31 de Março de 2019 - Domingo IV da Quaresma
Regressar à pátria
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A parábola do filho pródigo, também chamada parábola dos dois filhos, traz-nos antes de mais esta mensagem: também nós somos filhos de Deus. O filho "pródigo'" que é chamado assim porque perdeu tudo, no momento em que toma consciência da miséria em que está, e decide regressar para não morrer de fome, vai repetindo dentro de si mesmo o que pensa dizer, quando finalmente chegar a casa: "Pai, pequei contra o céu e contra ti". Mas será que tinha o direito de ainda pronunciar a palavra: "Pai"? Em bom rigor, não, já não tinha esse direito, porque tinha abandonado a sua casa, tinha até pedido o adiantamento da herança, como se o pai já tivesse morrido, portanto tinha renunciado a ser filho. |
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Mas o pai não tinha renunciado a ser pai, e por isso, mesmo sem o merecer, este jovem poderá dizer de novo, depois de tanto tempo: "Pai". E então sentiria que ser filho não era um direito, porque já não tinha direitos, mas uma graça, um puro dom, unicamente fruto do amor do pai.
Também Jesus nos ensinou-nos a tratar a Deus por "Pai", na nossa oração: "Quando orardes, dizei: Pai" (Lucas 11, 2). Para nós isso é normal, quase banal, mas os exegetas modernos, em especial Joachim Jeremias, salientaram que a expressão "Pai" aplicada a Deus, nunca se encontra no Antigo Testamento num texto de oração. É uma novidade trazida por Jesus. Mas teremos mesmo direito a tratar Deus por Pai? Sim, quando fomos baptizados, ganhámos esse direito. Mas essa filiação que recebemos, tem de nascer de uma identificação interior profunda com Cristo, e não de uma simples semelhança exterior, como observa Orígenes (sacerdote e grande teólogo do séc. III).
Na oração do Senhor dizemos: "Pai Nosso que estais nos céus". E com estas palavras, como ensina S. Gregório de Nissa, evocamos também a nossa pátria definitiva, os Céus, a morada de Deus, à qual já pertencemos, mas de onde nos desviamos, de onde nos afastamos pelos nossos pecados. Assim ensinou numa homilia este grande Doutor da Igreja e Bispo, um dos pais da teologia mística, (falecido no ano 394), comentando a parábola do filho pródigo:
" Na parábola do jovem que abandonou a casa paterna e preferiu viver no meio dos porcos, o Verbo (Jesus Cristo) manifesta-nos a miséria humana, ao expor, sob a forma de uma história, de uma narrativa, o nosso descaminho e a nossa vida dissoluta. O pródigo não encontra a sua felicidade primeira, senão depois de tertomado consciência da sua decadência presente, depois de ter entrado em si mesmo e de ter repetido interiormente palavras de penitência. E dizia: «Pai, pequei contra o Céu e contra ti» (Lucas 15, 18). Não se teria acusado de ter pecado contra o Céu, se não estivesse convencido de que o Céu era a sua pátria, e que tinha pecado, ao abandoná-lo. Esta confissão facilita-lhe o regresso para junto do seu pai. Este corre ao seu encontro, lança-se-lhe ao pescoço, beija-o, entrega-lhe uma túnica, não uma nova, mas a anterior, ("a melhor túnica") que perdeu pela sua desobediência, ao provar do fruto proibido, ficando como nu. O anel do dedo designa o selo da imagem divina reencontrada. Além disso, o pai protege-lhe os pés mandando calçálo com as sandálias, para que, ao pisar a cabeça da serpente, não se exponha à sua mordedura" .
A parábola do filho pródigo é, portanto, para todos nós, um convite a regressar à nossa verdadeira pátria, ao Céu, isto é, à união com Deus, à intimidade com Deus, que não somos chamados a viver isoladamente, solitariamente, mas na Igreja, como filhos da Igreja, e como irmãos uns dos outros. E que ninguém se considere triste ou prejudicado por ver regressar o filho pródigo. Que ninguém sinta inveja ou desgosto pelos irmãos que voltam a sentar-se à mesa do banquete, a ajoelhar-se diante de Cristo na santíssima Eucaristia.
Pelo contrário, nada nos levará mais alegria do que ver regressar os que estão longe. Com que amor e com que saudade nos lembramos dos que saíram de casa? Que fazemos para os trazer de novo? Vamos à procura deles? Rezamos por eles?
Avançando na Quaresma a caminho da Páscoa, a parábola do filho pródigo, mas regressada à casa paterna, que Jesus nos contou, deverá levar-nos a viver melhor a nossa condição de filhos de Deus e a ousar dizer com plena confiança: "Pai nosso que estais nos Céus". Assim recomenda S. Gregório de Nissa: "Quando o fizeres, poderás invocar Deus com confiança filial, e chamar o Senhor do Universo teu Pai. Ele voltará para ti o seu olhar paterno; revestir-te-á com a veste divina; colocar-te-á o anel no dedo, pôr-te-á nos pés o calçado do Evangelho, para que empreendas o caminho do alto; conduzir-teá a pátria celeste, por Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a glória e o poder, pelos séculos dos séculos. Amen"
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