24 de Fevereiro de 2019 - Domingo VII do Tempo Comum

Perdão e não vingança

No Evangelho de hoje, lemos, relatada por S. Lucas, a segunda parte do chamado "Sermão da Planície", O Sermão da Planície refere-se a um conjunto de ensinamentos de Jesus que aparecem juntos em Lucas 6, 17-49, e que prolongam para uma audiência maior alguns pontos do "Sermão da Montanha", que encontramos em S. Mateus (cap. 5­7). Estes ensinamentos constituem o núcleo da mensagem de Cristo sobre o amor e a misericórdia. São uma grande novidade, em face do ensino moral não só dos rabinos, como de todos os líderes religiosos de todos os tempos. Jesus altera alguns critérios ou modos de pensar que costumam comandar a vida das pessoas. Muita gente diz: 'Se me fazem mal, tenho de lhes fazer pior'. A isso chama-se vingança. Mas Jesus diz: "«Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados: Não condeneis, e não sereis condenados»". É uma forma de viver completamente diferente.


James Tissot, As Bem-Aventuranças (1886-1894)

Já a 1ª leitura nos falava de David, que recusou vingar-se do rei Saúl, que o tinha perseguido injustamente. Naquela noite, David podia ter morto Saúl, que estava a dormir no acampamento, quando todos os seus guardas também estavam adormecidos, mas David, movido por um sincero respeito para com Saúl, "não quis atentar contra o ungido do Senhor", e poupou a vida do rei.

Este exemplo implica que devemos aceitar todo o mal que nos façam? Não, o que devemos é vencer o mal com a força de um bem maior. Se ri postarmos à violência com uma violência igualou ainda maior, entramos num círculo vicioso, que nunca terá fim. Pelo contrário, se respondermos à violência com a força da justiça, do amor e do perdão, será possível construir um mundo melhor.

Muita gente não compreende estas palavras de Jesus: "«A quem te bater numa face, apresenta-lhe também a outra.". Mas Jesus não nos ensina que não nos devemos defender, ou que devemos deixar que nos batam, que nos roubem, que nos humilhem. O que nos diz é que, diante da maldade ou da injustiça, não vale a pena pagar na mesma moeda. É inútil: se o fizermos, fica tudo na mesma, ou ainda pior. O que é necessário é tentar contrapor ao mal um bem maior, que vence o mal sem derrotar ninguém.

Por isso, Jesus dizia: "«Amai os vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem esperar nada em troca. Então será grande a vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo, que é bom até para os ingratos e os maus»". O bem tem que ser mais forte do que o mal. o amor tem de ser mais forte do que o ódio, a verdade tem de ser mais forte do que os erros e as mentiras.

Precisamos de nos examinar sinceramente diante de Deus, à luz destas palavras de Jesus, no Evangelho. Quando alguém fala mal de nós ou nos critica, respondemos no mesmo tom, ou procuramos ver se não haverá alguma verdade nessas críticas, na intenção sincera de nos emendarmos e melhorarmos? Quando verificamos que magoámos alguém com as nossas palavras ou atitudes, não hesitamos em reconhecer que procedemos mal, e procuramos, com simplicidade, pedir desculpa, procurando não voltar a cair no mesmo erro?

Cultivamos uma atitude habitual de compreensão em relação aos outros, não exagerando os seus defeitos e realçando mais as suas qualidades? Se há pontos de desacordo, procuramos esclarecê-los pelo diálogo? Os casais esforçam-se por superar positivamente as divergências que possam existir entre si, procurando nunca terminar o dia sem se reconciliar, se antes alguma coisa os magoou ou separou? E todos nós esforçamo-nos sinceramente por nos reconciliar com aqueles com quem tivemos algum ponto de discórdia? As nossas atitudes para com os outros, tanto pessoas de família como amigos, colegas de trabalho ou até desconhecidos, são regidas por uma sincera caridade? O que nos move é sempre a procura do bem e da verdade, tal como Jesus nos revelou e ensinou?

S. Paulo, na 2ª leitura, fala-nos do homem comum, o "homem tirado da terra", que evidentemente "é terreno" (ou «terráqueo», como há tempos alguém me dizia...). Este é "o primeiro homem", que "é o modelo dos homens terrenos". E um modelo muito imperfeito, com as suas atitudes de egoísmo, violência, ambição desmedida, sensualidade desordenada.

Mas há ainda um "segundo homem", que verdadeiramente é o homem novo, e que "veio do Céu". "O homem que veio do Céu", e que é Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, "é o modelo dos homens celestes", dos que querem viver como filhos de Deus. E S. Paulo concluía logicamente: "Assim como trouxemos em nós a imagem do homem terreno, procuremos também trazer em nós a imagem do homem celeste". Se o fizermos, não deixaremos de ser humanos, nem nos tornaremos 'anjos', ou seres 'celestiais', no sentido pejorativo da palavra, mas realizaremos plenamente a nossa humanidade.

É isso que procuramos fazer? Procuramos reflectir em nós a imagem de Jesus? Procuramos viver segundo os critérios novos do seu Evangelho? Se assim fizermos, será muito bom, porque seremos muito mais felizes, e através de nós muitos outros poderão conhecer Jesus, e desejarão amá-Lo, segui-Lo e imitá-Lo.

"Assim como trouxemos em nós a imagem do homem terreno, procuremos também trazer em nós a imagem do homem celeste". Se o fizermos, não deixaremos de ser humanos, nem nos tornaremos 'anjos', ou seres 'celestiais', no sentido pejorativo da palavra, mas realizaremos plenamente a nossa humanidade. É isso que procuramos fazer? Procuramos reflectir em nós a imagem de Jesus? Procuramos viver segundo os critérios novos do seu Evangelho? Se assim fizermos, será muito bom, porque seremos muito mais felizes, e através de nós muitos outros poderão conhecer Jesus, e desejarão amá-Lo, segui-Lo e imitá-Lo.

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