23 de Junho de 2019 - 12º Domingo do Tempo per Annum
Seguir Jesus todos os dias
|
É muito bom que as coisas importantes sejam ditas, e não fiquem por dizer, por falta de tempo, por vergonha ou timidez. Jesus quis dar aos seus discípulos a oportunidade de tomarem consciência da graça da fé que já tinham, e de a poderem «dizer», de a poderem declarar, com toda a verdade, na sua presença. Por isso lhes perguntou: "«Quem dizem as multidões que eu sou?»" As multidões, aparentemente, andavam perto, andavam à volta, mas ainda não tinham chegado ao centro, ainda não tinham percebido que Jesus era único, que não era um profeta como os outros, que não havia mais ninguém como Ele. |
|
Já os discípulos, graças a Deus, tinham um olhar completamente diferente, e por isso, quando Jesus lhes pergunta: "«E vós, quem dizeis que Eu sou?»", S. Pedro tomou a palavra em nome de todos, e respondeu: "«És o Messias de Deus»", o que significa: És o Salvador prometido, és Aquele que Deus escolheu e consagrou. Ou, com palavras mais simples: "«És o Filho de Deus vivo»" (Mateus 16,16).
Como é que Pedro respondeu com tanta segurança e com tanta verdade? É simples: Pedro conhecia Jesus, tinha ficado fascinado com a verdade das suas palavras, conhecia muito bem a sua bondade, tinha experimentado o seu perdão, tinha presenciado a sua oração naqueles momentos em que Jesus orava sozinho, e, além de tudo isso, tinha visto os seus milagres! Como é que ele podia dizer que Jesus era um profeta como outro qualquer? Não podia! A sua resposta nasce de um conhecimento e de uma experiência, não é uma resposta «ao calhas", não é uma frase feita, não exprime uma ideia vaga, exprime uma fé sincera e uma amor profundo que havia já no seu coração e no coração de todos os outros discípulos.
E o mesmo acontece connosco, graças a Deus. Quando dizemos que somos cristãos, sabemos perfeitamente o que estamos a dizer, também nós já experimentámos a bondade de Jesus, a sua misericórdia, o seu perdão, e até os seus milagres, de tantos modos, na nossa vida. Há pessoas que dizem que não têm fé, que são agnósticas: possivelmente, ainda não puderam conhecer o que Deus diz de Si mesmo, a sua Revelação, a sua Palavra que ilumina, o seu Amor que perdoa, e por isso ainda não aceitaram identificar-se com Cristo, ainda não receberam a sua graça, que nos renova interiormente. S. Paulo dizia, na 2ª leitura: "Todos vós, que fostes baptizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo". Sim, todo o nosso ser está envolvido pela graça de Jesus, e isto não é apenas como um hábito ou uma túnica que se veste, é uma vida nova que nos é dada, e que se torna nossa. A vida de Jesus está em nós, e nós vivemos com Ele, por Ele e n'Ele. É esta a verdade sem fingimento, e é esta a nossa experiência.
Mas então, se a vida de Jesus está em nós, pela fé e pela graça, é evidente que temos de viver como Jesus. E impressionante que, depois da resposta de S. Pedro, Jesus anunciou-lhes que não se ia poupar a nenhum sofrimento, ia aceitar tudo o que fosse preciso, tudo o que teria de acontecer como consequência do seu amor do seu amor pelo Pai e do seu amor por nós: "«0 Filho do homem tem de sofrer muito, tem de ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia»". Jesus sabe perfeitamente tudo o que Lhe vai acontecer, e aceita tudo, à partida, com uma fidelidade total, com um obediência incondicional ao Pai.
E depois, dirigindo-Se a todos, disse: "«Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-Me»". Jesus pede-nos que não vivamos fechados em nós. Tomar a cruz significa estar disposto a dar a vida. Há pessoas que vivem só para as suas coisas, só para o seu trabalho, ou só para ter mais dinheiro, ou só para fazer mais esta ou aquela experiência. É uma vida que se fecha em si mesma, que se esgota em si mesma. Uma vida assim, mesmo que esteja cheia de coisas, torna-se vazia, não se realiza, perde-se, como dizia Jesus.
Mas, ensinou também Jesus, "«quem perder a sua vida por minha causa, háde salvá-la»". Perder a vida por causa de Jesus é aceitar que seja Jesus a revelar-nos o que é bom para nós, e não o que nos parecia, só com os nossos pobres critérios. Perder a vida por causa de Jesus é renunciar à ambição absorvente de querer ser bem sucedido no mundo, a todo o custo. É deixar de se preocupar excessivamente consigo próprio, e pensar no outro, tanto no matrimónio, como na dedicação exclusiva ao próximo por amor de Jesus.
É assim que nos encontramos, esquecendonos de nós. É assim que nos salvamos, aceitando «perder-nos», aceitando morrer em Jesus, para n'Ele encontramos a vida. Que a Virgem Maria, Mãe de Jesus, que conhece muito bem o segredo de uma vida entregue incondicionalmente, desde o primeiro instante, nos ajude a viver também assim. Não há outra maneira de ser feliz, já neste mundo! Com Maria, queremos seguir Jesus, para um dia recebermos plenamente a sua vida, e contemplarmos para sempre o esplendor da sua vitória e a luz deslumbrante da sua glória, no Céu.
Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira