12 de Maio de 2019 - IV Domingo da Páscoa

Que não faltem bons pastores !

Hoje é o 4° Domingo da Páscoa, o Domingo do Bom Pastor. No Evangelho, Jesus revela um dos traços que melhor O caracterizam como Bom Pastor, (embora na leitura de hoje esta expressão não apareça): «As minhas ovelhas escutam a minha voz. Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me».


Cristo, Bom Pastor - Mosaico no Mausoléu de Gala Placídia, em Ravena.

No tempo de Jesus, na Palestina, os rebanhos de ovelhas destinavam-se quase exclusivamente a fornecer leite e lã, só raramente é que a sua carne era usada para a alimentação, e por isso os pastores cultivavam uma ligação muito próxima e até carinhosa com as suas ovelhas, a quem chamavam pelos seus nomes, como acontece hoje com os animais domésticos, e elas reconheciam esses nomes, e distinguiam esses sinais ou silvos que o pastor fazia ou emitia para as chamar.

É esta dimensão de conhecimento e de intimidade com os seus discípulos que Jesus quer especialmente acentuar no Evangelho de hoje. Para nós Jesus não é um estranho: reconhecemos a sua voz, e quando percebemos que nos chama, vamos ao seu encontro prontamente, rapidamente.

Muitos católicos, porém, perderam - ou nunca tiveram - esta sensibilidade para identificar a voz de Cristo, e isso deve-se sobretudo a que não rezam, ou rezam pouco, ou rezam mal. Recomendo e peço a cada um que tenha todos os dias um tempo de oração: não precisa de ser muito longo, mas algum tempo é necessário para ouvir Jesus, que nos fala silenciosamente, mas ao mesmo tempo com suficiente nitidez, de tal modo que, se não estivermos distraídos, sempre O conseguiremos ouvir.

Se O ouvirmos, de certeza que nos vai dizer coisas muito importantes para a nossa vida. E também nos pode fazer chamamentos especiais, confiar missões, lançar desafios. Por exemplo, e hoje é um bom dia para o lembrar, a alguns dirá: «Vem para o Seminário, por que não? Podes ser sacerdote, e ser o bom pastor de muitos que andam à deriva, mas a quem vais ajudar a conhecer e a amar Jesus, a servir os outros, a ser muito feliz na Terra e a não esquecer o caminho do Céu».

O pastor e as ovelhas tinham de ir sempre avançando à procura de pastagens. O pastor ia à frente, para lhes mostrar o caminho, e às vezes o caminho tornava-se perigoso, apareciam desfiladeiros, vales apertados em que o sol se escondia, parecia que a noite tinha caído de repente, e a vida das ovelhas podia estar em risco, se escorregassem pela encosta, mas o pastor estava lá, e não as deixava precipitar-se no abismo.

Um salmo do Antigo Testamento que rezamos muitas vezes diz: "O Senhor é meu pastor, nada me falta (...) Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, nenhum mal temerei, porque Vós estais comigo" (Sal 22 [23], 1.4). Esses vales tenebrosos, que nas antigas traduções grega e latina aparecem como «os vales da sombra da morte», eram vistos como uma imagem da morte, e por isso é que nos antigos túmulos dos cristãos aparecia muitas vezes a representação do pastor, indicando que é aí também, na própria morte, que o Bom Pastor estará connosco.

Como estamos no Tempo Pascal, em que celebramos a morte redentora de Jesus e a sua ressurreição gloriosa, faz-nos bem ler o belíssimo comentário que Bento XVI fez a este salmo na sua 2ª encíclica, Salvos na esperança:

"O verdadeiro pastor é Aquele que conhece também o caminho que passa pelo vale da morte; Aquele que, mesmo na estrada da derradeira solidão, onde ninguém me pode acompanhar, caminha comigo, servindo-me de guia ao atravessá-la: Ele mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a, e voltou para nos acompanhar a nós agora e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele, se consegue encontrar uma passagem. A certeza de que existe Aquele que, mesmo na morte, me acompanha, e com o seu «bastão e o seu cajado me conforta», de modo que «não devo temer nenhum mal» (cf.Sa/22 [23J, 4): esta era a nova «esperança» que surgia na vida dos crentes" (n. 6).

Noutros momentos, os pastores podiam ser ameaçados por ladrões, e podiam também aparecer lobos ou outros animais selvagens e era preciso afugentá-los sem medo, e em caso algum o pastor podia fugir e deixar as ovelhas ao abandono. O Bom Pastor, segundo as palavras de Cristo, é precisamente aquele que, «vendo vir o lobo», não foge, mas está pronto a expor a sua vida, lutando com o ladrão a fim de que nenhuma das ovelhas se perca. Se não estivesse pronto a isto, não seria digno do nome de Bom Pastor. Seria mercenário, mas não Pastor.

Este é o discurso alegórico de Jesus. O significado essencial dele está exactamente nisto: em que o bom pastor oferece a vida pelas ovelhas (João 10,11). Isto significa, no contexto dos acontecimentos da Semana Santa, que Jesus, morrendo na cruz, ofereceu a vida por cada homem e por todos os homens.

«Só Ele podia fazê-lo; só Ele podia levar o peso do mundo inteiro, o peso de um mundo culpado, a carga do pecado do homem, do presente e do futuro - os sofrimentos que nós deveríamos, mas não pudemos, pagar -, "no Seu corpo, sobre o madeiro da cruz" (1 Pedro 2,24) com um Espírito eterno "oferecendo-se a Si mesmo sem mancha a Deus... para servir o Deus vivo" (Hebreus 9,14). Isto foi o que fez Cristo, que deu a Sua vida por todos: e por isso é chamado Bom Pastor» (Beato Card. J. H. Newman, Parochial and Plain Sermons, 16, London 1899, pág. 235).

E com Santo Agostinho peçamos nós também hoje: "Oxalá não cheguem a faltar bons pastores! Longe de nós que faltem, e longe da misericórdia divina que deixe de os fazer surgir e estabelecer. Com certeza, se há boas ovelhas, haverá também bons pastores: de facto, é das boas ovelhas que derivam os bons pastores» (Santos Agostinho, Sermones ad populum, 1, Sermo XLIV, XIII, 30).

Que a intercessão de Nossa Senhora obtenha hoje para a Igreja que, das "boas ovelhas", surjam também os "bons pastores", que são tão necessários para o serviço de todos os fiéis e do mundo inteiro.

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