16 de Junho de 2019 - Santíssima Trindade

As várias línguas são os vários testemunhos de Cristo

Conta-se que, um dia, Santo Agostinho andava numa praia a meditar sobre o mistério da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito santo, um só Deus em três Pessoas iguais distintas. Enquanto caminhava, observou um menino que levava uma pequena concha com água. A criança ia até o mar, trazia a água e deitava­a dentro de um pequena cova que tinha feito.


Giovanni Lanfranco, Santo Agostinho interroga o menino à beira-mar

Após ver o menino fazer repetidas vezes a mesma coisa, Agostinho resolveu interrogá-lo sobre o que pretendia. E o menino, olhando-o, respondeu com simplicidade: «Ando a transportar a água do mar para esta cova». Santo Agostinho, sorrindo, respondeu-lhe: «Olha lá: então não vês que é impossível colocar toda a água do mar nessa cova? O mar, estás a vê-lo?, é imenso, e a tua cova é tão pequenina!. No mesmo instante, revelando ser um enviado de Deus, a criança transformou-se em Anjo (ou, noutras versões, no próprio Jesus-menino), e respondeu: «Pois eu digo-te, Agostinho: é mais fácil para mim pôr toda a água do mar nesta cova, do que tu esgotares, só com os recursos da tua razão, as profundezas do mistério da Trindade!» E desapareceu.

Esta história é muito interessante, mas é uma lenda medieval tardia, e acaba até por ser um pouco injusta para Santo Agostinho, que "nunca teve a pretensão de meter o mar, o abismo trinitário dentro da cova da sua mente. O Sermão 117, 5 é claro: «Falamos de Deus. Qual a admiração se não compreendes? De facto, se compreendes, não é Deus."

Santo Agostinho sabia muito bem que o oceano infinito que é Deus "não cabe na pequena concha do nosso pensamento, por muito que este se amplie" (J. Ratzinger, Deus e o mundo, p. 227).

Essa limitação não impediu Santo Agostinho de dedicar muitos anos da sua vida a meditar sobre a Santíssima Trindade, e com ele aprendemos que, se é verdade que não conseguimos «compreender» a Trindade, podemos pelo menos captar a sua o seu sentido, a sua verdade íntima e a sua profunda beleza.

A existência de um só Deus em três Pessoas, transcende totalmente a nossa capacidade de compreensão. Por isso é que, em todo o Antigo Testamento, Deus só foi conhecido como Uno: um só, um único Deus. A Santíssima Trindade é um mistério que ultrapassa as capacidades do ser humano. E ainda hoje continuaríamos a desconhecê-Ia, se Jesus Cristo, Filho de Deus, a não tivesse revelado.

É verdade que Jesus não fala ainda de «Pessoas» nem de «Trindade». Estes conceitos só surgiram mais tarde, na reflexão dos cristãos. Nos Evangelhos, Jesus revela que não é apenas mais um ser humano que Se relaciona com Deus, como tantos outros. Ele é "o Filho", num sentido único e incomparável. É o Filho eterno de Deus Pai. E, quando Jesus fala do Pai, diz, como ouvimos hoje no Evangelho de S. João: "«Tudo o que o Pai tem é meu»".

Por sua vez, quando fala do Espírito Santo, manifesta igualmente a sua condição de «Pessoa». O Espírito Santo não é somente outro nome de Deus, uma forma subtil e bela de falar da sua espiritualidade ou da sua santidade.

O Espírito Santo é também «Alguém» em Deus. O Espírito «ouve» e «diz» aos homens tudo o que «ouviu», como diz Jesus: "«Não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido»". O Espírito não tem uma actuação autónoma, mas vem trazer aos homens o que recebe de Jesus e do Pai. Por isso, "glorifica" Jesus.

O Espírito Santo tem um único objectivo: guiar-nos "para a verdade plena". Mas esta verdade não é uma teoria, nem uma abstracção. A verdade de que fala o Evangelho é o próprio Jesus Cristo, que diz de Si mesmo: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida".

Por isso, o Espírito Santo é enviado para nos unir mais intimamente a Jesus Cristo, para nos ajudar a aprofundar o conhecimento de Jesus Cristo e nos identificar com Ele.

À luz da 1ª leitura de hoje, do livro da Sabedoria, compreendemos que também o mundo, com a sua ordem, com a sua beleza fala de Deus, fala da Santíssima Trindade: "Para quem tem fé, todo o universo fala de Deus Uno e Trino. Desde os espaços interestelares até às partículas microscópicas, tudo o que existe remete a um Ser que se comunica na multiplicidade e variedade dos elementos, como numa imensa sinfonia. Tudo o que existe revela que na sua origem há um Pensamento, uma Sabedoria, que é ao mesmo tempo infinito Amor" (Bento XVI).

Celebrar a Santíssima Trindade é, portanto, a descoberta fascinante do mistério de Deus, mas também desta capacidade de livremente nos entregarmos a nós mesmos, conduzidos pelo Espírito Santo, para tornarmos o seu amor mais presente no imenso universo e sobretudo no coração, na mente e no mistério quotidiano, com as suas alegrias e tristezas, da vida de todos os homens.

Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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