7 de Abril de 2019 - Domingo V da Quaresma

A eminente ciência de Jesus Cristo

No Evangelho de hoje a figura central não é, evidentemente, a mulher adúltera, mas sim Jesus, a quem os acusadores da mulher, mais do que a ela mesma, queriam atingir. E é esse adensar de ciladas e traições à volta de Jesus que a Igreja, na sua liturgia, sempre desejou que nós não ignorássemos - e que neste Domingo, a que o antigo calendário litúrgico chamava "1° Domingo da Paixão" («Paixão» com o sentido de «sofrimento») ­volta a estar, em toda a sua dureza, diante dos nossos olhos.

Este aspecto, no entanto, tende a cair um pouco na sombra, (até porque o calendário já não nos adverte tão claramente), mas não seria justo esquecer que, antes de ser condenado à morte e de ser cravado no madeiro da Cruz, em Sexta-Feira Santa, Jesus foi envolvido, por parte de muitos, e sobretudo ao longo do seu último ano e vida entre os homens, por uma incompreensão irracional e por um ódio absurdo.


Pieter van Lint, Jesus e a mulher adúltera (c. de 1690)

Por isso, é para Jesus que queremos dirigir o nosso olhar, surpreendido e emocionado pela intensidade dos seus sofrimentos, e não só na Semana Santa, mas também já neste domingo e durante a semana que hoje começa, para chegarmos mais preparados "ao dia da humilhação do divino Cordeiro", oferecido no altar da cruz por toda a humanidade.

Hoje, vemos que os acusadores daquela mulher dão mostras, não só de uma injusta dureza unilateral para com ela, mas também, e sobretudo, de uma grande deslealdade para com Jesus. No fundo, vemos que a sua única intenção era armarem uma cilada a Jesus, o que lhes devia parecer muito fácil. Naquela época, os judeus, que estavam sob o domínio dos romanos, já não tinham a capacidade de aplicar a pena de morte, como diz S. João, noutro passo do Evangelho (18, 31).

Mas a lei judaica mandava aplicar essa pena nos casos de adultério. Por isso, aos olhos deles, Jesus só tinha uma alternativa: ou mandava perdoar à mulher, e rejeitava a lei de Moisés; ou mandava que ela fosse morta, e rejeitava a autoridade de Roma. No primeiro caso, poderia ser acusado ao Sinédrio, por promover a desobediência à Lei; no segundo caso, poderia ser acusado à autoridade romana, por mandar executar uma pena capital, que era da competência exclusiva desta.

Como é que Jesus foge a esta armadilha? De uma forma surpreendente e admirável. Primeiro, denunciando a culpa daqueles homens que se apresentavam como justos e assumiam o papel de juizes. Antes de mais, sem dizer nada, "Jesus inclinou-Se, e começou a escrever com o dedo no chão".

Podemos supor que se pôs a escrever os pecados dos acusadores, aplicando um texto do profeta Jeremias, que diz: "Os que se afastam de Vós, serão escritos no pó, porque abandonaram o Senhor, fonte das águas vivas" (17,13). Mas eles não perceberam, e continuaram a insistir com Jesus. Então, Jesus "ergueu-Se, e disse-lhes: «Quem de entre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra» Depois, "inclinou-Se novamente, e continuou a escrever no chão".

No Monte das Oliveiras, onde este episódio teve lugar, deve-se ter feito um grande silêncio, misto de surpresa e de vergonha. Com estas palavras, Jesus denuncia a malícia dos seus inimigos, a sua hipocrisia, o seu falso zelo pela Lei. Atirar a primeira pedra cabia à principal testemunha de acusação. Mas quem teria coragem de o fazer, depois de ser tão claramente denunciado como pecador? Por isso, com receio de serem desmascarados por Jesus, "foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou sóJesus e a mulher, que estava no meio".

Que faltava ainda? Depois disto, era ainda necessário anunciar à mulher o seu próprio pecado, e oferecer-lhe o perdão de Deus. Depois de lhe ter demonstrado que não era como os outros - e de facto Jesus era o único sem pecado - o Senhor misericordioso diz à mulher que é livre para se ir embora e retomar a sua vida, mas não para pecar de novo: "Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar".

O amor de Deus, que aqui se manifesta no perdão, é maior do que os nossos pecados. O perdão de Deus é como um novo nascimento. Acontece no Baptismo, e volta a acontecer sempre que nos confessamos com sincero arrependimento. Àquela mulher, a quem não condenou, Jesus, depois de a ter libertado do pecado, diz: "«Vai»". Como se lhe dissesse: - Sim, regressa a casa, regressa à verdade primeira da tua vida, começa de novo!

Na 2ª leitura, da Carta aos Filipenses, S. Paulo fala-nos do "bem supremo" que é conhecer Jesus Cristo. Todas as outras coisas de que S. Paulo se orgulhava, em especial a sua obediência à Lei de Moisés, tornam-se secundárias, em comparação com "a eminente ciência de Jesus Cristo" (Filipenses 3, 8), e muitas outras, sobretudo as coisas do mundo, como comenta S. João Crisóstomo, serão mesmo "lixo", se impedirem ou dificultarem esse conhecimento. E depois manifesta um desejo, que parece fácil de compartilhar, mas que, na parte final, já nos pode parecer um pouco mais difícil: "conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos". Mas também nós, para participarmos na vitória de Jesus Cristo, é verdade dizer que temos de participar nos seus sofrimentos. E como?

Primeiro, aceitando e oferecendo com amor todos os sofrimentos e provas desta vida, pelas quais tenhamos de passar. A vida traz-nos muitas alegrias, mas também acontecem momentos difíceis, que podem ser - e devem ser - uma ocasião para crescermos ainda mais na fé e na identificação pessoal com Cristo.

E, em segundo lugar, participamos nos sofrimentos de Cristo, voltando a meditar, a contemplar e a reviver a sua Paixão e Morte, como nos convida a Igreja, já nesta semana, e sobretudo na Semana Santa, a «Semana maior», como por vezes é chamada.

E já que também hoje Jesus continua a ser injustamente condenado e rejeitado, muitas vezes na pessoa dos seus discípulos, que sofrem perseguição em muitas partes do mundo, que a nossa «compaixão> seja mais sentida, e mais sincero o nosso desejo de não O ofender e de não mais voltar a pecar.

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