4 de Novembro de 2018 - Domingo XXXI do Tempo Comum

De uma vez para sempre

Deus fala aos homens. Por isso, somos chamados a ouvi-Lo, como nos diz a 1ª leitura: "Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor".

Também se poderia traduzir de outra maneira: "Escuta, Israel, o Senhor é o nosso Deus, o Senhor é Uno"; ou ainda:"O Senhor é o nosso Deus, o Senhor somente". "Senhor" traduz a palavra hebraica Adonai, que passou a ser usada e escrita em vez de Iahweh, "Aquele que é", quando o nome de Deus revelado a Moisés deixou de ser pronunciado, por respeito).

Estas palavras tornaram-se uma profissão de fé, e uma afirmação de monoteísmo. Ao longo da história de Israel esta fé num Deus único foi-se destacando cada vez mais. A fé em Deus, no Deus vivo, (Deuteronómio 5, 26) único Senhor do mundo e do seu povo, desdobrou-se naturalmente numa negação sistemática dos falsos deuses: só há um Deus, não há muitos deuses!


Cristo Sumo e Eterno Sacerdote (ícone)

Esta expressão tornou-se o início da oração chamada Shemá ("Ouve"), que continua a ser uma das mais caras à religião judaica. Era repetidas três vezes por dia pelos crentes do Antigo Testamento. O próprio Jesus, a Virgem Maria, Nossa Senhora, S.José e todos os Apóstolos as rezaram inúmeras vezes. É uma oração que acentua uma dimensão essencial da relação do ser humano com Deus: a escuta. Mas não é uma escuta distraída: é uma escuta crente e obediente da Palavra de Deus, que nos leva ao conhecimento e ao amor.

Pela escuta, conhecemos quem é Deus: "O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor". E esse conhecimento leva-nos a amar: "Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças".

Jesus, no Evangelho, cita este texto do Deuteronómio e apresenta-o como a resposta procurada e desejada por aquele escriba que queria saber qual o maior mandamento da Lei. O maior mandamento vem ali claramente formulado. Se Deus é o Senhor, poderíamos não O amar? Ele é o fundamento do nosso ser, sem Ele seríamos nada! E só há uma forma de O amar: com o coração, com a inteligência, com a vontade, com todo o ser. Se O amamos, a nossa vida realiza-se. Se não, fica frustrada, como um dia disse Bento XVI, na Festa de Todos os Santos: "O exemplo dos santos é para nós um estímulo para seguir os mesmos passos e a experimentar a alegria de quem confia em Deus, pois a única causa de tristeza e de infelicidade para o homem deve-se ao facto de viver longe d'Ele".

Jesus, além do Deuteronómio, citou ainda um passo do Levítico (19, 18): "Amarás o próximo como a ti mesmo". A associação destas duas passagens é um ensinamento muito inovador da parte de Jesus, que assim revelou claramente que, embora o amor de Deus se distinga do amor do próximo, é inseparável dele e conduz necessariamente a ele.

Aonde nos pode levar o amor ao próximo? O amor ao próximo não leva só a matar a fome e a sede, a dar roupa ou garantir um tecto a quem o não tem. Muitas vezes isso é urgente, e portanto é preciso começar por aí, para garantir a todos as condições de uma vida digna. Mas é preciso ir mais longe, falar de Deus, anunciar a verdade que dá sentido à vida, desafiar ousadamente os nossos amigos à conversão, à mudança de vida, convidá-los ao encontro com Jesus Cristo e à entrada na Igreja.

O Evangelho compromete-nos na caridade. E esta, na sua expressão mais plena, leva-nos a desejar que os outros conheçam e amem Jesus Cristo, como nós já O amamos. Para isto temos que ser inventivos, criativos, confiantes e nunca desistir. É um dever e também uma alegria ajudar um colega ou um amigo, um filho, um neto, um irmão, a esclarecer as suas dúvidas, e desafiá-lo a reavivar a sua fé, e por isso a voltar vir à Missa, a vir-se confessar para poder comungar de novo, a assumir sem medo o seu papel de cristão na sociedade. Fazemos isto, ou achamos que não vale a pena, já desistimos? Rezamos intensamente por estas pessoas que desejaríamos muito aproximar de Deus e da Igreja?

O melhor momento para o fazer é na Santa Missa, em que se torna presente o dom que Jesus fez de Si mesmo, o seu sacrifício. Ele é o sumo-sacerdote "santo, inocente, sem mancha", que Se ofereceu a Si mesmo, "de uma vez para sempre", (ou "de uma vez por todas"), como diz a Epístola aos Hebreus.

Este texto do Novo Testamento salienta a eficácia absoluta e definitiva do sacrifício de Cristo, que não se repete, mas, como ensina a Igreja Católica, se torna presente em cada Missa. A Missa é o mesmo e único sacrifício de Cristo, oferecido de forma sacramental, pelas mãos do sacerdote. Ao participar na Santa Missa, se possível também pela comunhão, unimo-nos pessoalmente e sacramentalmente ao sacrifício de Cristo, e assim nos dispomos a oferecer com alegria a nossa vida, para glória de Deus, para nossa salvação e para o bem e serviço dos nossos irmãos.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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