios um futuro feliz.

Vamos pedir, na Santa Missa, que, por Jesus, muitos descubram, na luz da fé em Jesus Cristo, a enorme fecundidade que tem o sofrimento, quando é santificado e transfigurado pelo verdadeiro amor.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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