28 de Outubro de 2018 - Domingo XXX do Tempo Comum
É Deus que nos procura
|
O Evangelho de hoje conta-nos um novo milagre de Jesus: a cura de um cego quando Jesus ia a sair de Jericó, a caminho de para Jerusalém, onde primeiramente seria recebido com grande entusiasmo, mas, alguns dias depois, seria preso, julgado e condenado, e daria a sua vida por nós, na cruz. Tinha chegado o momento de os homens se definirem claramente diante de Jesus. Isto explica a diferença que existe entre este milagre e a cura de um outro cego, quando Jesus ainda estava na Galileia, em Betsaida, que foi feita quase secretamente (Marcos 8,22-26). |
|
Mas agora este cego, chamado Bartimeu, foi curado no meio da multidão: todos assistiram, todos presenciaram, e já antes todos tinham ouvido os seus pedidos, todos escutaram os seus gritos, que alguns ainda tentaram silenciar, mas não foram capazes, porque "ele gritava cada vez mais: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim»".
Este homem grita por Jesus, movido pela fé, e Jesus, sensibilizado, pede que o tragam para junto de Si. Sem hesitar, "o cego atirou fora capa, deu um salto, e foi ter com Jesus". E um gesto impressionante, que é para nós uma lição. Nos momentos de aflição, ou de especial dificuldade, gritamos por Jesus?
Corremos ou até mesmo 'saltamos' para junto de Jesus, procuramo-Lo na oração, e em especial na Eucaristia, na celebração da Missa ou no sacrário, de onde nos chama, onde nos espera, com o seu Coração cheio de amor e misericórdia? Corremos para o Confessionário, onde podemos, não só receber a absolvição das nossas faltas, mas também pedir conselho, ouvir uma palavra de orientação, que pode ser decisiva para a nossa vida? Na pessoa do sacerdote, espera-nos o próprio Jesus. Ele é o Sumo Sacerdote escolhido pelo Pai, como lemos hoje na 2ª leitura, da Epístola aos Hebreus.
É sempre oportuno lembrar o que S. João Maria Vianney, o Santo Cura de Ars, dizia, a respeito da confissão. Neste sacramento, "não é o pecador que regressa a Deus para Lhe pedir perdão, mas é o próprio Deus que corre atrás do pecador e o faz voltar para Ele". E dizia ainda: "Este bom Salvador é tão cheio de amor que nos procura por todo o lado".
Na Igreja dos Jerónimos foram remodelados já há alguns anos os antigos confessionários abertos na parede norte da Igreja, onde, durante séculos, os monges da Ordem de S. Jerónimo absolveram dos seus pecados muitos penitentes, sobretudo mareantes e navegadores, que daqui perto partiam para longas viagens pelo mar. Peço a Deus que também hoje, nestes confessionários, muitas pessoas sintam a envolvê-las a misericórdia divina e a paz da Igreja, e regressem com propósitos renovados e com um novo olhar para a sua vida e para os seus deveres de cristãos.
O cego Bartimeu, quando finalmente conseguiu chegar ao pé de Jesus, pediu-Lhe com toda a humildade e confiança: "«Mestre, que eu veja»". E Jesus, com o seu poder divino, respondeu-lhe: "«vai, a tua fé te salvou»". Estas palavras de Jesus não significam apenas: 'Podes ir, estás curado', mas indicam uma salvação global e profunda destas pessoas que Jesus curou. No caso deste homem, houve mesmo uma verdadeira mudança de vida, como relata S. Marcos: "Logo ele recuperou a vista, e seguiu Jesus pelo caminho". E Jesus aceita que ele O acompanhe, porque chegou o momento da grande decisão. Está na altura de que todos aqueles que querem ver, se encaminhem para Jesus. Todos são chamados a seguir Jesus, para terem «luz».
Um autor do séc. III, S. Clemente de Alexandria, dirigindo-se aos catecúmenos, dizia: "Recebe Cristo, recebe a faculdade de ver, para conheceres bem Deus e o homem. O Verbo que nos iluminou é mais precioso que o ouro e as pedras preciosas, mais saboroso que o mel, o puro mel dos favos (Salmo 18, 11). Como é que alguém poderia não desejar Aquele que iluminou o espírito sepultado nas trevas, e deu capacidade de ver aos olhos da alma, portadores de luz?" Hoje, num mundo de imagens e de sons intensos, de experiências fortes e também de grandes desilusões, muitas pessoas renunciaram a ver para além do imediato, para além do que captam os seus olhos.
Mas há muito mais para ver, para além do que captam fisicamente os nossos olhos. O que há para ver, são os sinais da sabedoria de Deus, que se reflectem no universo imenso e belo, e nesta Terra preciosa onde vivemos. O que há para ver, é o abraço de Deus, que nos acolhe com amor infinito, em tantos momentos difíceis, em tantas horas de prova. O que há para ver, são as mãos de Deus, que recolhem tantas lágrimas choradas, e dão sentido à dor e ao sofrimento de tantos homens e mulheres, no mundo inteiro.
O que há para ver, é este reflexo - por enquanto ainda não conseguimos ver mais - da ressurreição de Jesus Cristo, que nos faz recomeçar, que nos anima a lutar de novo, por amor. É por tudo isto que também nós, como o cego Bartimeu, queremos seguir Jesus pelo caminho.
Mas pedimos a Jesus que não nos deixe ir sozinhos por este caminho. Que connosco caminhem outros, muitos outros, para encontrarem em Jesus a luz e a paz, a salvação e a alegria que procuram.
Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira