30 de Dezembro de 2018 - Sagrada Família de Jesus, Maria e José

A família e o projecto de Deus

A festa de hoje, que vem tão perto do Natal, ensina-nos, em primeiro lugar, que a família é um enorme bem. E a prova está em que o Filho de Deus, quando Se fez homem, quis também ter uma família: a Sagrada Família de Jesus, Maria e José. Jesus foi concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Santa Maria, que O gerou e O deu à luz no presépio de Belém. Mas, quando nasceu, e em toda a sua infância e adolescência, Jesus experimentou o amor não só de sua Mãe, Nossa Senhora, mas também de S. José, que foi para Jesus um verdadeiro pai.


Giotto, A fuga para o Egipto (1303-1305)

S. José, não sendo fisicamente pai de Jesus, foi-o, no entanto, segundo o coração. Amou Jesus profundamente, tal como amou Santa Maria, sua esposa, cuja virgindade sempre defendeu e respeitou. José ofereceu toda a sua vida pelo Filho de Deus. Levou-O para o Egipto e de lá o trouxe, como Nossa Senhora, nos momentos marcados por Deus, Ensinou-Lhe uma profissão, que o próprio Jesus exerceu até à idade de 30 anos (Lc 3, 23). De certeza conversou muitas vezes com Jesus sobre a fé, sobre o mundo, sobre as questões práticas da vida, com ele leu a Sagrada Escritura, com ele foi todos os sábados à sinagoga de Nazaré... S. José exerceu em relação a Jesus uma verdadeira paternidade. Por isso, Nossa Senhora, quando fala a Jesus de si própria e de S. José, diz simplesmente: "«Teu pai e eu»" Por essa mesma razão, aparece várias vezes no Evangelho de S. Lucas a expressão: "Os pais de Jesus...", e não é um lapso, corresponde à verdade profunda do mistério da Encarnação.

Não foi por acaso que Jesus quis nascer numa família, constituída pela união de um homem e de uma mulher. Hoje, Domingo da Sagrada Família, pedimos ao Filho de Deus que abençoe, defenda e santifique as famílias do mundo inteiro, construídas a partir da união fiel do homem e da mulher. Jesus olha com certeza com especial carinho para os casais novos, com filhos pequenos, e também para aqueles que vivem a graça da fidelidade ao fim de muitos anos, sem esquecer os casais que não puderam ter filhos. Além disso, temos a certeza de que o Filho de Deus, Jesus Cristo, dará toda sua força e afecto àquelas famílias onde falta a unidade ou a comunhão; onde não há diálogo e parece não haver amor; onde está somente um dos membros do casal, porque o outro se afastou; onde existe pobreza ou uma doença grave, ou até onde há um avô ou uma avó que toma conta dos netos, porque os pais não estão. Jesus viveu numa família que experimentou dificuldades e até perseguições. De certeza que compreende as dificuldades em que vivem muitas famílias, e está ao seu lado, para as ajudar a ir para a frente no meio dessas provas e lutas, e a crescer na fé e no amor.

Mas a Festa de hoje ensina-nos ainda que as famílias têm de ser também uma escola, em que se inicia cada um na aventura de amar a Deus e de O ouvir; em que se conduz cada um no caminho fascinante de conhecer Jesus Cristo e de O seguir com liberdade. Há famílias que se julgam satisfeitas por inscreverem os seus filhos na catequese e de os levarem até à Primeira Comunhão ou à Profissão de Fé. Mas depois, quando estas etapas foram percorridas, consideram que cumpriram o seu dever, e dão o assunto por encerrado. Muitas crianças, com a estranha concordância dos pais, nunca mais voltam à Igreja, desde o dia seguinte ao da sua Primeira Comunhão ou da sua Profissão de Fé. Será normal? E como poderemos ajudar estas famílias? Queria confiar-vos esta missão: descobrir modos de ajudar as famílias a viver a fé, em todas as etapas da vida, particularmente aquelas famílias onde haja crianças não baptizadas, ou crianças e jovens que abandonaram a catequese, ou que deixaram de vir à Missa. Será que não podemos fazer nada? Às vezes parece que não, mas a verdade é que podemos sempre rezar, propor, convidar, 'desafiar', com alegria e persuasão.

Finalmente, uma família cristã tem de estar aberta à surpresa de Deus e a aceitá-la na fé. No Evangelho de hoje, vemos que Jesus revelou pela primeira vez a sua Mãe e a S. José o conhecimento que tinha do plano de Deus, que Ele vinha realizar. Note-se Jesus já tinha doze anos, e, face à Lei de Moisés, tinha direitos e obrigações, entre os quais o de peregrinar a Jerusalém pela festa da Páscoa, como fez nesse ano pela primeira vez. Mas, quando a peregrinação terminou, Jesus ficou em Jerusalém, e só três dias depois é que os seus pais O encontraram.

Imaginamos a preocupação de Santa Maria e de José, que o Evangelho reflecte. No entanto, não foi por rebeldia nem por um capricho que Jesus procedeu assim: foi porque tinha uma missão a cumprir. E di-lo com toda a naturalidade a sua Mãe e a S. José: "«Por que me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?»". Jesus presume que sabiam... No entanto, naquele momento, "não entenderam as palavras que Jesus lhes disse". Como era possível que Jesus, que ainda pouco antes era um Menino, tivesse já uma consciência tão clara de Quem era, e de qual era a sua missão?

S. Lucas comenta que "sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração", isto é, levava-os à oração, falava deles com Deus, pedia ajuda, pedia forças, na intenção de continuar a dizer «sim»- ao projecto de Deus, por mais surpreendente e exigente que ele se revelasse.

Nesta Festa da Sagrada Família, peçamos por todas as famílias, para que a sua alegria e união sejam tão fortes, que consigam mudar o mundo por dentro. Que os casais sejam generosos na geração e na educação dos filhos. E que o Espírito Santo nos dê a todos a mesma disponibilidade da Virgem Santa Maria, Mãe de Jesus, para aceitar o projecto de Deus, mesmo quando nos surpreende, pondo ao seu serviço, sem receio, como ela própria o fez, todas as nossas capacidades, e em especial a nossa inteligência, a nossa vontade e a nossa liberdade.

Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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