22 de Setembro de 2019 - 25º Domingo do Tempo Comum

Esperteza mundana e esperteza cristã

Narrando a parábola de um administrador desonesto mas bastante astuto, Cristo ensina aos seus discípulos qual é o modo melhor de utilizar o dinheiro e as riquezas materiais, isto é, dividi-las com os pobres, conquistando assim a sua amizade, em vista do Reino dos céus. "Arranjai amigos com o vil dinheiro para que, quando este faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos" (Lc 19, 9).

O dinheiro em si não é "desonesto", mas mais do que qualquer outra coisa pode fechar o homem num egoísmo cego. Trata-se portanto de realizar uma espécie de "conversão" dos bens económicos: em vez de os usar só para benefício próprio, é preciso pensar também nas necessidades dos pobres, imitando o próprio Cristo, escreve São Paulo o qual "sendo rico se fez pobre por vós, a fim de vos enriquecer pela pobreza" (2 Cor 8,9). Parece um paradoxo: Cristo não nos enriqueceu com a sua riqueza, mas com a sua pobreza, isto é, com o seu amor que o levou a doar-se totalmente a nós.


A parábola do administrador desonesto

Poderia abrir-se aqui um vasto e complexo campo de reflexão sobre otema da riqueza e da pobreza, também a nível mundial, no qual se confrontam duas lógicas económicas: a lógica do lucro e da distribuição equitativa dos bens, que não estão em contradição uma com a outra, se a sua relação for bem organizada. A doutrina social católica sempre defendeu que a distribuição equitativa dos bens é prioritária. Naturalmente o lucro é legítimo e, na medidajusta, é necessário para o desenvolvimento económico.

João Paulo II escreveu assim na Encíclica Centesimus annus: "A moderna economia de empresa comporta aspectos positivos, cuja raiz é a liberdade da pessoa, que se exprime no campo económico e em muitos outros campos" (n. 32). Contudo, acrescentou ele, o capitalismo não deve ser considerado como o único modelo válido de organização da economia (cf. ibid., 35). A emergência da fome e da ecologia estão a denunciar, com crescente evidência, que a lógica do lucro, se é prevalecente, incrementa a desproporção entre ricos e pobres e uma exploração arruinadora do planeta. Quando ao contrário prevalece a lógica da partilha e da solidariedade, é possível corrigir a rota e orientá-la para um progresso equitativo e equilibrado.

Maria Santíssima, que no Magnificat proclama: o Senhor "encheu de bens os famintos e aos ricos despediu­os com as mãos vazias" (Lc 1, 53), ajude os cristãos a usar com sabedoria evangélica, isto é, com solidariedade generosa, os bens terrenos, e inspire nos governantes e nos economistas estratégias clarividentes que favoreçam o progresso autêntico de todos os povos.

Bento XVI, Angelus de 23.09.2007

 

A parábola do administrador desonesto deu a oportunidade ao Papa Francisco para falar do "espírito do mundo", de quanto age a mundanidade e como é perigosa. Ele recordou como Jesus rezava ao Pai para livrar seus discípulos da mundanidade.

"E este administrador é um exemplo de mundanidade. Alguém poderá dizer: 'Mas este homem fez o que todos fizeram!' Mas todos, não! Alguns administradores, administradores de empresas, administradores públicos, alguns administradores do governo...Talvez não são tantos. Mas é um pouco aquela atitude do caminho mais curto, mais cómodo para ganhar a vida".

Na parábola, o patrão admirou o administrador desonesto pela sua astúcia. Segundo o Papa, é um elogio ao suborno, uma prática mundana e pecadora, que não vem de Deus.

"Deus nos mandou levar o pão para casa com nosso trabalho honesto! E este homem, administrador,levava­o como? Dava de comer aos seus filhos pão sujo! E os seus filhos, talvez educados em colégios caros, talvez crescidos em ambientes cultos, tinham recebido de seu pai como alimento algo sujo, porque o seu pai, levando para casa pão sujo, tinha perdido a dignidade! E este é um pecado grave! Porque se inicia talvez com um pequeno suborno, mas é como a droga!".

Francisco afirmou então que esta atitude de suborno torna-se uma dependência. Mas lembrou que se há uma "esperteza mundana", há também uma "esperteza cristã" de fazer as coisas não com o espírito do mundo, mas honestamente. É o que diz Jesus quando convida o homem a ser astuto como as serpentes e simples como as pombas: colocar sempre junto estas duas dimensões "é uma graça do Espírito Santo", um dom que se deve pedir.

"Talvez hoje nos fará bem rezar por tantas crianças que recebem de seus pais pão sujo: também estes estão famintos, têm fome de dignidade! (...) Esta pobre gente que perdeu a dignidade nas práticas do suborno leva consigo não o dinheiro que ganhou, mas a falta de dignidade! Rezemos por eles!".

Francisco, síntese da homilia em 08.11.2013, na Casa de Santa Marta.

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