14 de Julho de 2019 - 15º Domingo do Tempo Comum

De quem sou eu próximo?

No Evangelho de hoje, vemos que um homem fez uma pergunta a Jesus "para O experimentar". E foi mesmo uma grande experiência! Este homem, que era um doutor da lei, experimentou a sabedoria divina de Jesus, a sua bondade, e ao mesmo tempo a sua exigência suave e forte, o seu desejo de nos ajudar a converter-nos e a sermos melhores.

Depois da resposta à primeira pergunta, que ele próprio deu facilmente, como seria de esperar, este homem percebeu que havia uma coisa que, afinal, ele não sabia. Ou melhor, sabia perfeitamente que na Sagrada Escritura estava escrito: "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento; e ao próximo como a ti mesmo".

Mas, de repente, sentiu-se inseguro: sera que estava mesmo a viver este duplo mandamento da Lei de Deus? Se calhar, a primeira parte, sim, pelo menos julgava que sim, mas a segunda parte, já não tinha a certeza... Então, ganhou coragem, acabou com a encenação, e perguntou a Jesus: "«E quem é o meu próximo?»"


Rembrandt, O bom samaritano (1630)

E Jesus, através de uma parábola, ensinou-lhe uma coisa muito importante, que até esse momento, de acto, ele não tinha percebido. Foi como se Jesus lhe dissesse: 'Não interessa perderes tempo a pensar quem é o teu próximo. O que interessa é que tu sejas o seu próximo! Aquele samaritano, ao ver no chão um homem que tinha sido roubado, espancado, cheio de sangue, em perigo de vida, não se pôs a pensar: 'Ah, sim! Este é o meu próximo'. Não, simplesmente, como diz o Evangelho, "aproximou-se". Isso mesmo: "Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele". Saber quem é o próximo é uma questão teórica, não vale a pena perder tempo com isso. Agora, aproximar-se, fazer-se próximo, não oferece dúvidas a ninguém: ou se faz, ou não se faz.

Por isso, na conclusão da parábola, Jesus não disse ao doutor da lei: 'Agora já estás descansado, já sabes quem é o teu próximo', mas sim: "«Então vai e faz o mesmo»", isto é, não passes adiante, não vires a cara, não finjas que não vês, não passes para o outro lado da estrada, aproxima-te!

Quando se põe a questão nestes termos: 'O meu próximo são todos os homens, qualquer que seja a sua cor da pele ou a sua cultura', o grande perigo é ficar tudo na mesma. Mas, quando a questão se põe em termos de saber de quem é que eu sou próximo, de quem me aproximo, de quem me faço próximo, então tudo se torna diferente. Jesus explicou claramente que o samaritano não se limitou a perguntar ao homem que estava caído no chão, como às vezes acontece nos filmes: 'Sente-se bem?', mas tratou-o logo ali conforme pôde, e a seguir levou-o para uma estalagem, e pagou-lhe o alojamento e os cuidados necessários, naqueles dias e nos dias seguintes...

Quando eu reconheço que tenho de me fazer mais próximo daquele meu amigo que anda triste há uma série de dias, e ainda não percebi porquê; quando um casal repara que há um casal amigo que parece que não anda bem, dá a impressão de que gostariam de conversar, mas ainda não tiveram coragem; quando um colega de trabalho se sai um dia com umas perguntas sobre Deus, ou até com umas críticas, uns comentários estranhos, mas que nofundo revelam um desejo de perceber melhor a vida; nestes e em tantos outros casos torna-se evidente que não estamos diante de um assunto que se pode despachar rapidamente, como quem dá uma esmola, mas que é o início de um caminho que pode não ser fácil, que pode ser muito longo, e que nos pode levar muito longe, como aconteceu com o bom samaritano da parábola que Jesus contou.

O grande problema dos cristãos é que, muitas vezes, não se aproximam, não se fazem próximos, e assim os que já estavam longe, acabam por ficar cada vez mais longe. Ou então, só o fazem esporadicamente, sem continuidade. Dão uma ajuda momentânea, e depois desligam-se. É evidente que a partilha material nos ofertórios das Missas em circunstâncias especiais é muito importante; o apoio moral numa hora de aflição, numa emergência, é indispensável, tem de ser feito. Mas Jesus pede-nos mais!

Pede-nos uma atenção contínua, constante, que nos leva a aproximar-nos, a tornar-nos próximos, e a permanecer próximos, para servir Jesus nos outros, como o próprio Jesus deseja e necessita de ser servido.

Há uma missão que nos foi confiada, e que nunca termina, nunca está concluída. Não é nenhum peso, é uma alegria, não é nenhum fardo, é uma honra e uma graça. É a missão de anunciar o mistério de Cristo, em toda a sua verdade, em toda a sua beleza. Quem tem fé em Jesus, "imagem de Deus invisível", reconhece também que "n'Ele foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis", como hoje ouvimos na 2ª leitura. Jesus Cristo é o fundamento e o sentido de todo o Universo, de tudo o que existe, e é n'Ele e por Ele que a misericórdia de Deus nos atinge. N'Ele acontece a reconciliação profunda entre Deus e os homens, e é "pelo sangue da sua cruz" que se estabelece a verdadeira paz.

Como é possível não ter este grande desejo de que Jesus Cristo seja conhecido e amado por todos? Anunciar Jesus aos outros é, muitas vezes, um caminho longo. Mas, se o iniciarmos com esperança e confiança, acreditamos que um dia chegaremos à meta, não sozinhos, mas com uma grande multidão de irmãos. Que esta esperança nos anime a um serviço cheio de amizade e caridade para com todos, à imagem do Bom Samaritano que é, afinal o próprio Jesus, que não Se poupou a nada, ofereceu na cruz a sua vida portodos nós, e nos deixou a sua Igreja, esta bendita «estalagem» onde somos curados, tratados, alimentados, fortalecidos, até à sua vinda gloriosa, no fim dos tempos, quando vier de novo, já não na humildade da sua natureza humana, mas na glória do seu poder divino.

Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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