3 de Março de 2019 - Domingo VIII do Tempo Comum

Só temos uma vida

Estamos quase a terminar a 2ª década do 3º Milénio. Existe alguma coisa de comum entre os homens de hoje e aqueles que viveram há quinhentos anos, ou há mil, ou há cinco mil? A nossa sociedade de hoje pouco ou nada tem a ver com a sociedade do tempo dos Descobrimentos, por exemplo, ou do início da nossa nacionalidade, ou da Grécia do tempo de S. Paulo, ou da Palestina do tempo de Jesus, ou da antiga Roma, ou do antigo Egipto...


Mas os homens continuam a ter muitas coisas em comum. Todos nascem e todos morrem. E, principalmente, entre o nascimento e a morte, todos continuam a ter uma profunda ânsia de viver. Queremos viver intensamente e, sobretudo, queremos viver para sempre, como escreveu o Santo Padre S. João Paulo II, na Carta Apostólica Às portas do terceiro milénio: "O homem levanta-se da terra e à terra retorna (cf. Gen 3, 19): eis o dado de evidência Imediata. Mas no homem há uma irreprimível aspiração de viver para sempre. Como pensar na sobrevivência do homem para além da morte? Alguns Imaginaram várias formas de reencarnação: consoante o modo como se tivesse vivido durante a existência anterior, assim viria a experimentar uma nova existência mais nobre ou mais humilde, até atingir a plena purificação. Muito radicada em algumas religiões orientais, esta crença indica, entre outras coisas, que o homem não consegue resignar-se à condição inevitável da morte. Está convencido de que a sua natureza é essencialmente espiritual e imortal» (n. 9).

Por isso, como explicava S. João Paulo II, "a revelação cristã exclui a reencarnação, e fala de um cumprimento que o homem é chamado a realizar no decurso de uma única existência sobre a Terra" (n. 9). E também o Catecismo da Igreja Católica já antes tinha sublinhado: "Quando acabar «a nossa vida sobre a terra, que é só uma", não voltaremos a ter outras vidas terrenas. «Os homens morrem uma só vez" (Heb 9,27). Não existe «reencarnação» depois da morte" (n.l013).

O que existe, sim, é a vida eterna, em que entramos, logo após a morte, com a nossa alma imortal, à qual, como esperamos, se voltará a unir o nosso corpo, no dia da ressurreição dos mortos. Era o que nos ensina S. Paulo, na 2ª leitura de hoje: "Quando este nosso corpo corruptível se tornar incorruptível, e este nosso corpo mortal se tornar imortal, então se realizará a palavra da Escritura: «A morte foi absorvida na vitória. Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão?» (cf.ls 25, 8; Os 13,14). Então, sim, a morte será plenamente vencida. Esta certeza leva S. Paulo a dizer-nos, com emoção: "Demos graças a Deus, que nos dá a vitória, por Nosso Senhor Jesus Cristo". Pela sua ressurreição, Jesus é o vencedor da morte. Em união com Ele, esperamos também vencer, e viver para sempre.

Em todo o caso, é perfeitamente correcto dizer que só temos uma vida, e não a podemos desperdiçar, temos de a aproveitar, precisamente porque é única, e não se repete. Dela depende a vida eterna: do que for hoje a nossa vida na terra depende a nossa vida futura, não por um tempo ou por uns anos, mas por toda a eternidade!

Como fazer, portanto, para "aproveitar" bem a vida, para não desperdiçar nem um instante desta riqueza preciosa que nos foi dada, e que um dia, aqui na terra, chegará ao fim? Segundo uma mentalidade muito divulgada, já que a vida é curta, e um dia acaba, temos de procurar obter o máximo prazer, o máximo gozo ou o máximo lucro possível. É a mentalidade que S. Paulo retrata com estas palavras: "«Comamos e bebamos, que amanhã morreremos»" (1 Cor 15, 32). Mas este modo de viver nunca poderia fazer o homem feliz: de que vale todo o gozo ou todo o lucro deste mundo, se um dia acaba, se um dia tudo acaba?

Não: não é o prazer que faz o homem feliz, não são o lucro ou o bem-estar que realizam a sua vida neste mundo. Esta vida, que um dia começou, e um dia também acabará neste mundo, só se realiza, só atinge a sua plenitude, se nos dermos, se "jogarmos" a vida, numa entrega total de nós mesmos, como escrevia também S. João Paulo II: "Este cumprimento do seu próprio destino, o homem alcança-o no dom sincero de si: esta é a verdade revelada por Cristo. O homem cumpre-se a si mesmo em Deus, que veio ao seu encontro mediante o eterno Filho" (Às portas do terceiro milénio, n. 9).

Nenhum de nós, com certeza, quer frustrar a vida; todos nós a queremos realizar. Mas só há uma maneira de a realizar, só há uma maneira de sermos felizes, já neste mundo e, um dia, por toda a eternidade: é vivermos na graça e na amizade de Deus e no serviço dos outros, que Deus pôs ao nosso lado.

Ensinando-nos a percorrer este caminho, Jesus, no Evangelho de hoje, convida-nos à misericórdia, à generosidade, e também à lucidez sobre nós mesmos, que nos impede de criticar ou condenar os outros. À luz das palavras do Senhor, é necessário salientar, como alguém escreveu, que «a crítica é uma atitude anti­cristã». E, apesar disso, está tão estendida como uma doença contagiosa. Muitas vezes o Papa Francisco tem denunciado esta grave falta, que também "acontece nas nossas comunidades paroquiais, por exemplo quando dois ou três começam a criticar o outro, a falar mal dele, e fazem uma unidade fingida para o condenar" (Homilia em 17 de Maio de 2018). Em vez da crítica, é necessário viver melhor a caridade, e com ela a oração e a mortificação pelos nossos irmãos e em particular portodos aqueles que, na Igreja, têm especiais responsabilidades ao serviço dos outros.

Jesus, no Evangelho, anima-nos ainda a produzir bons frutos. De que se trata? Certamente do que nos falou pouco antes, o desprendimento, a humildade, a generosidade, o amor aos inimigos, o perdão, o dar sem esperar nada em troca. E por fim, Jesus convida-nos a analisar como está o nosso coração: não tanto se «funciona» bem, do ponto de vista médico, quanto se está cheio de sentimentos de amor ou de egoísmo, de generosidade ou de ambição. E o que está «dentro», do coração, nota-se pelas nossas conversas: "pois a boca fala do que transborda do coração". De que falamos? As nossas conversas são normalmente positivas e optimistas, sublinhando o que há de bom, de belo, de autêntico na vida, abrindo caminho para a justiça, a paz, a verdade, Deus, Jesus Cristo?

Se o «coração» é assim tão importante, temos de cuidar melhor dele: pelo silêncio, pela oração, pela contemplação, que é perfeitamente compatível com uma vida intensa e activa. Só uma vida interior intensa nos permitirá produzir muitos frutos, como fizeram os santos. Vamos começar com este desejo a próxima Quaresma, para que um dia, quando passarmos a fronteira da morte, sejamos recebidos por Deus, na vida eterna, e, como diz o Apocalipse, as boas obras nos acompanhem.

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