16 de Dezembro de 2018 - Domingo III do Advento

Vem aí Alguém...

Estamos no 4º Domingo do Advento, e já vem muito perto o dia de Natal. Mas, ao ritmo da liturgia somos ainda convidados a acompanhar a Virgem Santa Maria e a seguir os seus passos, logo depois da Anunciação. Segundo o Evangelho, "Maria pôs-se a caminho, e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá" (Lucas 1, 39). Esta cidade, onde viviam Isabel e Zacarias, devia ser Ain-Karim, situada nas montanhas da Judeia, perto de Jerusalém, a 150 quilómetros de distância de Nazaré. Era uma longa viagem, que devia levar pelo menos quatro dias a fazer.


Quando a Virgem Maria chega à casa de Isabel, acontece uma admirável comunicação, não só entre elas, mas, também entre os seus filhos, ainda não nascidos. Vê-se que estes já são seres humanos, já são pessoas, embora ainda no abrigo do seio materno! Ao primeiro encontro entre as duas mulheres, o filho de Isabel reage, e a mãe interpreta esse movimento como um sinal de alegria. Ela mesma explica depois: "Logo que chegou aos meus ouvidos o eco da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio" (Lucas 1, 44)

Qual é a causa desta alegria? A explicação só pode ser esta: o filho de Isabel, que virá a ser chamado João, reconhece o seu Senhor, Jesus. A própria Isabel, dirigindo-se à Virgem Maria, dirá depois: "Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?" (Lucas 1, 43)

São palavras com um peso teológico espantoso. «Senhor» é o próprio nome de Deus, é a tradução de «Adonai», que corresponde a Yahweh, o nome com que Deus Se revelou a Moisés, no Sinai (Êxodo 3,14). E ali está o Senhor, o Santo de Deus, o Filho do Altíssimo, feito homem, ainda como um pequeno embrião, mas no qualjá bate um pequeno coraçâo. Isabel intui esta presença misteriosa, oculta, e deixa-se fascinar por ela.

Assim também nós somos convidados a reconhecer o mesmo Senhor, Jesus Cristo, presente na sua Igreja reunida, na Palavra proclamada, no Pão e no Cálice santíssimos da Eucaristia. Que nunca nos falte esta capacidade dever os sinais e reconhecer a Presença!

"Cheia do Espírito Santo", como diz S. Lucas (1, 41), Isabel tem ainda uma intuição interior da incomparável dignidade de Maria, e saúda a Mãe de Jesus com estas palavras, que nós próprios tantas vezes repetimos: "Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre".

É o primeiro louvor dirigido a Maria, que nâo há-de cessar até ao fim do mundo. E será bom repeti-lo muitas vezes nestes dias, se possível diante do presépio, ao rezarmos o Terço, o Rosário da Virgem Maria, em que os louvores e as súplicas se repetem com confiança e alegria incansável.

No episódio da Visitação, Maria é apresentada, antes de mais, como modelo de fé. As palavras finais que Isabel dirige a Maria vão também neste sentido: "Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor" (Lucas 145).

A caridade é essencial à vida cristã, mas o que dá fundamento à vida é a fé. A fé leva à caridade, mas sem fé nunca conheceríamos todo o valor da caridade e do serviço, nem o próprio sentido da vida.

E é na luz da fé que entendemos o Natal. O Natal é o espanto e a admiração diante do Filho de Deus que se faz homem, para fazer dos homens filhos de Deus. O Natal é a alegria de saber que Deus "visitou e redimiu o seu povo", como dirá Zacarias, pai de João Baptista. no seu cântico de acção de graças (Lucas 1, 68).

O Filho de Deus faz-Se homem: isto é espantoso! Ele vem curar as nossas feridas, vem perdoar os nossos pecados, vem vencer os nossos medos, vem preencher a nossa solidão.

Na 1ª leitura, do profeta Miqueias, diz-se que o povo estará como que abandonado "até à altura em que der à luz aquela que há-de ser mãe" (5, 2). Mas hoje, mesmo que estejamos em provação, não estamos abandonados, porque dessa Mãe. que é Maria, nasceu e veio ao mundo o Filho de Deus. A poucos dias do Natal, peço, por intercessão de Maria. que todos os que sofrem não se sintam abandonados, mas sintam a presença e o conforto do Filho de Maria, que é o Filho do Altíssimo, e traz aos homens a paz.

Jesus Cristo é o supremo dom de Deus à humanidade. Não existe nenhum «presente» mais valioso. Sem Ele viveríamos numa enorme pobreza. É d'Ele que precisam os jovens, os casais, os doentes, os idosos, as crianças, os pobres e os ricos: todos os homens. Será que já pensámos em «oferecê-Lo» aos nossos amigos, à nossa família?

O essencial do Natal é a presença de Jesus na nossa vida. E o essencial da vida de Jesus é o que nos revela hoje a 2ª leitura, da carta aos Hebreus, como quem revela um segredo, descrevendo que o Filho de Deus entrou no mundo: "Eis-me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade" (Hebreus 10. 7).

A vida de Jesus na terra, desde o seu primeiro instante. caracteriza-se pela total obediência ao Pai. Por isso, aquele que nasce em Belém, virá um dia a dar a sua vida na cruz. O Filho de Deus vem ao mundo para oferecer a sua vida pelos homens. No Natal está já presente o mistério pascal.

Preparando-nos para celebrar o Natal, já tão próximo, coloquemos no altar da Missa o nosso desejo de acolher e cumprir, tanto quanto depender de nós, o projecto de Deus. Pelo sacrifício de Cristo, que de novo se torna presente, possamos levar aos outros a notícia de que Deus os ama e os salva, em Jesus, seu Filho, que, embora nascido na extrema pobreza de Belém, é o Senhor e o Salvador dos homens. Só assim a alegria das festas de Natal não será passageira nem ilusória, mas continuará a brilhar para sempre em cada dia do ano, em cada dia da nossa vida.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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