7 de Julho de 2019 - 14º Domingo do Tempo Comum

A seara e a Cruz

É muito bela a imagem da seara, que Jesus utiliza no Evangelho de hoje. A seara ondulante dá-nos uma sensação de abundância e de paz. Mas. quando há uma seara. é porque primeiro já houve uma sementeira. E foi essa missão de semear que Jesus confiou aos setenta e dois discípulos de que fala o Evangelho de hoje. Jesus escolheu-os "e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele próprio havia de ir".


Os ambientes daquele tempo eram muito diferentes dos de hoje. Mas temos muitas coisas em comum com aqueles setenta e dois discípulos. Em primeiro lugar, também nós levamos uma mensagem de paz. E é preciso que todos os que falam connosco sobre Deus ou sobre temas de fé. mesmo que estejam muito afastados ou muito fechados. sintam em si uma paz que é sinal certo da presença de Deus.

Pode haver casos de pessoas que nos digam: 'desculpe. não quero ouvir falar disso, esse assunto não me interessa'. E outros podem assumir uma atitude combativa e até agressiva. Mas há uma atitude que está sempre ao nosso alcance: ajudar a reconciliar a razão e a fé. É uma das tarefas prioritárias da Igreja de hoje e de cada um de nós! Há alguns anos, Bento XVI, nas suas catequeses sobre as grandes figuras da Igreja antiga, falou de Clemente de Alexandria, um grande teólogo que nasceu provavelmente em Atenas, nos meados do séc. II. De Atenas, observou o Santo Padre, "herdou um notável interesse pela filosofia, que o converteu num dos mais destacados promotores do diálogo entre a fé e a razão na tradição cristã".

Depois foi para Alexandria, no Egipto, cidade-símbolo da encruzilhada entre as diferentes culturas que caracterizou a época helenística. Numerosas fontes atestam que foi ordenado sacerdote. Mais tarde, durante a perseguição dos anos 202-203, abandonou Alexandria, e foi para Cesareia. actualmente na Turquia, onde faleceu no ano 215. Clemente só deixou o diálogo quandofoi perseguido de morte, mas até então procurou-o por todos os modos.

Também hoje o diálogo entre a fé e a razão tem que ser cultivado por nós com gosto. Muitas pessoas afastam-se da fé, por pensarem que ela se opõe à razão. Mas, quando descobrirem que a fé purifica e eleva a razão, e que a razão necessita e tem sede da fé para se realizar plenamente, poderão dar grandes passos em direcção a Deus. Essa descoberta pode depender muito de nós! Não devemos hesitar em procurar o diálogo entre a fé e a filosofia, ou entre a fé e a ciência.

Se ele for bem sucedido, muitas pessoas. com a ajuda das «duas asas» da fé e da razão, poderão chegar "a um conhecimento profundo da Verdade, que é Jesus Cristo, o Verbo de Deus" (Bento XVI).

Mas, para além do diálogo, há também um momento em que, com toda a simplicidade, anunciamos Jesus. Para qualquer cristão, o anúncio de Jesus Cristo é uma verdadeira paixão. A possibilidade de falar de Deus a um amigo, a hipótese de ajudar alguém a encontrar-se com Cristo, a ocasião de animar um colega ou uma pessoa de família a assistir a um retiro ou a um encontro de formação, a confessar-se, a passar a vir à Missa, a comungar, a viver a sério como filho de Deus, enche-nos de esperança, enche-nos de alegria.

Anunciar Jesus não é como ler um livro de história, que apenas procura aprofundar o passado ou recordar tradições culturais interessantes. É ajudar a encontrar, com espanto e admiração, que nunca passará, um Deus feito carne, um Deus sensível à minha amizade, um Deus sujeito aos meus desprezos e rebeldias, um Deus que se humilha, ao ponto de morrer na cruz. Por isso, dizia S. Paulo: "Longe de mim gloriar-me, a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo".

Temos, portanto, que ser semeadores alegres e confiantes, sem que nunca o cansaço ou o desânimo nos paralisem, para que possamos também colher o bom trigo. E quando o colhermos, vamos oferecê-lo a Jesus, para que com ele faça o bom pão, e depois o tome nas suas mãos, para Se continuar a oferecer por nós, por meio desse pão, juntamente com o cálice precioso do seu Sangue, no altar da Eucaristia.

Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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