6 de Janeiro de 2019 - Epifania do Senhor
Uma experiência que está a acontecer
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O Evangelho de hoje não é apenas uma narrativa muito bela, com Magos vindos do Oriente e uma estrela que segue à sua frente e lhes indica o caminho. É também um convite a todos os homens para que venham ao encontro de Jesus: não importa o ponto de partida, podem vir de onde quiserem; a única coisa que interessa é que O encontrem, que O conheçam e O amem, e lhe entreguem toda a sua vida. S. Mateus diz-nos que os Magos, logo que chegaram a Belém, "entraram na casa, viram o Menino. com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d'Ele, adoraram-No". Isto faz algum sentido? Desde quando é que homens sábios e poderosos se ajoelham diante de uma criança? Que profundo sentimento os moveu a este gesto tão extraordinário? Terá sido a emoção e a alegria que todos sentimos diante de um bebé ou de uma criança pequenina? Sim, a beleza, a inocência e a fragilidade das crianças encanta toda a gente! Uma criança recém-nascida é um imenso potencial de esperança: tem um caminho à sua frente que nunca ninguém percorreu! |
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Mas, em relação a Jesus, há ainda outro motivo, de natureza sobrenatural, que só a fé descobre. Diante de Jesus recém-nascido, ou mais tarde, durante a sua vida pública, o olhar da fé descobre um segredo escondido. Quando alguém o descobre, fica fascinado. A atitude dos Magos do Oriente simboliza precisamente este fascínio que, na luz da fé, todos nós sentimos diante de Jesus, Filho de Deus, nascido em Belém, da Virgem Santa Maria.
E a causa deste fascínio é esta: Jesus traz em Si o encanto de ser homem, com todas as suas potencialidades e limitações, e a perfeição infinita e ilimitada de ser Deus. A sua natureza humana é como a nossa, com o seu enorme potencial, com as suas imensas capacidades, e ao mesmo tempo é frágil, mortal, limitada, circunscrita a um tempo e a um espaço. Em nós, mas não em Jesus, além disso, esta natureza está inclinada para o mal, está sujeita, infelizmente, ao erro e ao pecado.
Mas a sua natureza divina é imortal, eterna, infinitamente perfeita, infinitamente sábia e poderosa, envolve todos os tempos e abraça todos os homens. E Jesus não é a soma ou a fusão destas duas naturezas, não é em parte Deus e em parte homem, não é o resultado da mistura confusa entre o divino e o humano. Jesus Cristo é uma única pessoa, o Filho de Deus, que une em Si as duas naturezas, humana e divina, "sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação", como disse já há muitos séculos, com grande rigor, um antigo Concílio, o IV Concílio Ecuménico, em Calcedónia, no ano 451.
Jesus, Filho de Deus, aceitou sujeitar-se às nossas limitações e fragilidades humanas, com excepção do pecado, mas não renunciou a ser Deus eterno e imortal. Jesus não deixa de ser o Filho de Deus mesmo quando está na manjedoura do presépio de Belém, ou na casa onde a Sagrada Família se abrigou alguns dias depois, ou ainda no Santíssimo Sacramento da Eucaristia com que nos alimenta e fortalece, e por isso pode ser adorado pelos pastores de Belém, pelos Magos do Oriente e portados os povos da Terra.
Jesus é Deus mesmo na morte, por isso, morre como um homem, mas retoma a vida pelo seu poder divino, pelo seu próprio e exclusivo direito pessoal, que lhe foi comunicado pelo Pai. O Filho de Deus assumiu plenamente a nossa condição humana, sujeitou-Se à fome, ao frio, à pobreza, à traição e à morte, mas a existência de Jesus "enquanto pessoa divina é indestrutível".
Como é que cada um de nós experimenta em seu favor este "carácter único" de Jesus Cristo? De muitos modos, mas, em todos eles, é uma «experiência» que tem de ser feita por cada um de nós, não uma teoria que se conhece vagamente, mas uma experiência que se vive intensamente.
Para exprimir esta ideia, o Papa S. João Paulo II, usou um dia uma expressão muito interessante: falou do «laboratório da fé». Foi em 19 de Agosto do Ano 2000, na Vigília de Oração da Jornada Mundial da Juventude, em TorVergata, nos arredores de Roma, onde estiveram mais de 2 milhões de jovens.
Com esta expressão, que usou 6 vezes, o Papa quis dizer aos jovens e a todos que é natural que, como crentes, possamos encontrar por vezes interrogações e dificuldades. Mas, ao mesmo tempo, podemos experimentar também um gradual aprofundamento e um sensível crescimento da nossa intimidade com Deus e da nossa união a Jesus. A fé é uma «experiência» que está a acontecer. Não é uma teoria distante, que não me diz nada, nem um saber antigo, de que já quase me esqueci: o meu encontro com Jesus está a acontecer neste momento, é uma experiência viva, que me emociona, ilumina e interpela em cada momento da vida.
E podemos terminar com algumas perguntas: A minha fé tem crescido ao longo dos anos, é hoje mais intensa do que era há um ano? Se não, porquê? Entrego a Jesus as minhas fragilidades, para que Ele as transforme com o poder da sua divindade? Deixo-me aperfeiçoar e purificar por Jesus, procuro o seu perdão e a reconciliação com a Igreja? Convido os meus amigos a encontrar-se com Jesus Cristo, na Igreja, para que tenham a alegria de percorrer com Ele os caminhos da vida?
Que a Santa Mãe de Jesus, a Virgem Maria. Nossa Senhora, que viu com surpresa a chegada dos Magos e se alegrou com o enorme fascínio que eles manifestavam pelo seu Divino Filho, conduza os passos de todos para junto de Jesus, e obtenha para todos os homens de hoje, pela sua intercessão, a graça da fé, da esperança e da verdadeira caridade.
Com a sincera amizade do
Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira