27 de Janeiro de 2019 - Domingo III do Tempo Comum
Podemos confiar nos Evangelhos ?
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Como é que os evangelistas escreveram os Evangelhos: como historiadores, que procuram manter uma certa distância e frieza em relação aos assuntos que relatam, ou como testemunhas que vivem o que estão a contar? É incontestável que foi nesta segunda qualidade que os evangelistas escreveram, mas isto não retira verdade nem fidelidade ao seu testemunho. Hoje, s. Lucas, no «prólogo» do seu Evangelho, dirigido a Teófilo (que significa: "aquele que ama a Deus"), revela-nos de que modo o escreveu: apaixonadamente e fielmente, as duas coisas ao mesmo tempo. O Evangelho de Lucas, tal como os outros três evangelhos, não é um relatório neutro e distante de acontecimentos passados; nasce de uma fé profunda e de um grande amor a Jesus. |
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Mas, ao mesmo tempo, é um texto escrito com grande seriedade e rigor. S. Lucas faz questão de dizer ao seu amigo Teófilo, que não escreveu senão "depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens". E fê-lo com este objectivo muito claro, que anuncia a Teófilo: "para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado". Lucas deseja que Teófilo tenha a certeza da verdade do ensinamento que recebeu, quando chegou à fé. A fé não se opõe à verdade. A fé abre-nos à verdade e dá-nos pleno acesso a ela.
Teófilo pode ser cada um de nós, e por isso também a cada um S. Lucas quer confirmar nesta certeza da verdade que nos foi transmitida quando nos tornámos cristãos. Nos últimos tempos, é possível, no entanto, que a confiança de algumas pessoas nos Evangelhos e no conjunto do Novo Testamento tenha sido posta em questão. Algumas pessoas sentirão hoje, talvez mais do que no passado, a necessidade de perguntar: qual o valor histórico que têm os Evangelhos? Por que motivo foram escolhidos estes e rejeitados outros, que passaram a ser considerados «apócrifos» e condenados ao esquecimento?
A escolha dos quatro Evangelhos e a rejeição de muitos outros textos não resultou de uma conspiração secreta nem de uma selecção arbitrária, mas sim de motivos muito claros. E o principal é este: só nos quatro Evangelhos «canónicos» a Igreja reconheceu aquilo a que podemos chamar a «tradição apostólica», isto é, o testemunho dos Doze apóstolos, daqueles que ouviram Jesus, que viram os seus milagres, e que O acompanharam desde o Baptismo até à sua Morte e Ressurreição. Quanto aos outros textos, que de resto são muito mais tardios, viu-se logo que eram, uns, falsificações, e os outros textos piedosos, mas sem enraizamento no ensino dos Apóstolos. E por isso não foram aceites, e com o tempo acabaram por ser esquecidos.
Os Quatro Evangelhos não estão totalmente isentos de dificuldades, porque cada um deles tem um autor diferente, com uma perspectiva própria, e dirigem-se inicialmente a comunidades diferentes, o que influencia em grande medida o seu modo de escrever. Mas todos reflectem a experiência inconfundível de amar e seguir Jesus, e dão de Jesus quatro retratos diferentes, que se completam uns aos outros. Tal como aconteceu com Teófilo, o ensinamento que recebemos sobre Jesus é verdadeiro, e a nossa fé pode apoiar-se com segurança no testemunho dos Quatro Evangelhos.
E olhemos agora para a segunda parte do Evangelho de hoje. Um dia, na sinagoga de Nazaré, Jesus leu um texto da Sagrada Escritura, que dizia: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos, e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor". Quando terminou, diante da admiração de todos, Jesus disse: "«Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir»". Jesus vem cumprir o Grande Jubileu de Deus, «o ano da graça do Senhor», que está sempre em vigor, não acaba nunca. Até ao fim dos tempos estará em vigor este grande «ano de graça» inaugurado por Jesus Cristo na sinagoga de Nazaré.
E hoje é tempo de aceitar o dom da liberdade e do perdão que Jesus nos oferece. O mundo de hoje precisa desta liberdade que Deus nos oferece em Jesus, seu Filho. Deus quer libertar-nos dos vícios, das dependências, das escravidões antigas e das escravidões sofisticadas. Quer dar-nos um coração livre e limpo, capaz de amar e de servir os outros. Aceitamos este dom? Deixamo-nos perdoar e libertar?
Segundo o texto de Isaías, Jesus é Aquele que vem "«proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos»". Jesus vem revelar o sentido que tem a vida, vem-nos libertar da angústia de não saber para onde vamos, nem que valor tem o que fazemos ou sofremos.
Jesus vem manifestar o amor carinhoso de Deus a cada homem e mulher, e vem chamar a todos à conversão e a uma vida santa. É uma enorme graça acreditar em Jesus Cristo, em Quem se cumprem as Escrituras e as esperanças dos homens.
S. Lucas observa também, no início, que Jesus "ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos". Um estudioso observou que, neste Evangelho, o verbo "ensinar» é aplicado a Jesus 14 vezes, e Jesus é chamado «Mestre» 19 vezes. É uma forma muito expressiva de salientar a autoridade de Jesus quando se dirige ao povo, e lhe fala de Deus e do plano de Deus. E indica também que Jesus, como Mestre, tem discípulos, que procuram conhecer, compreender e aplicar na vida os seus ensinamentos. Esses discípulos, hoje, somos nós: seguimos Jesus, aprendemos d'Ele, aprendemos com Ele.
A primeira leitura manifestava a alegria do povo judeu, quando, depois do exmo, no século V a. C., voltou a descobrir o Livro da Lei, esquecido durante muito tempo. Primeiro choram, por se aperceberem que tinham desobedecido à Lei e ofendido a Deus. Mas depois alegram-se, por poderem renovar a Aliança e começar uma vida nova. Também para nós o Evangelho é exigente e ao mesmo tempo libertador. É uma fonte constante de esperança, de alegria e de paz. Se o vivermos, seremos felizes. Mas seremos ainda mais felizes, se o conseguirmos anunciar aos outros, para que todos sigam Jesus, na sua Igreja, e cumpram também como Jesus, e em união com Ele, a vontade do Pai.
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