19 de Maio de 2019 - V Domingo da Páscoa

«Vede como eles se amam!»

Na 1ª leitura de hoje assistimos ao final da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé: desde a última cidade que visitaram, que se chamava Derbe, regressam a Antioquia, na Síria, de onde tinham partido. Quais eram os sentimentos dos dois apóstolos, no fim desta emocionante viagem missionária? O texto dos Actos mostra-nos claramente que, de volta a Antioquia, Paulo e Barnabé traziam o coração cheio de alegria e gratidão: quando partiram, iam "confiados na graça de Deus"; agora, ao regressar, "convocaram a Igreja", e "contaram tudo o que Deus fizera com eles, e como abrira aos gentios a porta da fé". Tinha sido uma viagem cheia de frutos, à sua palavra muitas pessoas se tinham convertido, mas Paulo e Barnabé atribuem a Deus todas estas conversões, pois Deus é que tinha actuado, e eles tinham sido nas suas mãos instrumentos dóceis e fiéis.


E nós, que fazemos, para ajudar a abrir a muitas pessoas "a porta da fé"? Quando damos catequese ou realizamos qualquer outro apostolado, quando falamos de Jesus aos nossos amigos ou abordamos temas de fé com tantas outras pessoas, confiamos na graça de Deus e na acção do Espírito Santo?

Procuramos não ser um obstáculo à acção de Deus e, pelo contrário, ser instrumentos dóceis na suas mãos? Tal como os pastorinhos de Fátima, rezamos e oferecemos sacrifícios pelas pessoas que desejaríamos que se convertessem a Jesus? Quando surgem obstáculos ou dificuldades, pedimos ajuda a Deus, e continuamos alegres e confiantes, sem desistir nem desanimar?

Muitas pessoas desanimam, ao considerarem como é violento e injusto o mundo em que vivemos. Terrorismo, guerras, violências, roubos, abusos, ambição desordenada, desonestidade, imoralidade, e tantos outros males, são traços demasiado acentuados do mundo actual. Não são os únicos, mas às vezes parecem sufocar o que há de bom na vida humana. O mal às vezes parece que é mais forte do que o bem e a verdade. O maligno parece às vezes que é o senhor do mundo. Quem irá prevalecer? Quem irá vencer definitivamente?

A Palavra de Deus também nos dá a resposta a esta pergunta. Hoje, na 2ª leitura, somos convidados a ver, na luz da fé, o que viu, com olhar profético, S. João, autor do Apocalipse: "Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra... Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu da presença de Deus..." É uma visão bela e grandiosa, que alenta a nossa esperança. Embora continuasse a viver num mundo muito violento e injusto, João viu em Deus "um novo céu e uma nova terra", isto é, um Universo novo, ou antes, renovado, radicalmente transformado.

Haverá uma renovação física do Universo, para que ele próprio participe, à sua maneira, na glória de Cristo ressuscitado? Sim, há vários passos do Novo Testamento que nos transmitem esta mensagem. No entanto, não sabemos quando nem como acontecerá essa renovação. O que sabemos, com toda a clareza, como diz o Apocalipse, é que haverá uma renovação moral e espiritual: o mundo novo e definitivo será um mundo sem maldade e sem pecado, em que a vitória de Jesus ressuscitado se estenderá a todas as dimensões da vida.

Deus acendeu nos nossos corações a esperança deste mundo novo, e não devemos deixar que a chama desta esperança se apague em nós. Não nos devemos resignar ao mundo, tal como ele existe hoje. Este mundo não é definitivo, não nos «enche as medidas», e precisa de ser, desde já, profundamente purificado. Hoje, pedimos por intercessão do Imaculado Coração de Maria, que esta purificação comece por nós, pelos nossos corações e por toda a nossa vida. Que a nossa vida seja já hoje renovada, convertida, pela graça de Cristo, e assim sejamos fermento de um mundo novo, transformado pela presença de Deus e pela sua inesgotável misericórdia.

Jesus, no Evangelho, não nos convida a uma vida 'mediana', em que apenas se procura não cometer grandes erros, nem grandes desvios, mas sim a uma vida entregue, segundo a medida do seu amor levado "até ao fim" (Jo 13, 1). As diversas religiões e sabedorias da humanidade é que são animadas por ideais de harmonia, equilíbrio, bom senso, mas a fé cristã é completamente diferente. Nós não somos chamados a um certo 'equilíbrio', mas sim uma entrega total, porque Jesus, ao morrer por nós, deu-nos a prova máxima do amor (Jo 15, 3). E por isso, Jesus, no Evangelho de hoje, não nos manda ser apenas 'boas pessoas', mas diz-nos: "«Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros»".

Há muitos graus e formas de amor, e nem todas igualmente verdadeiras. Mas o amor a que Jesus nos chama é "novo": "como Eu vos amei". A Paixão de Jesus mostra­nos de um modo profundamente emocionante como foi, e até onde chegou este amor. Nunca ninguém amou como Jesus. Parece impossível atingir a perfeição e a intensidade do amor de Jesus. No entanto, o amor de Jesus é o modelo, a fonte, a inspiração e o referencial de todo o amor humano.

«Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros»". Segundo conta um autor do séc. III, Tertuliano, os primeiros cristãos tomaram tão a sério estas palavras de Jesus, que os gentios exclamavam, admirados: «Vede como eles se amam!» (Apolog. 39). Nós acreditamos no amor de Jesus, e acreditamos que é possível vivê-lo. Isto não significa que sejamos perfeitos: continuamos a ser imperfeitos e pecadores. Mas pedimos-Lhe que nos dê um coração novo, capaz de viver o seu mandamento novo, e assim antecipar, à nossa volta e no mundo em que vivemos, esse tempo que ansiosamente esperamos, em que o próprio Deus fará novas "todas as coisas".

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