17 de Fevereiro de 2019 - Domingo VI do Tempo Comum

Uma explosão de vida divina

Todos os seres humanos desejam ser felizes. Aristóteles dizia que a felicidade é o bem último e máximo a que todos aspiramos, e que escolhemos todos os outros fins, bens e valores em razão dele (Ética a Nicómaco). No entanto, às vezes os homens procuram a felicidade onde ela não está, e assim afastam-se cada vez mais desse objectivo tão desejado.


Jesus leva para o Céu Adão e Eva

A felicidade estará no dinheiro? O dinheiro é necessário, mas, quando não se partilha, parece que traz consigo um vírus muito perigoso e com ele a síndroma da tristeza, que depois se tenta disfarçar de muitos modos. É por isso que Jesus diz no Evangelho de hoje: "«Ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação»". E também diz, àqueles que estão muito contentes consigo mesmos, e se fecham aos outros: "«Ai de vós, que agora estai saciados, porque haveis de ter fome. Ai de vós que rides agora, porque haveis de entristecer-vos e chorar»".

Estas palavras não são «maldições», são lamentações, que brotam da profunda misericórdia do Coração de Jesus. Jesus tem pena dos que vivem na abundância e ao mesmo tempo no esquecimento ou no desprezo dos seus semelhantes, e também dos que só buscam o aplauso, o prestígio ou a fama, por vezes sem olhar a meios, tornando-se aos seus próprios olhos pequenos 'deuses', e bastantes vezes desprezando o verdadeiro Deus.

A felicidade está no êxito ou na fama? Também não, visto que o êxito ou a fama são coisas que passam muito depressa, já que não se ganha sempre, e os vencedores de hoje podem ser os derrotados de amanhã.

Também não está no poder, que, ao fim de algum tempo, mesmo quando é exercido de um modo legitimo e honesto, desgasta aqueles que o detêm, e além disso, por uma eleição ou por uma revolução, pode perder-se facilmente.

Está no trabalho profissional? O trabalho intenso e bem feito pode ser santificado, e santifica aquele que o realiza, mas para isso é preciso nunca perder de vista que o seu fim é a realização da pessoa e a glória de Deus, que confiou ao homem este mundo tão belo e precioso. Desligado do seu fim último, o trabalho facilmente desumaniza o homem, sobretudo se for visto apenas como um instrumento ao serviço de interesses económicos poderosos.

Está no divertimento ou no desporto? Se for um divertimento são, ou um desporto praticado com nobreza, o corpo e o espírito descansam, e recuperam as forças para a luta de cada dia, e além disso criam-se amizades e estabelecem-se laços, que se prolongam em muitas outras circunstâncias da vida. Mas há muitos divertimentos que alienam o espírito, além de prejudicarem gravemente a saúde, e há formas de desporto que para muitos são uma idolatria. E a felicidade não está de certeza de certeza no álcool, nas drogas, ou noutros vícios, que estragam a vida e muitas vezes levam à morte.

Então, quem é feliz? Segundo o Evangelho, é feliz quem sabe dar, e mais ainda quem ousa dar-se. É feliz quem tem fé, mesmo que sofra, mesmo que lhe falte o essencial, porque sabe que não está só. Jesus dirige-Se aos que confiam totalmente em Deus, e diz-lhes: "«Bem-aventurados vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus»". É feliz quem põe em Deus toda a sua esperança, como dizia, na 1ª leitura, o profeta Jeremias.

É feliz quem está disposto a dar a vida: seja a uma outra pessoa, ao seu marido ou à sua mulher, para viver uma comunhão de vida, sem prazos nem condições; seja ao próprio Deus, a Jesus e à Igreja, para se dedicar totalmente ao seu serviço; seja ainda a um trabalho ou um projecto que torna o mundo melhor, mais justo e mais belo, ou a uma tarefa de voluntariado, que vai ao encontro das necessidades das outras pessoas, e sobretudo se o fizer para dar glória a Deus. A felicidade não está no sucesso, mas no serviço; não está na posse, mas no dom.

Finalmente, a nossa experiência e a fé dizem-nos que a felicidade não se encontra totalmente nesta vida, mas só na vida futura, para além da fronteira da morte. A nossa fé em Jesus não é só para esta vida, mas para toda a eternidade. Dizia S. Paulo: "Se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos os homens".

"Miseráveis", porque estaríamos a rejeitar o poder de Deus, manifestado na ressurreição de Cristo. Como diz S. João Crisóstomo, não acreditar na ressurreição é "ignorar absolutamente o poder invencível de Deus, que alcança tudo" (Homilias sobre 1 Coríntios).

Jesus aceitou a morte e deu a vida na cruz. Mas a morte não O venceu. "Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram", anunciava ainda S. Paulo, com grande vigor.

A palavra "primícias" implica que aquilo que aconteceu com Cristo, pode acontecer com outros, e a bondade de Deus faz esperar que assim venha a ser. Os primeiros frutos das colheitas, as «primícias», tal como os primogénitos, eram oferecidos a Deus, levando a esperar que a sua bondade e benevolência se estendesse a todos os que viriam depois.

Esta extensão a muitos outros da vitória de Cristo começou desde logo a estender-se aos justos que, na "morada dos mortos", aguardavam, desde o início da humanidade, pela vinda do Senhor.

É belo ver Jesus elevando consigo para o Céu os nossos primeiros pais, que foram os primeiros a pecar, mas também foram os primeiros a receber a promessa da redenção.

E também nós esperamos que a vitória da sua ressurreição, que não se destina a ser um caso isolado mas o «detonador» de uma grande explosão de vida divina, se estenda um dia também à nossa alma e ao nosso corpo, a todo o nosso ser, e não só a nós, mas a todos os homens e mulheres que aceitarem morrer com Ele, para com Ele ressuscitarem gloriosamente.

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